Letra de Tango

Quando levava a tampa de volta ao gargalo da garrafa para fechá-la, mudou de idéia e bebeu mais um pouco. Em vez de recolocar a garrafa na gaveta, como sempre fazia depois de um gole, largou-a sobre a mesa, aberta, a tampa dourada na mão, quase sem se dar conta, o rosto sombrio e os olhos de quem não olha para lugar algum. De repente, um frêmito de suspiro o surpreende com a tampa na mão e o traz de volta para a inércia da sala, onde o acompanha, na sua desolação, apenas um radinho de pilhas deitado no meio da mesa. Como que resgatado do olho de um redemoinho de doloridas meditações, toma um rápido gole de uísque, tampa a garrafa e a enfia na gaveta de ferro, fechando-a em seguida com uma batida seca, quase violenta.

- Tragam o boneco! - grita, olhando para a porta entreaberta.

O expediente estava calmo, nenhuma ocorrência nas últimas horas, por isso ele bebia sem trégua desde o início da manhã. Tinha apenas um caso de homicídio que precisava resolver naquela hora, sem perda de tempo. O inspetor de plantão viera lhe informar que o assassino, durante a noite, resolvera confessar o crime. Parecia postergar o momento de interrogá-lo novamente, até que decidiu ouvi-lo, para evitar que o preso mudasse de idéia e voltasse a negar tudo outra vez.

Enquanto o criminoso não se sentou à sua frente, um guarda de cada lado a lhe segurar os braços, o delegado não lhe dirigiu o olhar. Só o encarou, olho no olho, no momento em que o assassino respondeu à primeira pergunta, mais calmo, sem o tom arrogante e agressivo de logo após a prisão, no início da noite anterior:

- Não adianta mentir, doutor – diz o preso, procurando uma melhor posição para os engates das algemas nos pulsos machucados.

- Também acho...

E um silêncio de quase dor se interpõe entre eles enquanto o delegado pousa sobre o rosto ainda adolescente do outro um olhar definitivo, menos acobardado, mas ferido em algum recôndito de sombras passadas.

- Meu filho... – diz o delegado, como que a sentir a tangência de uma chaga incurável a esfolar cada palavra pronunciada. - Meu filho ... – repete, levando a mão até a gaveta para apalpar a garrafa de uísque. – Tu confessas, então, que mataste a mulher?

- Sim, doutor.

- Confessa de livre e espontânea vontade?

- Com certeza, doutor.

- Queres fazer isso na presença de um advogado?

- Não, doutor.

O delegado se vira para o escrivão, que acaba de se acomodar na cadeira junto à maquina de escrever, e faz sinal para ele registrar o depoimento. Por um curto instante, o barulho da máquina quebra o silêncio doído que paira sobre a dureza da sala e suas paredes salpicadas de manchas, o reboco quebrado e tijolos parcialmente à vista.

- Meu filho – retoma a palavra o delegado. – Por que tanto ódio?

O preso primeiro fita o delegado como se não o compreendesse, depois fala:

- Que diferença faz, doutor?

- Nunca vi tanto ódio...

É possível que o assassino tenha pensado em rir, mas aquilo que poderia ter sido um prenúncio de sorriso no seu rosto ainda muito jovem logo se transforma na dura e afiada expressão de uma lâmina que corta e chacina.

- Pois é, doutor...

- O legista teve dificuldades para contar as punhaladas...

- Foram oitenta e sete, doutor - ele se apressa em explicar.

O delegado vira o rosto para a janela e assim fica, meio de lado, enquanto o escrivão datilografa o depoimento. Assim que o silêncio novamente se faz, ele se volta para o assassino, que não afrouxa o olhar um instante sequer. E antes que o delegado volte a falar, completa:

- Inicialmente dei trinta punhaladas, doutor.

O delegado não se contém e, num único impulso, retira a garrafa da gaveta, toma um gole e oferece ao outro, que agradece.

- Não bebo, doutor.

O delegado pensa um pouco, e uma distante melancolia brota das entranhas do corpo, junto com a agudeza de um suspiro carregado de pensamentos mudos.

- Era melhor se tivesse aprendido, meu filho...

- Aprendido o quê, doutor?

- A beber...

O preso olha-o como se nada entendesse.

- Esquece - diz o delegado.

- Depois foram mais trinta e seis, doutor - continua o preso.

O delegado brinca com a tampa dourada da garrafa sobre a mesa.

- Que vêm a somar sessenta e seis...

O delegado bebe outro gole, agora curto, sem qualquer constrangimento, diante do olhar de semiconsciência do preso.

- Meu filho... – o delegado enxuga o suor na manga da camisa. - Por que tudo isso, me diga?

- Depois foram mais vinte uma, doutor...

O delegado larga a garrafa sobre a mesa, aberta, ao lado da tampa. Na máquina de escrever, o escrivão continua, alheio e burocrático, a registrar o depoimento.

- Mas por que tanto ódio?

- Ela mentiu, doutor!

O delegado apanha a garrafa e bebe mais um gole.

- Ela mentiu uma vez... Mentiu de novo... e tornou a mentir, doutor! Atordoado, como se estivesse diante de uma saraivada de balas em campo aberto, o delegado bebe sucessivos goles no gargalo da garrafa.

- Isso parece letra de tango, meu filho!

- Dei as trinta punhaladas iniciais e me lembrei que aquela era a terceira mentira dela, doutor.

O delegado olha direto nos olhos do assassino a procura de um porto onde possa ancorar sua perplexidade.

- Aí dei mais trinta e seis por conta da reincidência! E, finalmente, doutor, por conta da terceira mentira, dei mais vinte e uma, fechando as oitenta e sete...

O delegado larga a garrafa vazia sobre a mesa, meditativo, o fogo do álcool rutilando nas retinas e nas órbitas, entre pestanas e pálpebras encharcadas, e um novo suspiro lhe corta subitamente o ritmo agitado da respiração.

- Isso é tudo, meu filho?

O assassino faz um breve silêncio, como se não entendesse direito a pergunta, e responde.

- Sim, doutor. Com certeza.

O delegado se vira para o escrivão, que termina de datilografar o depoimento, e espera. Apanha o papel e o entrega ao o preso, que assina o nome sem ao menos ler o que está escrito.

- E agora, doutor? - pergunta ele, o olhar um tanto assustado e interrogativo.

Os olhos do delegado pairam por alguns instantes sobre a garrafa vazia em cima da mesa, depois ele levanta o rosto para os dois guardas e diz:

- Guardem-no...

E, voltando-se para o preso, pronuncia a primeira frase que lhe vem à cabeça:

- Agora, a única coisa a fazer, meu filho, é tocar um tango argentino...

O assassino, um ar juvenil e espontâneo no tom rosado das faces, encara-o sem receio, quase sorrindo, e fala uma última vez:

- Isso é Manuel Bandeira, doutor!

O delegado não contém um outro suspiro de dor. E se cala até que o assassino seja reconduzido à saída.

- É demais... - ainda diz, os olhos encharcados de álcool, enquanto deita o olhar taciturno junto à garrafa vazia plantada sobre a mesa, ao lado do radinho de pilhas.

TAILOR DINIZ é jornalista e escritor. Tem oito livros publicados, entre eles O Assassino Usava Batom, Tango da Madrugada, Trégua para o silêncio e O Círculo da Paixão. Atualmente escreve sobre livros na revista Aplauso, de Porto Alegre.