A visita tardia

     Ao fundo do grande parque ensombrado está o casarão tétrico, abatido, como pesadelo, no fundo das consciências.

     Por uma rua em saibro, que leva, em torcicolos de áspide, à porta principal, seguem um cavalheiro entristecido sob o luar de sua cabeleira branca, e uma menina, que se lhe segura ao braço, com ambas as mãos, como pretendendo retardar o fim daquela jornada.

     A certa altura, a menina, que toda ela é terror e mágoa, faz que o cavalheiro pare e, encostando-se-lhe ao peito, chora amargamente.

     - Por que choras? Pois não porfiaste por esta visita a tua mamã? Coragem... . Por que estas lagrimas? Por que estes soluços?

     É que a pobre menina ouvira os gritos cavos, as gargalhadas estridentes, as imprecações desesperadas, daquela população dantesca, e o seu coração, em lágrimas, esforçava-se por adivinhar naqueles gritos, naquelas gargalhadas, naquelas imprecações, qual seria o grito, qual seria a gargalhada da mãe louca...

     Seria esse grito de desespero, de pavor e de ódio que vinha agora rolando no silêncio do par que, sob os eucaliptos farfalhantes?

     Seria esta gargalhada que se misturava a outras gargalhadas?

     Sería este rumor de desespero que se traçava noutro rumor, e noutro, e que o eco aumentava, como se fora produzido sob abobadas colossais e que vinha ainda encher o parque de sombras e de fantasmas?

     A antevisão do horrível espetáculo daqueles loucos em esgares impressionantes, em gestos de desespero, cabelos eriçados e vestes em desalinho, dentre os quais um devia ser a mãe da pobre menina, deitava à alma dessa criança as sombras espessas de uma dor tão profunda e tão atrós que chega a escapar da possibilidade de ser pintada ou descrita, pois não há tintas no arrebol nem palavras na língua que tenham a virtude genial de reproduzir o desespero que esborcinava o cálice daquela triste flor, ainda desabrochando para a vida..

     E agora ei-la no locutório do hospício, em desespero maior, arrependida de haver desejado ainda há pouco que não fossem do peito de sua mãe os gritos que ouvira, quando no parque.

     Ai - gemia a infeliz - antes fosse minha mãe uma das que gritavam...

     E' que a pobre mãe, cm cuja inteligência abatera a noite cruel da loucura, já não possuía lábios para proferir palavras de desespero, nem peito para gritar todos os protestos dolorosos contra o mundo, caldeando com as deste' as suas grandes irremediáveis dores. .

     Havia morrido na véspera...


JOÃO C. de FREITAS pertenceu a Academia de Letras do Rio Grande do Sul e publicou: Histórias Mal Contadas - 1921, Cômoros - 1922 e Histórias dêste Mundo - 1936, pelo Centro da Boa Imprensa, Porto Alegre.