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O "amargo" Bierce:
mentor para os tempos que correm
Mais do que o polegar oponente ou a conquista da postura vertical, o que
nos separa, realmente, dos primatas é a capacidade de olharmos a
realidade - e de nos relacionarmos com ela - usando da ironia.
O que melhor expressa a condição humana, senão o meio-sorriso sombreado
por uma fácies de relativa superioridade, acompanhado de um comentário
sutilmente jocoso e, ao mesmo tempo, ácido, capaz de corroer, de maneira
rápida e eficiente, os costumes? Expomos, assim, as intenções camufladas
de outrem, denunciamos seus verdadeiros interesses - quase sempre não
muito honestos - e ferimos, algumas vezes mortalmente, certas
más-intenções ou determinadas atitudes mesquinhas. Tudo regado ao que de
melhor nosso mais fino humor pode criar.
Quando esse instrumento primoroso de crítica é transportado para a
escrita, ele alcança níveis superiores de eficácia, pois se cristaliza,
permanece. A escrita, se for obra de um gênio, pode generalizar sem
perder a força, ou seja, tratar de temas universais sem ter diluída a
sua acidez. Dando forma ao escárnio, o texto pode alcançar o mais alto
grau da ironia: o cinismo.
E quando todas essas qualidades reúnem-se num único escritor, nem mesmo
a indiferença ou os ataques mais baixos dos seus detratores (quase
sempre os atingidos pela zombaria do gênio) conseguem destruir o efeito
supra-histórico dessa obra.
Todas essas imensuráveis qualidades estão condensadas em Ambrose Bierce.
Não por outra razão um de seus principais livros intitulou-se,
originalmente, O Dicionário do Cínico, depois conhecido como O
Dicionário do Diabo (publicado entre nós pela Mercado Aberto). Nele,
condensada em breves comentários e aforismos saborosos e ríspidos,
encontra-se a zombaria plena de azedume que o fez ser chamado de "Bitter
Bierce" (o amargo Bierce) por seus contemporâneos.
Ele nada perdoa, jamais tergiversa. A humildade é a "paciência
necessária para se planejar uma vingança que valha a pena". Um favor,
"um breve prólogo para dez volumes de cobrança". A pudicícia, o
"comportamento que oculta uma alcoviteira". E a política, nada mais que
um "conflito de interesses fantasiado em luta de princípios. Manejo dos
negócios públicos em proveito próprio".
Nada escapa à sua argúcia. A liberdade não passa de "um dos bens mais
preciosos da imaginação". E a paciência, apenas uma "forma menor de
desespero, disfarçada em virtude". E o matrimônio? "Cerimônia na qual
duas pessoas tornam-se uma, uma torna-se nada, e nada se torna
suportável."
Infelizmente, muito pouco de Bierce está traduzido para o português. Se
quisermos conhecer sua ficção, quase sempre deliciosamente macabra,
muitas vezes parricida e sempre carregada de irreverência pelas
instituições e pela sociedade, dispomos apenas, no Brasil, da coletânea
Visões da Noite, publicada pela Record. E, em Portugal, pela Estampa,
Fábulas Fantásticas.
Além dos contos, uma importante parcela de sua produção é formada por
pequenas fábulas, cerca de 250, muitas delas reescritas a partir dos
textos emblemáticos de Esopo. Poucas páginas da literatura universal são
melhores para escarnecermos da humanidade - incluindo a nós mesmos,
claro -, pois estão carregadas desse elemento que tanto falta às
relações humanas: verdade.
Vejamos um único exemplo, intitulado Santo e Pecador:
"Meu amigo", disse um distinguido oficial do Exército da Salvação a um
Malvado Pecador, "certa vez fui um bêbado, um ladrão, um assassino. A
Graça Divina me converteu no que sou agora".
O Malvado Pecador o examinou dos pés à cabeça. "Suponho que de agora em
diante", disse ele, "a Graça Divina nos deixará em paz".
Pequenos textos imortais, sem dúvida. Deliciosamente mordazes. Ao
ultrapassarem o tempo, permanecem como uma lição a todas as gerações
futuras. Uma lição, principalmente, sobre o quanto os homens podem ser
ridículos.
RODRIGO GURGEL, 44 anos, escreve ensaios, contos, crônicas,
artigos e resenhas. Presta serviços de consultoria editorial e prepara
originais para editoras e particulares. Escreve, regularmente, para os
sites Novae e La Insignia.
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