Contos Breves

Eliana Pougy

Armário
Ela nunca abre seu armário. Tem medo de que tudo caia em cima dela. Fica lá, sentada na cama, olhando pra ele. Nem se lembra mais o que tem lá dentro. Por isso comprou as prateleiras. No seu quarto tem várias. As roupas que ela usa ficam nelas. Depois que se cansa das roupas, dá pra alguém. - Será que ele é gay? Abrir o armário, nunca. Desde pequena tem medo de armário. Lá dentro é escuro e cheira mal. - Alguém me disse uma vez que o ser humano ideal é bissexual. Será? Sabe que no armário tem roupas de uma época que não vai mais voltar. Pode ser que nem sirvam mais pra ela. Às vezes, se enche de coragem. Fica lá, parada, na frente do armário. Como agora. - Se ele for, não vou parar de gostar dele. Ela põe a mão no puxador da porta. - Vou continuar gostando. Sua mão treme. - E o que eu faço com meu desejo? Fecha os olhos, instintivamente. - Vou continuar desejando. Do mesmo jeito. Abre os olhos. Não tem coragem. Sabe que a porta vai continuar fechada. Pelo menos por hoje.

Consentimento
Foram os peitos empinados dela que vieram para o meio de nós. Não que os meus não fossem, eles são. Mas os dela eram esfregados na nossa cara, cheios de mamilos e maciez. Você olhava pra eles, babando, e nem disfarçava. E eu, de camarote, vendo o desfilar de peitos e bunda arrebitados e de sua saliva escorrendo pelo canto da boca. Ela chegava e sua cabeça girava e ficava sorrindo pra ela, hipnotizado, enquanto passava a mão nas minhas coxas. Ela não usava sutiã, numa tremenda afronta à lei da gravidade, afinal, já não éramos mais tão menininhas. Eu arfava e ficava sem ar, por ela, por você, por todos nós. Ela desfilava na nossa frente e eu olhava para as suas ancas rebolando, seus peitos balançando. A calcinha dela estava sempre estrategicamente lá. E seu olho também. Era foda. Você apertava minha nuca e me deixava arrepiada e puxava conversa fiada com ela. Eu nem ouvia, nem prestava atenção nas palavras, só via a sua boca (a dela) se mexendo em bicos e sorrisos. Você me beijava e sorria para ela. Você servia cerveja gelada para mim e para ela. Bebíamos e dávamos risada e, os três, bêbados, íamos embora juntos pra voltar no dia seguinte. E foi naquela noite que eu sofri. Sofri quando te vi segurando a cintura dela. O abraço de vocês cheio de más intenções. Eu, de dentro do carro, vendo seus sexos encostarem um no outro. E você, dando a maior bandeira que eu já havia presenciado. Fomos direto pra cama, nos amar. Naquela noite, chupei seus peitos pensando nela. E decidi que nós nunca mais a veríamos. E você, aceitou.

Prato frio
Quatro horas da tarde de domingo e nada. O relógio tic-tac no pulso do menino, mostrando o tempo perdido entre um programa de tv e outro. Suspiro ecoa no ouvido da mãe que lava o copo na cozinha com restos de leite gelado. Na boca do menino, um bigode branco seca e ele olha. Olha a tela mostrando margarina, cachorro, risadas. Ele ali, sentado, quatro e meia da tarde e nada. Cadê pai?
No meio da rua, buzina de caminhão, luz vermelha de farol, porrada e grito de mulher.
Telefone toca e alô, sim, onde ele está? Já estou indo, já estou indo. Correria, adrenalina, cheiro de hospital, criança assustada puxada pela mão, pela mãe. Pai olha. Mãe chora. Menino não entende. Nunca mais, nunca mais, ela fala segurando um pote de vidro. O pai desfalece. O menino quase vê o que a mãe esconde. Na outra cama, a mulher. A mãe, histérica: sua vaca, sua vaca! A mulher geme e não fala. Não responde à mãe-esposa que grita: há quanto tempo isso, há quanto tempo isso?, responde, responde! A enfermeira entra no quarto e fala uma fala branca: minha senhora, ela não pode mais. E mostra o vidro. Lá no fundo do éter, embaixo do pedaço do pau do seu marido, um pedaço de língua.

