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Theodore está me traindo !
Só de pensar na possibilidade de algo concreto sinto mal estar físico.
Meu coração dispara, vem à boca. Antes mesmo de qualquer certeza meu
pensamento voa, já penso lá na frente, já nos vejo no tribunal, divisão
dos bens, a dor, o sofrimento, a surpresa dos parentes e amigos. Calma,
preciso de calma. Não enxergo nem mesmo o painel do carro à minha
frente, as lágrimas inundam meus olhos e preciso respirar fundo para
tentar raciocinar um pouco. Faço algumas asanas na esperança de me
sentir melhor. Abro as janelas do carro. O vento frio me reanima, volto
a fechar as janelas e olho para a prova do crime: do lado direito, na
parte interna do pára-brisa dezenas de marquinhas de dedos. Com se
fossem pequenos carimbos, estampados pelo vidro mas concentrados,
exatamente, na direção de quem se encontrava ao lado do motorista. Olho
para as marquinhas e me convenço de que a autora (!) das mesmas deveria
estar bastante ansiosa para repetir por tantas vezes o mesmo gesto de
colocar o dedo no vidro. Imaginei que "ela", (porque a essa altura, ela
já tinha uma imagem definida em minha mente), estaria nervosa, talvez
cobrando alguma atitude "dele". Será possível, meudeus? Acredito e não
acredito! Ouça no rádio, são nove e meia. Falta uma hora para a minha
aula de yoga. Não posso permitir o caos que insiste em se instalar em
meu sistema energético. No sinal fechado ensaio uma mudra, gesto de mãos
que melhora nosso fluxo de energia. Meu coração ainda bate
descompassado, mas me sinto um pouco melhor. O trânsito flui lentamente
pela Columbus Avenue. Estou próxima ao Central Park, na altura da 86
Street. Com um pouco de sorte posso chegar sem atraso ao Divine Mother.
Inspiro e expiro, inspiro e expiro, quem será ela? Eu a conheço? Será
uma cliente, uma arquiteta, colega de faculdade, uma funcionária do
escritório, alguém encontrado por-puro-acaso dentro do metrô? Nada
sei...Um calor me consome, tiro o casaco, desligo o aquecedor do carro e
enquanto espero o sinal coloco um Cd com mantras tibetanos. Ao invés de
me acalmar, me enervo com aquela repetição sem fim. Volto para o rádio,
o homem do tempo informa que vem mais frio por aí. O sinal fica verde,
eu vou, eu vôo. Mas para onde ? O que será de mim depois da aula de
yoga? Depois de todas as posições invertidas, relaxamentos, voltarei
para o meu inferno particular, e aí? Tenho sede e nem uma garrafinha de
seltzerwather no carro. À minha direita o Madison Square Garden,
fervilhando de gente nessa manhã de quarta-feira. Não falta muito para
chegar ao Greenwich Village. A academia fica na Christopher Street e não
vou me atrasar. Respiro longa e profundamente. Vai me fazer bem essa
aula de hoje, só espero poder falar com Mrs. Narayana no intervalo. Ela
sabe ouvir e terá muito o que escutar de mim.
"...Existe uma conexão fundamental entre a respiração e os estados
físicos, mentais e emocionais. A energia vital, a respiração por detrás
da respiração, entra no corpo pelas vias nasais".
Sim, claro. Inspirar em oito tempos, expirar em oito tempos. Esvaziar o
pensamento, deixar o corpo flutuar.
Como não pensei antes na possibilidade de Theodore ter outra pessoa.
Infidelidade era algo tão distante do nosso dia-a-dia! Ou será que
distante apenas do meu dia-a-dia? Trair, enganar, mentir, omitir,
aventurar, por mais que eu me considerasse moderna nunca pude conviver
com essas idéias. Eu tinha amigas que achavam tudo tão natural. Mary Jo,
minha colega de yoga, leva a vida numa boa, sem se importar onde o
marido se mete nas vezes em que liga para sua loja em Chinatown e os
funcionários nunca sabem dizer onde ele se encontra. Ah, aquele meu
chinês, ela diz, mas lá no fundo ela não quer mesmo nem saber. Muito
mais cômodo assim. Mary Jo acha que a felicidade se resume em carro com
motorista, jóias, viagens, roupas, jantares no The Lion e todos os
eletroeletrônicos capazes de fazer a sua vida melhor a um simples toque
no remote control. E cachorrinhos! Ah, claro, porque filhos, nem pensar.
