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Homem Apenas Alma
1
Era apenas alma. Deslizando por entre a turba cinzento-amarronada da
metrópole-neon, percebia que as vitrines das lojas negavam-lhe reflexo.
Era apenas alma e mais nada. Tropeçavam-no, batiam-no, escamoteavam-no,
ignoravam-no. Escorria com a chuva pelos bueiros da cidade, a sua
cidade. Anoitecia sentado no banco da praça, derretendo-se na chuva fina
e gelada que pingava quase sem querer. Madrugava taciturno, pensativo,
liquefeito em nostalgia. Gostava da época em que tinha corpo. Agora, era
apenas alma.
Nascera como os outros, talhado da mesma argila, animado pelo mesmo
sopro. Acreditava na metáfora do sopro de vida, agradava-lhe a idéia de
que o homem era de barro. Sabia que homens podiam derreter. Desmanchada
a argila, restava o sopro. Amanhecia ainda cambaleante, meio que sem
jeito de amanhecer, meio que sem jeito de existir. E mais uma vez
deslizava pela cidade, adorava a urbe, misturava-se a ela. Aos poucos se
foi dando conta que todas as pessoas-trabalho, pessoas-rotina,
pessoas-cotidiano, tinham a mesma cor, eram todas de um cinza manchado
de preto, eram todas ferrugem e mais nada. Ele, por outro lado, era
apenas alma.
2
(Fazia uma metáfora estranha da vida: imaginava-a como uma praia
deserta, mas não destas enfeitadas com coqueiros e pássaros. Não. Era
desses que imaginava a vida como uma praia deserta-pedregulho, praia
deserta-areia-chumbo. Chumbo e fina, que cega quando venta. Ainda fazia
parte da metáfora um farol enegrecido pelo tempo e enferrujado pelo
vento salgado. Neste farol, permitia existir um morador).
3
Era apenas alma e conversava com uma estátua em forma de leão.
Sentava-se aos pés do monumento de pedra e mármore e desfiava-se em
palavras. Tinha essa sensação de completude ao lado da estátua: ele
apenas o sopro de vida, ela apenas o barro. A estátua do leão era apenas
argila e mais nada. Contava da época em que tinha corpo e chorava
lágrimas salgadas-faroleiro, os olhos piscavam por causa da areia-chumbo
que lhe ventava. O leão-mármore não respondia, morria de inveja por ser
apenas argila. Queria ser alma. O outro era apenas alma.
(Sempre tivera do leão esta mística e supersticiosa influência em sua
vida. Quando pequeno, passeava pelo zoológico e queria ser leão: gostava
da beleza, da imagem forte, gostava, acima de tudo, da audácia que
apenas aos melhores é permitida. Sentia-se assim meio sem um quê de
começar, de dar sopro à vida. Sentia-se assim meio sem um quê de vida).
E era, ainda, apenas alma.
4
Numa destas chuvas fortes, foi escorrer-se perto dos
cafés-cheiro-de-canela. A metrópole-neon, nestas zonas da cidade,
fazia-se cidadela-nó-de-pinho. Foi num destes cafés que a encontrou,
menina de olhos fazer-feliz. Ela era uma dessas pessoas-reflexo, que
apenas existem quando refletidas. Era dessas pessoas argila, pessoas sem
alma. Ele era apenas alma. Tinha tudo para dar certo, pensava. Voltou ao
leão e contou-lhe tudo, permitindo-se suspiro adolescente e sonho
cor-de-paixão. Foi a primeira vez que descobriu que a felicidade podia
ser encontrada em forma de sorriso.
(Mudou, neste dia, de leve a metáfora: ainda permitia à praia deserta a
areia chumbo - que cega quando venta -; entretanto, agora, fazia
companhia ao habitante do farol uma mulher-fogo, com a qual poderia
acender qualquer chama, poderia soprar vida).
Transbordando de si, assoprou leve a nuca do leão-mármore. Foi a
primeira vez que a estátua falou: "Mas tu és apenas alma!". Era verdade.
Ele era apenas alma. E, sendo apenas alma, como se fazer notar pela
mulher-fogo-mulher-reflexo? Anoiteceu mais uma vez no banco da praça,
meio que se apagando. Madrugou vento oceânico e amanheceu gosto de
ferrugem na boca. Ele era apenas alma.
5
Saudades. Quis afogar-se mais uma vez naquele sorriso de fazer-feliz.
Voltou ao mesmo daqueles cafés-cheiro-de-canela, sitiando a mesa,
observando a presa, como fazem os leões (em tempos de cortejo,
entregava-se por completo à metáfora do leão). Rugiu baixo quando outro
homem-barro aproximou-se sentando à mesa. O casal ria te-amo. É fácil
saber quando riem deste modo os casais, basta observar as matizes das
auras. E ele sabia escandir auras, ele era apenas alma. E, sendo assim,
era completamente invisível.
Emoldurou-se ao lado da mesa, observando a chama da vela. Lembrou da
praia-pedregulho, da areia-chumbo - que cega quando venta - e do farol.
Sentia a chama derreter a metáfora do leão, era, mais uma vez, apenas
alma. Soube impossível a tarefa de orgulhar metáfora na metrópole-neon;
esta era repleta de espelhos, cheia de vitrines e poças d'água onde se
espelhar. Era feita para pessoas-cotidiano, pessoas-rotina,
pessoas-corpo. Não era feita para ele. Ele era apenas alma.
(A metáfora da praia persistia, haviam ainda os mesmos pedregulhos-tempo
e a mesma areia-chumbo - que cega quando venta -, mas agora se pode
distinguir um homem-corpo tomando o lugar do antigo faroleiro. Ele, o
faroleiro, era apenas alma).
6
Sua sombra refletida na parede - pelo farol-vela - enferrujou e, cabeça
baixa, gosto de chumbo-neon-realidade na boca, entristecida, apagou
devagar, derretendo cheiro-de-ir-embora (derretendo cheiro de vento
salgado).
Ele já não era mais nem alma.
Setembro de 2003
(Obra recebedora de Menção Honrosa devido à sétima colocação no Concurso
de Contos Newton Sampaio 2004)
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