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O santo bode Frederico
Tudo começou quando Reginaldito espragatado numa
das mesas do bar de Joaquinzão, todo despojado que nem genro na casa de
sogro, camisa desabotoada do calor, braguilha sustentada no zíper,
pernas descansando sobre a mesa, trovejou solicitação com aquela
grosseria peculiar, requerendo cigarros para baforar desbragadamente,
enquanto levantava implicâncias regadas a uma frenética cervejada com
seus comparsas de sempre.
O dono do boteco, meio que com desdém pelo fiado
que se afixaria como uma espada excalibur no peito da vampira
cadernetinha de contas, colocou, letárgico e cheio de má vontade, o
requisitado em cima do balcão. E, como o requerente pabulava muito com
outros camaradas de sua laia, nem se dava conta do desleixe dele.
O maço de cigarros ficara no balcão um logo
tempo.
Reginaldito sabia e requeria que o dono atendesse
com a maior cordialidade, presteza e dedicação aquele que seria um
freguês dos bons, pois era a obrigação dele, ora, exigindo que
entregasse na mão.
Joaquinzão, puto da vida, já optava que se ele
quisesse que viesse buscar. Dever de quem? Como ninguém arredara disso,
ficara nisso. Nem mel, nem cabaça.
Aí se deu que o bode, figura apaziguadora de
tantas malquerenças, foi até lá e atendera o pedido a quem pedira. Este
fato chamou a atenção dos presentes, a ponto de Reginaldito e seus
comparsas ficarem admirados com a proeza do caprino, agradecendo-lhe com
um afago na cabeça.
- Esse é o Frederiko que eu conheço!
Foi aí que tudo começou.
Toda alacridade dos achegados tornaram o pai de
chiqueiro fedorento numa azêmola para seus interesses. Daí nasceram
entrega de recados inscritos em papel para outrem distante, compras de
remédio levadas por receitas obscuras à botica, cartas com juras
enamoradas às preferidas do coração, bilhetes contendo ofensas anônimas
e rixas afloradas, marcação de rinhas no mormaço do meio dia,
solicitações descabidas de empréstimos por velhacos a novos credores e
até depósitos bancários, em espécie, o danado efetuara.
Era mesmo, gente. Isso não só eu vi, muitos
testemunharam e, ainda hoje, confirmam, nos mínimos detalhes, tudo que
pensem que eu inventara.
Pois é. Tudo que fosse preciso, enrolava a
requerência na barbicha do carneiro que ele levava onde quer que o
necessitado estivesse.
Já usavam-no até como correio exclusivo da
cidade. Inclusive o seu melhor amigo, o Grilo carteiro, quando assolado
de sua priguicite aguda, usava de tal expediente ao precisar
dismilinguir-se. E saía o bode entregando as correspondências uma a uma,
pela cidade toda, sem sequer receber uma só reclamação de extravio ou
troca de destinatário.
Por isso e muito mais, virou Frederiko, então,
por tal diligência, o coqueluche do momento, o roliúde da situação.
O Frederiko, nosso amigo, era da raça Moxotó, com
um lombo preto, de cor creme, oriundo de uma cabra de Bodocó, cidade
interiorana do sertão pernambucano.
Estava por aquelas bandas há muitos anos. Era
partícipe de todas as famílias da localidade, onde todos alimentavam e
cuidavam bem dele. Tudo por causa de sua serventia.
Não era fastioso, não, só andejo, invasor de
cercados ou destruidor de hortas, não só se nutrindo de forrageiras
comuns, de folhas de árvores e de arbustos, de frutos, de restos e até
do lixo da cidade, viciando-se a comer de tudo, até a beber e fumar.
Ôxe, quando o mesmo chegava no bar do Joaquinzão,
botavam logo uma tigela com aguardente ou cerveja ou vinho ou aperitivo
que fosse, para ele se esbaldar. Era a paga do reconhecimento público.
Não incomodava ninguém, exceto quando, meio lá e
meio cá, orelhas quentes, avistava uma cabra Toggenburg ou uma outra
Mambrina de alguns produtores da região. Vôte! Quando uma delas passava,
o bicho berrava e corria atrás da faceira desaparecendo por dias.
Cadê-lo? Tá molhando o biscoito, gente!
Aí vem que um dia, deram de inventar um
plebiscito para que a comunidade sufragasse se aceitava ou não a
reeleição do prefeito, uma sugestão do próprio gabarola público, certo
de confirmar suas bazófias por mais quatro anos na prefeitura.