O chinês não quer, a mãe do chinês abomina a idéia de ganhar um neto
criolo, um escurinho de olhos amendoados, pois Mary Jô, na verdade,
nasceu Aleyda, negra cubana que hoje delicia-se em New York com as
maravilhas do mundo capitalista.
"... a tensão física nos músculos respiratórios, localizados entre as
costelas, pode causar rigidez no peito e até dor. Técnicas de respiração
descontraída irão liberar a tensão em todo o seu corpo".
Theodore ! Como pude ser tão ingênua a ponto de acreditar nos muitos
novos clientes, no escritório caótico, nos projetos se acumulando sobre
sua mesa, nas horas extras, trabalho e mais trabalho. Ainda que tudo
fosse verdadeiro não seria necessário tanto tempo extra a cada dia,
todos os dias da semana, inclusive aos sábados! Fico me perguntando,
quando foi mesmo que Theodore começou a mudar. Não me recordo, não me
lembro. E ele mudou sim. Até reclamei do quanto ele vinha fumando,
sempre de cigarro na mão, aquele hálito que não me agradava nem um
pouco, um cheiro horrível em suas camisas brancas, no travesseiro, tudo
impregnado com o mesmo e terrível cheiro-de-cigarro. Ele vinha também
bebendo mais do que o normal. Já não mais socialmente, mas
freqüentemente. Andava meio calado mas como nunca fora de falar muito,
eu achava que estava tudo bem.
Algumas vezes me lembro de ter acordado à noite para fazer xixi e
encontrá-lo no sofá, deitado, fumando e ouvindo seus discos de jazz.
Insone, dizia ele, não consigo me desligar do trabalho, você sabe como
é. É, eu sabia...
"...além de incentivar a respiração através do nariz, num padrão suave,
a yoga estimula o uso do diafragma e a coordenação entre movimento e
respiração".
Depois da aula vejo que Mrs. Narayana não falará comigo, tem um swami
esperando por ela. Mary Jô me pede uma carona. Digo que tudo bem. Espero
por ela no estacionamento. Coloco um casaco por cima da malha e desço de
uniforme mesmo. Ela fala sem parar, nem percebe minha angústia. Temos
alguns minutos até a Penn Station, ali na 34 street. Falamos de coisas
banais, o frio, a manhã, o final de semana. Convida para uma ida até
Atlantic City. Mary Jô adora um cassino, enlouquece diante de uma
roleta. Enquanto fala coloca os dedos finos sobre as marquinhas no vidro
do carro. Sinto uma estranha sensação.
Theodore já terá ligado pelo menos uma vez antes do almoço? Hoje,
consultório só depois do meio dia. Posso passar em casa, sem pressa,
mexer em alguns bolsos, xeretar suas gavetas, alguma outra pista deve
existir. Mas que tipo de mulher sou eu? Estou ou não triste com a
descoberta? Tenho certeza ou não do fato consumado? Quero bancar a
detetive ridícula ou não? Não sei se quero ligar para minha amiga
Jennifer. Tenho vergonha de mostrar minha dor e se nada disso for
verdade? Eu preciso saber, mas como? Vou telefonar...Para quem? Vou
dizer o que? Quero minha mãe, preciso de colo , mas acho melhor não.
Todos saberão que fui passada para trás. Não me agrada essa idéia. Fico
olhando as pessoas correndo lá fora. Fico imaginando coisas, muitas
coisas.
Preciso saber se o meu carro ficou pronto, não vejo a hora de entregar
para o Theo o carro dele, com as marquinhas dele. Não toquei em nada,
mas quero saber das marquinhas. Chego em casa, tomo um banho e enquanto
preparo uma salada ligo para o escritório. Ele conversa normalmente como
se nada houvesse de diferente (e talvez para ele não haja mesmo). Pode
pegar o meu carro no final da tarde? Sim, na Lexington quase esquina da
68, perto do Hunter College. Bye !