Master piece
Foi descendo as escadas de mármore sem olhar para os degraus. Tinha pressa. Transpirava por todos os poros, roia as unhas, chorava baixinho. Estava correndo tanto que sentiu uma lágrima grossa voar de seu olho e molhar seu cabelo. Olhou para trás e sentiu alívio. Ninguém viu o que tinha acontecido, ninguém poderia ter visto, não, por favor. Porque logo com ela, meu deus, justo com ela? Não foi de propósito, não foi, ela repetia, baixinho, num gemido. Foi começando a cansar, foi diminuindo o passo. Tinha alcançado a saída do prédio e a porta art nouveau cheia de arabescos e relevos de flores. Parou e encostou-se numa coluna. Cobriu o rosto com as mãos. Lembrou dele, ainda há poucos minutos, sorrindo pra ela, no salão principal. Lembrou de suas mãos estendidas e de seu corpo ali, se oferecendo. Não, jamais. Nem em sonho. Ela nunca poderia adivinhar. Como ela poderia saber que ele se desmancharia em pleno ar, quebraria em mil pedaços, se desintegraria? Porque nunca ninguém lhe falou sobre isso? Ela não sabia. Ela não sabia que tem gente que é só obra de arte. Tem gente em que é proibido tocar.

From the future
Ele saiu do avião um pouco tonto. Essa dor de cabeça ainda iria estourar seus miolos. Tinha uma reunião dali a umas duas horas, mais ou menos. Foi procurar a sala de reuniões do aeroporto para ver se estava tudo certo. Era uma sala pequena com uma mesa no centro e, em cima dela, um monitor de 40 polegadas. Ele preparou o vídeo para ser dividido em oito imagens. Sim, eram oito os participantes da reunião. Gente do mundo todo, ao mesmo tempo, ali, na sua frente, cada um em um aeroporto diferente.
Essa vida de executivo era realmente estressante. Não só pelas decisões que tinha que tomar mas pelo fato de viver de aeroporto em aeroporto. Sempre a caminho. Sempre indo. Um ser em trânsito. Tomou um remédio para dor de cabeça. Agora sim, podia relaxar um pouco. Saiu da sala.
É, as pessoas desse lugar eram bonitas, sem dúvida. Onde era mesmo que ele estava? Nem se lembrava mais. Olhou para fora da janela: uma paisagem belíssima. Parou e ficou observando a camada de poluição que pairava no horizonte. Era uma pena não poder sair lá fora. Uma pena. Continuou sua caminhada.
De repente, seu celular emitiu um som característico. Era uma mensagem que conhecia muito bem. Era um homem atraente, não era difícil arranjar boa companhia. Olhou em volta e logo descobriu de onde vinha a mensagem. Voltou os olhos para a tela de seu celular:
- Nickname - Vida
- 30 anos
- saúde perfeita
- olhos verdes
- cabelos loiros
- tipo de sexo: normal
Ele apertou o botão send. Concordou em fazer sexo com ela. Estava mesmo precisando. Ele a seguiu. Foram para uma pequena sala, com uma cama. O local era simples e elegante. Clean. Esse estilo nunca sairá de moda mesmo, pensou ele. Os dois tomaram suas pílulas de prazer. Ela levantou a saia e tirou a calcinha. Virou de costas para ele. Ele já estava pronto para copular. Penetrou-a com delicadeza. Sexo normal era assim: de pé, de costas. Fechou os olhos. O movimento do sexo era bom. Ela gemia baixinho, discretamente. Então, uma vertigem tomou conta dele.
- Desculpe, preciso me sentar um pouco.
- Sem problemas, disse ela.
Ao abaixar-se, sem querer esfregou seu rosto nos seios dela. Sentiu uma sensação diferente. Perdeu o equilíbrio e acabou por puxá-la para a cama. Seus olhos se encontraram. Daí em diante, ele se descontrolou. Suas mãos descobriram lugares do corpo dela que ele nunca tinha percebido em uma mulher. Sua língua descobriu sabores diferentes, doces, femininos. Sentiu perfumes e aromas que jamais sairiam de sua pele. Quase perdeu os sentidos. Ou, descobriu outros, esquecidos. Ela sentiu o peso dele. Sentiu sua própria fragilidade. Perdeu-se. Gritou, até. Desnudaram-se. Renderam-se. Até cansar.
Quando ele acordou, vestiu as roupas rapidamente. Ela continuou dormindo com um leve sorriso no rosto. O que tinha acontecido afinal? Ele estava doente, não tinha dúvida. Essas dores de cabeça, esse mal-estar. Ninguém poderia saber o que tinha acontecido, jamais. Fugiu. Perdeu a hora da reunião e precisou correr para não perder o avião, que já ia partir. Voou com uma sensação esquisita. Uma dor no peito, um peso no alto da cabeça. Suspirou uma, duas, diversas vezes. Estava sentindo uma ausência, uma falta, um tipo de nostalgia. É, era isso. Nostalgia. Mas não sabia bem do quê.


ELIANA POUGY é paulista, autora da coleção Criança e Arte, pela editora Ática. É mestranda em Psicologia e educação pela FE/USP.