Era um despropósito, mas era. Não sabia ele, o
edil aproveitador, ou não queria saber que tal desplante seria a pedra
de escândalo dali.
O povo andava mordido de anos com as
administrações públicas, de anos em anos arrombando, de eleição em
eleição, com a edilidade. Uma atrás da outra, sempre enricando o bicho
sabido e fudendo a populaça.
Tantas quizílias fomentaram para impetrarem
muitas ações populares, instalações de requerimento de impeachment,
pedidos de cassações, vuque-vuque eleitoreiro, tudo por causa dos
postulantes entrarem liso na prefeitura e saírem ricos milionários ao
término do mandato, com a população cada vez mais enterrada na pobreza.
Claro que Alagoinhanduba não seria uma exceção no
Brasil, claro que não. Mas até que tentaram.
No dia aprazado o resultado explodira como uma
bomba nos meios políticos. Noventa por cento da população votara pelo
nome do Frederiko na condição de prefeito local na eleição vindoura. E o
mais curioso é que oito por cento dos votantes se eximiram de
consignarem seus votos em branco e apenas os dois restantes se dividiram
pela reeleição ou não do atual representante. Bombástico! Neguinho nem
dormiu naquela noite com a insônia de ver seu mandato por água abaixo
mediante a preferência pelo bode na prefeitura.
A água esborrando pela borda traria conseqüências
desastrosas, grandes animosidades, abrindo reações contrárias aos que se
encontravam alojados, parece que por usucapião, no poder.
Candidatos outros da oposição ou mesmo
concorrentes da situação passaram a usar o mamífero artiodáctilo
ruminante como símbolo de campanha.
Frederiko nem tava aí para a puxação de saco,
vivia entre as comunidades mais pobres e entre os seus amigos que lhe
davam o de comer dias e noites e noites e dias, regularmente. Era fiel e
isso bastava a todos.
O chefe da administração pública municipal, seus
asseclas, prosélitos, claques e aproveitadores quase tiveram um colapso
na hora.
Na reunião apuradora ficaram de boca aberta sem
piscar o olho, imobilizados com o estupendo resultado.
Estava toda administração pública comprometida. -
Isso é um vitupério! -, gritou o prefeito mais que aborrecido.
A notícia chegou na capital e as manchetes
explodiram: povo prefere bode a prefeito. Bode é escolhido como
candidato. Predileção popular por bode derruba prefeito.
Virou balbúrdia. Uma zona!
A televisão endoidou atrás dele oferecendo cachê
caro para uma exclusiva, passagens aéreas, acomodações em hotel cinco
estrelas, limusine e uma platéia enlouquecida no auditório.
Frederiko nem se dava conta de sua popularidade,
continuava ali, atendendo pedidos e bebericando com os seus.
Um outro desplante encolerizou o mandatário:
puseram uma faixa presidencial verdeamarela no dorso dele, Fredriko e já
o tratavam por prefeito antecipado.
Nossa, que desastre!
O escolhido que já ficava apenas em duas patas,
todo garboso quando se executava o hino nacional, agora já ensaiava um
bé bé bé acompanhando a letra de nossa egrégia representação musical. E
seguia afinadíssimo do início ao fim, só voltando a posição de
quadrúpede após o encerramento dos tons da banda marcial.
Esse fato chamou atenção até de programas
televisivos nacionais, sendo inclusive convidado especial ao programa do
Jô Soares para uma entrevista onde ele apresentaria sua plataforma
política.
Alguns voluntários, que eram muitos, agendavam
sua vida.
Era uma penca de jornalistas e repórteres
querendo a sua impressão sobre o fato.
Não havia programa no país inteiro que não
apresentasse matéria de instante em instante sobre ele. Até votos de
solidariedade de inúmeros partidos das mais diversas regiões brasileiras
abarrotavam o comitê de Frederiko.
Os animais dos zoológicos nacionais, dos parques
e das reservas ecológicas do país, do Instituto Butantã, do pantanal
matogrossense, da floresta amazônica e das matas sobreviventes, enviaram
apoio solidário à sua candidatura.
Não foi menor a ovação quando apresentaram-no
como candidato a candidato para a convenção visando as eleições
majoritárias de outubro e davam-no por certo unânime vencedor logo no
primeiro turno em todas as pesquisas de boca de urna.