Já estou me refazendo, programação neurolinguística é coisa séria,
adianta mesmo. Venho me exercitando desde a hora do banho e já começo a
me sentir diferente. Entre um suspiro e outro vou exercitando minha
respiração bástrica. Acendi uns sticks de sândalo, acendi uma vela
amarela, coloco-a frente a uma foto nossa, felizes e sorridentes nas
últimas férias de inverno. Peço proteção a Deus, à Krishna, aos monges
do Tibet, invoco Buda, quem puder me ajudar que venham todos em meu
socorro.
Passo a tarde atendendo no consultório. Nenhuma novidade, a mesma rotina
de sempre. Um dente que incomoda, uma obturação que soltou, um siso que
insiste em despontar. Olho incontáveis vezes para o relógio. Quero ir
para casa, mas não quero ir para casa. Quero olhar Theo nos olhos e
perguntar o que quero saber. Mas eu não quero saber. Quero enfrentar a
realidade, encarar os fatos. Mas a realidade é tão dura e os fatos tão
convincentes. Encarar os problemas, por piores que eles sejam é sinal de
força. Mas eu não sou uma mulher forte, não sou corajosa. Me pego numa
fragilidade sem fim, uma trapezista sem rede. Quero que tudo se resolva
rapidamente, mas não quero que doa, não quero sentir pena de mim. Tudo,
menos auto-compaixão !
São duas horas da manhã e Theo ainda não chegou. Jantei sozinha, assisti
o jornal na tv, li rapidamente as notícias na Internet, joguei paciência
mas impaciente fui arrumar gavetas. Organizei os casacos, todos com o
cabide virado para o mesmo lado, dobrei blusas, dependurei camisas,
organizei sapatos em caixas, refiz a pilha de malhas, juntei pés de
meias, tirei do dedo a aliança. Só então começo a chorar. Choro de
verdade, lágrimas quentes em cascatas. Choro por mim, pela minha dor,
pela decepção, pelo inesperado da situação, pela incerteza, pelo luto em
meu coração. Choro pelos planos que fizemos juntos, pelas viagens
programadas, pela casa vazia e triste sem seus livros e discos antigos
de jazz. Choro por Theo, por sua deslealdade comigo, reconheço sua
infelicidade, me arrependo de tudo quanto não fizéramos por nós. Lamento
pelos filhos que tanto planejamos, pela casa de campo nunca construída,
pelas noites em que dormimos sem nos perdoar, das bobagens que nos
dissemos, das magoas que nos causamos, todas desnecessárias. Agora deve
ser tarde... Revejo nossa vida, juntos e acredito que nós dois, ele e
eu, permitimos muito, fizemos concessões demais, cuidamos pouco do nosso
afeto, fomos deixando que o dia-a-dia nos consumisse e agora, olha só no
que deu. Separados... assim seremos daqui pra frente.
Perdi a conta de quantas xícaras de chá foram consumidas até que a porta
se abre e Theo aparece.
Hoje é quinta-feira, meu day-off. Não tenho vontade de sair da cama. Faz
muito frio, o dia está cinzento e o sol não vai aparecer. Acabou-se,
tudo resolvido. Me abraço ao travesseiro dele, decido ali que chorarei
cada vez menos. A dor no peito não pode ficar para sempre. Não sou a
única. Vai passar. Lentamente, mas vai passar. Não morrerei. Não matarei
ninguém. Somos práticos e tudo será resolvido civilizadamente. Preciso
de tempo, de muito tempo. Preciso reorganizar minhas idéias, preciso de
aspirina para minha dor de cabeça, de prozac para melhorar o meu dia, de
coragem para sair à rua, de colo, de falar com alguém, de lexotan para
poder dormir. Preciso de tanto!
No vazio do meu coração, da minha alma, da minha mente ecoa uma frase
única:
- Sim, o nome dela é Sarah.
ROSÂNGELA MALUF é mineira, de origem libanesa, professora
universitária e consultora de empresas . Há bem pouco tempo resolveu
mostrar seus escritos antes guardados a sete chaves.
Adora brincar com as palavras, com as frases e ver o que vai dar no
final.
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