Uma quase-conversa com Platão,
o nosso fantasma preferido


Faltava para aí dez minutos para definitivamente, Platão morrer, quando pronunciou estas palavras: «Que vida fodida! Todos estes anos e nem os dedos de uma mão esgotam os meus prelúdios de felicidade. Porra... será que Deus existe?! Faltam sete minutos para morrer e continuo com a cabeça abarrotada de dúvidas e de incertezas de toda a ordem. Porque não me aparece um anjo fêmea para me proporcionar uma última e derradeira oportunidade de tranquilidade? Gostava de fazer sexo com um anjo. Katarina! Por favor, Katarina!» Após estas últimas palavras, riu à gargalhada, cerrou os pulsos, suspirou como um bebé e assim se foi para a outra dimensão, aquela que os filósofos, os místicos, os teólogos e mais alguns, apostam ser melhor. Este pobre e humilde “narrador”, gostava imenso de seguir por este caminho mas falta-lhe pedalada... É difícil pensar a Morte, a outra dimensão da vida. É preciso morrer para depois saber contar como é. O corpo de Platão morreu mas a sua alma anda por aí. Foi ele que me segredou ao ouvido: «liberta a tensão, escreve uma porra qualquer... porque não um romance?! Quer se queira quer não, um romance é um bom retrato da estupidez que é a vida de todos nós». Palavra de Platão. Amém!

      Bem, Platão, como muita gente neste mundo, nasceu num Hospital de província num País que está – ao contrário do que muita gente pensa – não na cauda mas na cabeça da Europa e que dá pelo nome de Portugal. Sim, sim... esse, o do Vinho do Porto, o país dos Descobrimentos, o da Expo98, o do Porto 2001. Do que sabemos de Platão e da sua rica mas estúpida vida – igual à de muitos de nós, mas “provavelmente”, um nada mais lixada do que a nossa – é o que nos propomos contar aqui. Mas afinal, que raio de porra é esta (?!) Trata-se de um romance, de uma narrativa sem nexo, de um conto ou de outra coisa? (os poetas – e os artistas – falam de outra coisa) E eu vos digo: é tudo isso e pretende até ser muito mais embora não venha a ser... Vamos lá então “pegar no barco” e tentar não fazer muitas ondas. Dizia eu que... bem, Platão teve uma vida rica mas estúpida: No fundo, a minha radical intenção é demonstrar a estupidez da natureza e da condição humana. Se não conseguir, que se lixe! Tenho imensas reencarnações pela frente. Qualquer dicionário tem o significado da palavra Reencarnação.

      Disse-me Platão, meio a rir meio a sério, quando estava eu a plantar alfaces na minha varanda num alguidar de plástico acabadinho de vir do supermercado onde vi sete portugueses de fato-de-treino vestido: «queres que te diga como foi a minha primeira experiência sexual!?». Disse eu: sim, se te apetecer e se achas que é importante diz, mas... não me faças rir como fizeste na última vez quando contaste aquela história inventada de teres ido – por convite da própria - ao rabo da velha lá da tua rua quando andavas cá neste mundo. Já te disse para não me abordares em todas as situações, foi muito irreverente e mauzinho da tua parte aquela vez em que me abordaste numa aula para contares aquelas anedotas batidas e porcas. É claro, tive que me rir, mas fiquei muito constrangido e sem saber o que dizer aos alunos. Se lhes tivesse falado na existência de fantasmas teriam dito que era louco, “passado”, e o meu fim radical teria sido a expulsão do ensino por senilidade mental considerável (o que por caso não anda muito longe da verdade – a maioria dos clientes dos psiquiatras e psicanalistas são professores. Pergunta ao Daniel Sampaio). Sim, sim, sei que os outros também lá estão e nada lhes tem acontecido. Sabes Platão, és um fantasma “à maneira” mas às vezes és bastante inconveniente, ordinário, despropositado e tens posto a minha integridade física e mental muito abaixo do desejável e aceitável. Há pessoas que julgam que eu estou mesmo louco, quantas me apanham a falar sozinho... e tu bem sabes que isso vai acontecer e ficas a “gozar o prato”. Se quiseres continuar a ter estas “conversas telepáticas” comigo tens que mudar um pouco as tuas atitudes e, sobretudo, as horas de intervenção. Sabes perfeitamente que por enquanto não sou fantasma como tu e que – conforme espero – ainda tenho que viver alguns bons anos no meio destes vivos todos e tu sabes como alguns são chatos com essa treta do estar louco, senil, “passado”, neurótico, etc.. Mas sei que estás desejoso de me contar a tua primeira experiência sexual. Desculpa lá os avisos e repreensões mas compreendes as minhas reservas e cuidados.

      «Chiça! Pareces uma velha a falar». És muito gentil. Obrigado pela consideração. «Bem, deixa-te lá de merdas e tenta perceber como é que um puto de cinco anos tenta dar a volta à sua namorada de quatro e quase, quase entra em vias de facto, isto é, vai aos figos...». O quê?! Desculpa lá, mas pela introdução da conversa não sei se será boa ideia continuares com essa história. Estava longe de imaginar que a tua primeira experiência sexual foi nessa idade. Eu bem sei que o Freud[1] afirmou, escrevendo para a posteridade, que há, declaradamente, uma sexualidade infantil, mas tu falas mesmo em vias de facto e creio que não era bem isso que o Freud quis dizer, isto é, que aos cinco anos se “podia dar” de facto, uma pinocada[2]. «Mas que púdico da porra tu me saíste. Fica sabendo que a virilidade de um homem começa aos dois anos, é por aí que descobre a sua pila[3] (alguns também dizem pichota) e entretanto começa a pensar o que pode fazer com ela; comigo, tentei dar-lhe uma utilidade interessante aos cinco anos, até aí apenas mijava[4] como toda a gente». Ouve!, que conversa de pila! Contigo o nível intelectual é sempre baixo, as conversas são sempre assim: ou falas de sexo ou contas anedotas ordinárias ou lixas-me a cabeça com os episódios merdosos de que foi feita a tua triste e estúpida vida. Afinal, quando é que me vais falar a sério e com termos dessa outra dimensão onde tu vives. É agora que eu estou interessado para poder confundir e baralhar estes gajos todos: os filósofos, os religiosos, os que também vão à missa e os outros. Porra Platão, porque é que ris à brava quando te falo em religiosos e filósofos!? Um dia, com vagar, tens que me explicar direitinho esse misterioso mundo onde vives e, pelo que parece, não queres outro pois estás sempre a curtir como nunca o fizeste aqui, no mundo dos vivos.