Por isso, confeccionaram bótons, crachás, bonés,
camisetas, flâmulas, santinhos, folhetos, cartazes, faixas, out doors,
out bus, inserções, vinhetas, impressões várias, material farto de apoio
propagandístico ao seu pleito. E mais que um chavão: o bode é a solução!
Não fique com a cara de priquito, vote para prefeito no bode Frederiko.
Não faça do seu voto um defeito, vote no bode para prefeito! Chega de
tanto roubo, vote no bode, este é probo! Abaixo ladrão, o bode é povão!
E a coisa pegou fogo, era nego falando em
Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar corrupção passiva, ativa e
ineivada na prefeitura. Foi uma danação de gente a remexer em tudo,
vasculhar meandros, levantar lebre, pulga nas orelhas alheias, dúvidas,
desconfianças, apontaram improbidades, apropriações indébitas,
malversações no erário público, averiguaram o abastecimento de água,
inquiriram critérios no fornecimento de energia elétrica, na
distribuição de lotes foreiros, nas sentenças jurídicas absolvendo
facínoras, nas multas de trânsito dos guardas municipais, nos
medicamentos das farmácias, nos combustíveis dos postos de gasolina, nas
remarcações dos supermercados, na admissão de bóia-frias para colheita
das usinas de cana-de-açúcar, nos concursos públicos para provimento de
cargos, nos atendimentos das urgências hospitalares, na venda do açúcar
para o exterior, na extração da Petrobrás, nas entradas e saídas dos
motéis, nos buracos das vias de acesso da cidade, nas vendas de pneus e
peças de veículos, na poluição do rio, no tráfico de animais e drogas e
influências, na derrubada das árvores pelos dendroclastas gratuitos, na
câmara de vereadores, na assistência da previdência social, no
peleguismo do sindicato rural, na colônia de pescadores, na creche da
Casa da Criança, no escritório da Legião Brasileira de Assistência -
LBA, nas ligações telefônicas, no flerte e abuso de ricos sobre as
virgens pobres coitadas, no Lions, no Rotary, na venda de armas
indiscriminadas, nos lucros das usinas de açúcar, nas secretarias da
prefeitura, na regulamentação de táxis e perueiros, nos apadrinhamentos
políticos, nas contas bancárias, nas despesas do vigário, nas comissões
de desenvolvimento municipal, nos reclamos populares, nas contratações
de empreiteiras e construtoras, nas cirurgias médicas equivocadas, no
abuso do poder dos policiais, nas dependências do Detran, nas escrituras
públicas do cartório de registro de imóveis, nas contrafações públicas,
na vida dos fiscais e exatores da coletoria estadual, no pente fino da
Receita Federal, na concessão de emissoras de rádio, na lavagem de
dinheiro em factorings escusas, nas rendas dos clássicos esportivos, nas
verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador, nos programas de saúde
pública, na penhora de bens pela justiça do trabalho, na fuga de
bandidos da delegacia, nos prêmios da loteria federal, nos fuxicos das
mulheres quando vão à manicura ou cabeleireiro, na usura dos agiotas,
nos cafundós de Judas, na cabeça prá baixo seis metros de inferno a
dentro, nas riquezas do subsolo, nos lençóis freáticos, nas nuvens
carregadas, nos testamentos dos defuntos enterrados, nas certidões de
óbitos do cartório de Registro Civil, no cadastramento do CIC, no
recenseamento do IBGE, nas contas bancárias dos fantasmas da corrupção
nacional, nas máquinas registradoras dos mercadinhos, na História do
Brasil, no Planalto Central, se puseram por debaixo das camas dos
munícipes, pelos lençóis, pelas bicas, pelas caieiras, pelas calhas,
pelos esgotos, pela canaletas, pelos combongós, pelas infiltrações,
pelas manilhas, pelas escorredeiras, pelas chaminés, fossas, brechas,
frestas, canais, - ui! - buracos, furicos, - êpa! - etc, etc, etc...
- Nessa aqui não!
- O quê, qué encobrir safadeza, é?
- Tem boi na linha, besta!
- Quer levantar lebre?
- Tudo tem que ser apurado em nome da honra de
Frederiko!
- Vamos entregar a ele um município e um país
limpos!
- Temos que limpar essa sujeira toda, é? Não tem
vassoura que dê vencimento!
