
Ilustração: Balthus |
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Torpe
Pousava sobre Lúcia a dúvida peculiar de seus
quinze anos, fronte ao que o destino lhe reservara e ao cadáver de seu
pai morto no chão da cozinha.
O sangue contornava a cerâmica do piso irregular
tomando o caminho do corredor onde materializou o que há muito
ocupava-lhe o ruminar das noites.
Empunhava nas mãos a inocente tesoura que sua mãe
vivia a procurar sem sucesso. Sua mãe era de tão pacatas atitudes que
por algumas vezes não se sabia sua presença. Fazia-se surda perante as
perturbações de Carlos, o marido. Esse sim fazia-se notar o chegar, como
que anunciado por trombetas ou vazamento radioativo, melhor comparando.
Era de uma rudeza bestial e odiava ter contrariado de alguma forma os
seus caprichos e manias.
Lúcia era a menina que despertava em todos um
fascínio dominante. Trazia a perversidade do pai, a doçura da mãe e uma
beleza personificada, o que somados a uma conturbada vida familiar
transformara-lhe num mesclado anjo e demônio.
O acordar das formas a fez desejada e respeitada
logo cedo. Suplicou por tanto tempo à mãe que ela acabou por lhe comprar
um sutiã, o que lhe aumentou o volume dos seios e o ego. Os cabelos
compridos e encaracolados que lhe caíam aos ombros e sobretudo o jeito
de adulta tiraram dela um terrível sentimento de inferioridade imposto
pelo pai.
Os pais se odiavam, e mantinham um casamento
falido por comodidade onde cada qual comportava-se como o outro não
existisse. Na maioria das vezes o único som que se escutava na casa era
o da TV até que numa das brigas Carlos quebrou toda a mobília e a jogou
pela janela.
Uma noite a mãe perdeu as estribeiras e começou a
dar uns socos nele. Ele a arrastou pelo corredor do apartamento pelos
cabelos e mergulhou sua cabeça na banheira cheia d'água. O pai olhava
com um ar de louco e Lúcia compreendeu em segundos que ele a odiava.
Quando conseguiu se libertar a mãe estava pálida, correu para o quarto,
abriu o armário, pegou seu casaco e foi embora. Um dos momentos mais
terríveis da existência de Lúcia foi quando viu sua mãe sair, sem
nenhuma palavra e a deixar sozinha. Durante dias a única coisa que
pensava era na mãe retornando para buscá-la e tirá-la daquele inferno em
que fora abandonada. Mas passaram-se meses e isto não ocorreu, o que
deixou Carlos terrivelmente irritado e por muitas vezes Lúcia o viu
prometer a morte como vingança.
Passado algum tempo ele passou a se comportar
como a mãe nunca tivesse existido e a tratar Lúcia de forma mais
carinhosa, o que para ela teve um efeito horrível, e eis que, de certa
forma, aquele morando sob o mesmo teto no minúsculo apartamento não era
mais seu pai.
Às vezes sentia certa tristeza pela falta da mãe
e em outros momentos se contentava por ela ter livrado-se do jugo do
pai. Tinha na memória o ar de felicidade da mãe ao abandonar o lar
naquela noite, mesmo que ela não o demonstrasse, e isto trazia-lhe algum
conforto.
Agora o algoz que um dia foi seu pai,
transformara-se em outro homem que fitava suas formas e a acariciava com
certo desejo. Lúcia não suportava quando ele a tocava e no seu íntimo
ela não o aceitava. Certa vez, Carlos apareceu no seu quarto e disse: -
Querida, agora você é tudo que tenho. E sorriu com aquele riso quase
franco envolto de um detestável cinismo providencial, o que lhe era
característico em horas de cobiça. Já não discutiam mais por bobagens,
coisa que há poucos era constante, e por muitas vezes ela ainda o
provocava com a vitrola as alturas ou a falta de zelo com os horários.
Carlos era um homem acomodado por natureza e grosseiro por definição.