      «Tens razão, nunca curti tanto em “vida” como agora... mas não penses que isto aqui é “um mar de rosas”. Os fantasmas têm tarefas a cumprir; é evidente que não pico o ponto como um triste funcionário de uma qualquer repartição dessa merda a que vocês continuam a chamar Estado. Meu amigo, aqui “trabalha-se” um pouco como os empregados do Bill Gates – esse sacana que ainda aí anda é que tem mais dinheiro do que o PIB[5] português – não há horários nem repressões - o que mais esperam de nós é criatividade, “pensamento divergente”[6] (gostaste desta?). Aposto que não sabes o que significa “pensamento divergente” ou, se quiseres, pensamento criativo». Poupa-me! Deixa-te lá dessas tretas à intelectual... deves pensar que estás a falar com a Ignorância. «Em Portugal não se lê e há gajos a falar e a escrever que são uns pretensiosos – ontem estive a tarde toda numa banca de jornais e li o papel todo, e está claro, revistas eróticas com fartura». Bem me saíste um grande ordinário. Mas estás a desviar o teu raciocínio, daqui a pouco ninguém entende nada desta conversa da porra. Já que és tão culto, desenvolve lá essa ideia do “pensamento divergente”. «É assim: a malta fantasma, para ser considerada, tem que ter um curriculum vitae repleto de diferença e de inovação. Eu explico: por exemplo, aquela porra de assustar criancinhas e velhas, de abanar a cama, apagar as luzes, etc., já era. Há mais de cem fantasmagóricos anos que já não se faz isso, apenas um ou outro conservador tem esse tipo de comportamento. Agora as coisas estão muito diferentes e para melhor quanto a metodologias, interesses, motivações e, está claro, o sexo-fantasma está sempre presente». És um grande convencido Platão. Deves “dar” muitas pinocadas com a cabeça de cima. «Ainda bem que falas nisso – pensas que não tenho uma pila material, real, concreta, objectiva, que se veja, não é!? Fica sabendo que o pessoal tem a capacidade da materialização[7] – um dia destes explico-te. Talvez a treze de Maio».

      Escre-ver dói.

      Depois de J. K. Broling me ter aparecido num sonho erótico, deixei de ter paciência para esta estória. Continue você. Sabe-se lá se o fantasma Platão não será tão conhecido quanto o Harry Potter.



[1] Sigmund Freud foi o fundador da Psicanálise. Nasceu em Freiberg, Morávia em 1856 em morreu em Londres em 1939. A sua principal obra chama-se Interpretação dos Sonhos e surgiu em 1900.

[2] Acto sexual, coito...

[3] Pénis.

[4] Acto de urinar.

[5] Produto Interno Bruto.

[6] “Pensamento” e actividade artística. «Actividade mental inovadora e original que se afasta dos padrões convergentes tipificados e se concretiza em mais de uma solução aceitável para um problema», Manual de Psicologia da Areal Editores.

[7] No conceito do Espiritismo, significa a acção de dar a um espírito forma material.


ÂNGELO RODRIGUES nasceu em Torres Novas, Porugal, em 1964. É Licenciado, profissionalizado e pós-graduado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e professor de Filosofia e de Psicologia do Ensino Secundário Regular e Recorrente. Passou também pelo Conservatório de Música e pelo ensino de Educação Musical. Exerceu irregularmente a actividade na Imprensa Regional e na Rádio. É colaborador permanente do ARTJORNAL (jornal online). Foi fundador e vice-presidente da AJEP - Associação de Jovens Escritores de Portugal (de que muito se arrepende); foi director literário das Edições Orpheu; é director literário do DNA - Departamento de Novos Autores da Editorial Minerva de Lisboa. Sugeriu a edição de vários livros e CD’s (poesia, romance, ensaio, teatro, aforismo, etc.) e coordenou, prefaciou e apresentou várias antologias de poesia e de prosa. Prefaciou e comentou vários autores de língua portuguesa. Fundou e apresenta, de quando em vez, em Lisboa, a Tertúlia Orpheu. Tem quatro livros publicados e uma colecção de postais, respectivamente: «Eu, o Ser e a Dúvida» (1989), «Compra-me Um Deus» (1992), «Da Ressurreição do Espanto» (1998), Um bailado no centro da Alma (2002) e «Fragmentos do Tempo Parado» (4 postais com poemas seus e fotografias de António Vieira da Silva, 1995). É um dos autores das colectânea «Bosque Flutuante - nova poesia portuguesa»,1996, 12 autores e da colectânea «Incomensurável», 2000, 13 autores. Fundou os Jograis Orpheu (extintos desde Junho de 2003) e produziu o CD de poesia «Assim Se Diz» gravado ao vivo no Padrão dos Descobrimentos, Lisboa, em Junho de 1999.