- Deus é grande mas o mato é maior!
- Ostente menos e faça mais!
- Quem faz mal, mal espere.
Queriam mesmo, os acochados, passar tudo a limpo,
preto no branco, ou vai ou racha, ou quebra o pau ou entroncha ou lasca
a pica, e usavam o Frederiko como testa de ferro, o laranja da salvação
nacional.
As ameaças chegavam montadas no cavalo de Átila,
devastadoras. É fogo na roupa!
A cidade se tornara insone devido as intenções
investigativas dos munícipes. E o bode angariava cada vez mais a
acolhida popular, segundo nova pesquisa, alcançando noventa e oito por
cento da preferência do eleitorado.
O município que possuía sessenta e dois mil
habitantes, segundo o senso divulgado pelo IBGE de 1975, com trinta e
dois mil eleitores, já viu a proporção, né? Apenas mil e poucos
apaniguados estavam fora dessa adesão, isto é, justamente os alvos
investigatórios que puxavam uma corda de siri interminável, queimando a
bunda até de quem se achava absoluto inocente.
A febre tomou conta. Atocha, macacada!
A maioria avassaladora queria participar da CPI,
até os trambiqueiros fizeram lobby. Foi a maior esculhambação. A cidade
virando notícia diária nos jornais.
O prefeito buscando uma saída, escarrou com raiva
e se aproveitou da ocasião do aniversário do padre e entregou-lhe uma
vultosa côngrua, antes que o sacerdote lhe chamasse a atenção e
debandasse para as bandas dos 007s de plantão. Generosidade de usurário.
Quanta tramóia nascia então. Até os castiçais da matriz tremiam como num
terremoto. As autoridades estavam corridas de vergonha. Quanta
ignomínia? Quantos infratores? Surdos e cínicos com seus subterfúgios
sofriam agora transidos de medo, totalmente desfigurados. Os pérfidos
tapiaram armando conspiração contra aquele símbolo da refrega popular.
Olhe só o tamanho da fedentina.
Às vésperas do dia da viagem de Frederiko ao sul
maravilha para entrevistas em cadeia de rede nacional, reuniram todas as
catrevagens e os basculhos dele num escaninho, esconderam-no assim na
capital, longe, poupando-lhe qualquer atentado. Foi em vão.
Na hora de seguir para o aeroporto, a população
maciça com banda de música e tudo às portas do avião, recebeu a notícia
decepcionante: Frederiko fora crivado de balas numa via expressa
enquanto era ovacionado na capital. Esticou as canelas ali mesmo, na
hora. Um Gol branco com cinco ocupantes não identificados, desferiram
tiros de metralhadora contra a esperança de todos.
- Salvou-se uma alma!
- O Brasil se lava com sangue de pobre inocente!
Meses depois fizeram construir na praça
principal, apesar dos protestos dos maiorais do lugar, uma estátua em
homenagem a Frederiko.
Aí a coisa cresceu mais, quanto mais gente
chegava que tocasse numa das partes do bode se curava das mais diversas
chagas e doenças.
A parte mais tocada era a peia, tocasse nela,
tava curado. Um escândalo! Uma peia que salvava o povo do sofrimento,
das doenças e dos vigaristas.
Uma romaria enorme, quantos pedinchões oriundos
de norte a sul do país ali se penitenciavam buscando solução para os
seus problemas, milagres até de última hora.
Já tinha nego reclamando do tanto pega-pega no
cacete da imagem.
- Vão terminar gastando os milagres do caralho
dele, ora!
Uma flâmula enorme fora hasteada drapejando ao
vento com a insígnia dele clamando por justiça.
Não faltou quem pleiteasse a canonização do bode
o que gerou uma grande briga com o Vaticano.
- Ué, de que lado está a igreja católica afinal?
Não fora canonizado oficialmente, mas o povo do
país inteiro tratam-no, até hoje, por Santo Bode Frederiko.
LUIZ ALBERTO MACHADO, é pernambucano. Cursou Letras e Direito.
Publicou vários livros de poesias e literatura infantil. Compositor
musical com várias músicas gravadas por novos nomes da nova música
nordestina. Tem prontos para lançar 4 livros de contos, 2 de poesias, 2
infantis e 3 peças teatrais, além de diversas músicas para reunir em
disco. Possui artigos publicados nos jornais Gazeta de Alagoas, Jornal
de Natal e Diário de Pernambuco.
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