Tinha poucos amigos e em matéria de trabalho não se empenhava tanto. O
que lhe garantia o sustento eram alguns biscates com os quais vez por
outra se ocupava e um imóvel alugado que não rendia grande coisa. Grande
parte do que ganhava servia a pagar as penduras nos botequins locais
onde seguramente passava os fins de noite e entre um trago e outro
praguejava sobre a vida junto a escória do bairro.
Numa dessas noites foi ao quarto de Lúcia e
bêbado pôs-se a observá-la. Ela dormindo em sono profundo, o corpo
esguio qual serpente sob a camisola. As coxas entreabertas e o corpo
seminu por entre os lençóis desenhava seu contorno na penumbra do
quarto. Atormentado ele pensava em tirar-lhe tudo, para ver a nudez
esguia e lívida começar nos pés e subir pelas pernas, pelos quadris,
pelo ventre. Olhava a nudez da filha em triunfante voracidade e com a
mão apertava o ventre. Aproximava-se vagarosamente nas pontas dos pés
para espiar os seios, firmes como cume de montanha e num ímpeto os
apanhou por baixo com as duas mãos. Arrancou a camisola com um movimento
selvagem e roçou com os lábios a sua boca úmida:
- Beija teu pai, beija. Deixa que eu sinta o
gosto de sua boca finalmente - disse em sopro
Tinha uma boca de mulher, e a cor molhada de seus
lábios revelava uma intimidade ardente. Contraiu o rosto com esforço
trincando os dentes, ainda com morosidade em se dar conta do que estava
a ocorrer e por uma fração de segundo pensou: "Isso não está
acontecendo!" Estupefata, a princípio não entende nada. Só pouco a pouco
vai compreendendo e sente-se tomada de uma mutilação hedionda na carne e
na alma. Desesperada, empurrou-o, esganiçando a voz em grito: - "Me
solta seu animal". Mas Carlos já a estava a possuir numa alucinação
visceral, enroscando-se em suas pernas, agarrou-a pelos cabelos,
imobilizando seu rosto e esmagando os seios com seu corpo pesado.
Pensava na mulher, a cretina da mulher. Tinha saliva nos cantos da boca.
Com as feições contraídas, vociferava:
- Nunca um pai amou tanto uma filha! E este é o
maior amor do mundo!
E afundava-lhe a cabeça no travesseiro. O terror
da filha o exaspera. Carlos está conhecendo um prazer inesperado, uma
embriaguez devoradora tomando-lhe de um pudor obtuso. Seu rosto
tornou-se uma máscara de loucura. Em uma fugaz defensiva Lúcia cospe-lhe
a cara e com as unhas risca suas costas de alto a baixo. A obscenidade
do pai cobria-lhe da mais desagradável das perplexidades, de um
deslumbramento sinistro no qual nunca imaginara experimentar. Carlos
estava tomado de um sentimento envenenado, uma onda selvagem que rompia
a sanidade dos sentidos. Suas mãos deslizam em seu corpo enquanto
ferroa-lhe o ventre. Ela quase não respira e num desesperado instinto
morde-lhe o ombro com toda a sua força e ódio. Ele explode em grito numa
aguda sinfonia de dor e prazer qual o uivar de uma matilha inteira e
Lúcia empurra-lhe o pesado corpo com as pernas conseguindo então
livrar-se daquele cativeiro interminável que consumia suas entranhas.
Carlos tem ainda os olhos do desejo e na carne dilacerada a marca dos
dentes e numa dor agora surda. Senta numa extremidade da cama, passa a
mão por trás da cabeça, balbucia:
- Eu te feri, não é?
- Te machuquei?
- Me perdoe, meu amor.
Os lábios encharcados de sangue, Lúcia perdeu a
expressão da menina que tinha. Tem agora um olhar inesperado e duro.
