|
 |
Adalgisa
O Hímem, segundo o dicionário Aurélio, é uma prega formada pela membrana
mucosa da vagina, e possui uma abertura de forma e diâmetro variáveis.
Logo depois aparece, em negrito, a seguinte expressão: Hímem
complacente; o que não se rompe à passagem do pênis. Eu li isso e fiquei
pensando que a descoberta do sexo, na mulher, sempre me pareceu mais
complexa. O homem não tem cabaço, e isso retira um elemento importante
do conflito. Nossa primeira vez, ao contrário das mulheres, não implica
rompimento de nenhuma membrana. A única coisa que se rompe é
psicológica.
Estou falando sobre essas coisas de cabaço e virgindade porque lembrei
da minha primeira vez. Naquela época, aos dezesseis anos, meus grandes
parceiros eram o Duda e o João. Morávamos na mesma rua, nos conhecíamos
desde os primeiros anos do colégio e nossas famílias se freqüentavam.
Depois que a Adalgisa apareceu nossa amizade começou a fazer água. Ela
era nova no bairro, viera de Curitiba com a família por causa do pai,
major do Exército. Quem a conheceu primeiro foi o João, num aniversário
de quinze anos. O João recém tinha brigado com uma prima do Duda, bem
mais velha do que ele. E o Duda também já conhecia mulher, por causa da
Moema, irmã da empregada que trabalhava na casa de seus pais. Dos três
eu era o único que nunca tinha comido ninguém.
Namorei a Patrícia e a Daiane, mas nunca consegui mais do que um
peitinho e algumas carícias. Não gostava delas, também não tinha muita
paciência e atropelava as coisas. Talvez, com um pouco mais de calma,
pudesse tê-las comido. O fato de ainda não ter conseguido emplacar a
primeira relação sexual acabou me rendendo o apelido de Pistolim. Eu era
craque no futebol, mandava bem no skate, batia todos os recordes no
vídeo game, brigava melhor e também era o único que sabia empinar de
moto. O João e o Duda, comparados comigo, perdiam em muitas coisas. Em
compensação eles tinham vida sexual, que eu desconhecia até aquele
momento.
Foi quando o João começou a namorar a Adalgisa que ela apareceu lá em
casa pela primeira vez. Aos dezessete anos, parecia bem mais velha.
Lembro dela com aquele shortinho enterrado, marcando a calcinha
minúscula. Lembro das camisetas sem sutiã e daquela carinha ingênua, de
sorriso malicioso. Lembro do cheirinho de banho tomado e da rosa tatoada
no tornozelo. Voz rouca, pele morena, grandes olhos verdes. Não foi
difícil me apaixonar por ela.
Adalgisa tentou fazer parte da galera. As outras gurias eram apaixonadas
pelo João, que elas achavam mais bonito. Por causa do namoro entre os
dois ela nunca foi aceita. As rivais, invejosas, encontravam defeitos
inexistentes e faziam de tudo para explicitar o sentimento de rejeição.
Eu e o Duda estudávamos de manhã. A tarde era livre, vadia. Bicicleta no
Morro do Osso. Academia. Vídeo game. Fliperama da esquina. Zoar as
gatinhas no calçadão. O João era o único que precisava trabalhar.
Estudava à noite e trabalhava como ofiice-boy, numa imobiliária do
centro. O pai dele morreu cedo, a mãe era professora e não conseguia
sustentar os quatro filhos.
Foi numa dessas tardes que encontrei Adalgisa. Ela estava de roller e eu
de bicicleta, no calçadão à beira do Guaíba. Ficamos um tempão
conversando e depois a levei em casa. Na última hora, quando nos
despedimos, me deu aqueles três beijinhos quase na boca. Pediu o número
do meu telefone, às vezes não tinha com quem conversar.
Ligou no outro dia. Ficamos uns trinta minutos conversando. Combinamos
de ver o pôr-do-sol. Naquele momento já estava apaixonado e nem me
importei com o João. Começamos a nos encontrar com regularidade e o
resto foi uma conseqüência natural. Gostava de passar aquelas horas na
casa dela, curtindo minha claudicante vida sexual.
Foi o Duda quem descobriu que a gente estava ficando. Ele me fez
prometer que contaria tudo pro João. Disse que esperava aquilo de
qualquer um, menos eu. Argumentei que gostava da Adalgisa, não foi nada
planejado e em nenhum momento pensei em trair nossa amizade. Ele não
aceitou as justificativas, estipulou um prazo de sete dias e prometeu
contar tudo se eu não o fizesse.
Falei pra Aldalgisa e ela quase me convenceu de que o Duda estava
blefando. Tentei explicar nosso antigo código de conduta, promulgado
numa espécie de tratado que vinha desde a infância, onde a traição era
considerada falta gravíssima. Ela ficou indignada, achou nosso código
uma grandessíssima bobagem, me botou pra correr de sua casa e ainda
disse que não queria mais nada comigo, nem com o João. Éramos imaturos
demais para ela.
Aquela foi a última tarde que passamos juntos. Ela terminou com o João
sem dizer nada e nunca mais ficou comigo. Mesmo assim o Duda continuou
me cobrando explicações, insistindo pra eu contar. Segundo ele, o
restabelecimento da verdade era o único jeito de corrigir meu erro.
Nossa amizade seria hipócrita se o João continuasse ignorando aquela
traição. O Duda insistiu, deu mais uma chance. Esperou até o limite do
prazo e bateu tudo pro João.
Foda-se. A única coisa que importava, naquele momento, era ficar com
Adalgisa. Durante alguns dias, de várias maneiras, tentei falar com ela.
Liguei. Procurei no calçadão. Dei plantão em frente a sua casa. Ela não
atendia o celular, nem o telefone convencional.
Numa sexta-feira à tarde, após várias tentativas frustradas, resolvi
adotar um método não convencional e invadi a sua casa. Pulei o muro dos
fundos e entrei, na caradura. Os cachorros me conheciam, não fizeram
alarde. Atravessei o pátio, cruzei a porta da cozinha e fui me
esgueirando corredor adentro. O volume do som estava alto, lembro como
se fosse hoje, tocava uma música do Legião Urbana. Ao fundo, meio
inaudível, podia ouvir uns gemidos. Entrei no quarto de Adalgisa.
Flagrei aquela cena asquerosa e me senti um imbecil. Olhando ela ali na
cama, vagabunda, chupando o pau daquele cara mais velho que eu nunca
tinha visto, percebi o quanto fora idiota.
Angústia. Fiquei ali parado, besta. Coração dilacerado. Quando me dei
conta e resolvi fugir, tropecei numa cadeira e fui descoberto. Golpe
baixo. Corri de volta ao pátio, tentei pular o muro e caí. Dor
lancinante. Ainda estava no chão quando o cara mais velho começou a me
chutar. Perfídia. Acho que o desgraçado me confundiu com um assaltante.
Seqüelas. Quebrou dois dentes e me abriu uma buceta na língua. Sordidez.
Acordei na grama, ensangüentado e lambido pelos cachorros. Derrota.
Voltei pra casa moído, dolorido e aniquilado.
CACO BELMONTE, além do
livro Contos de Oficina 10, participou de outras coletâneas. Em 1997,
recebeu menção especial no Prêmio de Justiça e Direitos Humanos,
categoria Acadêmico, com a crônica "Circular" (posteriormente adaptada e
transformada no conto Transporte Coletivo).
|