Tomara-se de uma espécie de ódio em que a doçura da voz do pai não a
surpreende nem comove. Olhou sem nenhum espanto ou piedade e desabafou:
- Tenho nojo de você, nojo. O senhor sabe o que é
nojo? Quero que morras seu animal!
Instintivamente olha para um canto do quarto. A
tesoura repousa ao criado-mudo. Lembrou da mãe que carinhosamente lhe
cozia as roupas e lamentou por um segundo a falta dela. Sua vida passou
como um épico em alguns instantes, e agora tinha a sensação de que
subitamente perdera o dom de amar. Algo morrera em si.
Carlos permanecia estático. Ele que sentira o
corpo da menina unido ao seu, vibrando e vivendo junto ao seu por um
instante, parecia desorientado, experimentando agora um brutal fracasso.
Levanta-se então e agarra Lúcia pelo braço:
- Escuta! Se outra vez você me chamar de
animal...
- ...se me chamares...
- ...te mato, ouviu sua vadia.
Mas seu ódio era descontínuo, não conseguia
fixá-lo, e não entendia a repentina coragem da filha, sua calma intensa
e apaixonada serenidade. Agora diante da filha sentia apenas o vazio do
êxtase perdido. Afasta-se então de Lúcia e ruma cambaleante à saída do
quarto numa fuga de si próprio.
Seminua e ferida na carne para sempre como uma
amputação, a menina calada e atônita, apanha a tesoura ao criado-mudo e
olha-a com um certo amor triste. Na sua mão, a tesoura tornou-se uma
lâmina viva, leve, diáfana. Lúcia desprende-se com violência e na saída
do quarto se depara com o pai prostrado, que ao vê-la põe-se a rir
pesadamente. Uma brusca cólera desaba maciçamente sobre ela e a pequena
desata contra ele com um ódio frio e num golpe único e exato fez-se um
risco intenso e luminoso espetando-lhe o peito severamente. Carlos a
princípio, não entende. Desabara sobre ele um vácuo gelado. Olha a filha
com um olhar de bicho ferido e arrasta-se pela parede na direção da
saída de serviço na esperança da fuga impossível. Em fúria gritava os
mais hediondos palavrões. Lúcia olhava a agonia do pai sem espanto. O
ódio de que era tomada deu-lhe uma brusca euforia. E, subitamente, parte
ao encontro de Carlos e golpeia dura e incessantemente o dorso
desguarnecido. Lúcia cravava impiedosamente a tesoura e parecia tomada
de certa possessão que somente o corpo desabando pôs desfecho a
excitação alucinante. Carlos impotente diante da hemorragia rasteja para
a cozinha numa busca delirante por respostas. Talvez uma explicação que
justificasse sua existência incompetente. Já não mais grita, só um
pesado gemido exala soluçante. Lúcia o segue a passos acanhados,
escoltando seu calvário agonizante. Sua nas mãos. O sangue lhe escorre
pelos dedos febris. Descansa a tesoura, ainda empunhada, na pia entre as
louças do jantar. Passa as costas da mão no pano de prato pendurado à
parede mas não tira os olhos do pai. Agonizando e morrendo, ele ainda
levanta o pescoço com dificuldade, olha a filha, balbucia:
- "Eu não sou tão canalha,..... sou menos sórdido
do que pensas......". E em seguida desbota sem vida.
Lúcia concluía para si mesma com uma satisfação
profunda e gratuita que o ódio é próprio dos simples, dos puros. Ficou
reflexiva por alguns instantes. E, por último, com um sorriso muito leve
e um olhar intencionalmente doce beijou a face distante do pai. Naquele
momento ela daria tudo para sofrer, era seu único lamento interior.
MÁRCIO COUTINHO nasceu em 1971, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Estudante de jornalismo, poeta, ensaísta, contista, crítico, ajudou a
fundar o grupo SPN (Sociedade dos Poetas Novos). Atualmente executa
atividade cultural na editoria da Revista SPN e na produção do programa
Matéria Prima na rádio Viva Rio.
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