
Ilustração: Pedro Herrera Ornonez |
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A tarde da ninfa
Leda saiu para o almoço e não almoçou.
Entrou na loja de plantas, comprou três vasos pintados de branco e um de
barro, desses que imitam tijolinhos. Comprou também duas mudas de hera,
duas de samambaia chorona e foi guardar tudo no carro. Dali rumou para o
supermercado e fez as compras do mês, as grandes, e mais os salgados
para a feijoada de quinta-feira. Sentia-se um núcleo de vida entre
robôs, único ser consciente dotado de vontade no meio do povo, tanto
sabia o que fazia, tanta era a determinação. Escolheu bananas para
fritar como se desde sempre tivesse sabido que ia comer bananas fritas
no jantar daquele dia. Seus olhos se alongavam, abarcavam todas as
prateleiras, dominavam as mercadorias propostas e resolviam as equações
possíveis no momento. Quando não restava mais nenhuma incógnita, entrou
na fila da caixa, esperou sem vislumbre de impaciência ou pressa. A fila
era um dado a mais e apenas isso. A má vontade da moça da caixa, outra
variável incapaz de perturbar seus objetivos. Não foi por tolerância ou
compreensão que sorriu ao receber o troco: foi para si mesma que sorriu.
Há muito tempo não se sentia tão
limpidamente consistente e desimpedida. Partiu para seu apartamento
novo, abriu a porta e tornou a se deliciar como a luz subaquática que
tinha conseguido com sua decoração, as janelas e as cortinas fechadas.
Guardou as compras rapidamente nas prateleiras da área de serviço, no
quarto de empregada, nos armários da cozinha. Amontoou os vasos e as
mudas mergulhadas em um pouco d'água a um canto do tanque. Lançou um
último olhar à volta, fechou a porta de serviço e atravessou a cozinha
de lambris e cerâmica, o pequeno vestíbulo com a arca espanhola e as
máscaras africanas, a sala acolhedora de luz esverdeada e entrou no
quarto com a rede branca e muitas folhagens na varandinha de vidro.
Abriu a metade da vidraça para que as plantas recebessem o ar livre que
vinha dos lados do Corcovado e deitou-se na rede. "Vou dormir", pensou,
e dormiu quase em seguida.
Sonhou que era um estranho animal todo
feito de pedaços articulados e sem cor definida, que às vezes pareciam
estar à luz da lua, e acordou em sobressalto meia hora depois, invadida
por um estranho embaraço em relação a si mesma, como se tivesse sido
desmascarada de repente diante de outras pessoas. "Não sou o que
pareço", pensou ou disse, como se isso fosse o prolongamento do sonho.
Piscou de leve os olhos várias vezes seguidas e coçou-se do lado
direito, na altura das costelas. Sacudiu a cabeça e olhou o quarto a sua
volta como se precisasse se certificar de alguma coisa.
Foi até o banheiro, sentou-se no vaso e
urinou longamente, enquanto tentava reencontrar o equilíbrio entre as
sensações e o tônus muscular, que pareciam em desacordo. Procurou apoio
nos objetos familiares: o jogo de louça pintada sobre a bancada da pia,
as torneiras bem polidas e trabalhadas com cabeças de gansos, o tapete
de nuanças verdes. Alguma coisa parecia ter escapado a seu controle
durante aquele sonho e agora a incomodava, encravada em seu núcleo bem
ordenado. Limpou-se com cuidado, secou-se no papel verde-nuvem e foi até
a pia antiga com desenhos de esmalte colorido. Olhou-se no espelho de
três faces e o que pôde ver não a convenceu. Lavou o rosto, escovou os
dentes e sentiu fome, enquanto se enxugava. Retocou o pó, pintou os
lábios, examinou os olhos, rodeando a verdade com cuidado, à espera de
um sinal que a elucidasse. Tudo arrumado, seco e nos devidos lugares,
colorido como de direito, fechou a porta e foi até o quarto. Lançou um
rápido olhar ao relógio, concedendo-se um gesto de rotina, e deu por
encerrada sua perturbação dizendo a si mesma que se sentia fisicamente
mal por causa da fome.
Quando entrou no carro se lembrou da voz de
um colega de trabalho, dias atrás: "Você é uma mulher perigosa". Tinha
soado como um elogio, e ela sorrira lisonjeada. Mas agora essa frase se
ligava ao sonho, parecia explicá-lo de alguma forma. Perigosa por que e
para quem? Para si mesma, podia ser, mas isso envolvia talvez outras
pessoas. Por quê? Adiava a compreensão do que mais queria compreender e
se irritava, não conseguia voltar àquele autodomínio da manhã. Por que
não entrava nesse aposento que ainda lhe era desconhecido, por que
deixava para depois aquilo que mais a intrigava, aquilo que havia de lhe
interessar mais do que a decoração de seu apartamento? Com que a
decoração do apartamento teria tudo a ver e por que de um modo
inexplicável se impunha a ela sem se deixar capturar? Culpava-se por não
ir ao fundo da questão. O que a incomodava não podia ser mais poderoso
que sua própria vontade. Não podia ter mais força do que ela mesma,
porque afinal era parte dela mesma, estava nela.
Surpreendeu-se chorando de raiva. Olhou-se
no espelho retrovisor e apreendeu um significado nesse gesto, um
significado sem a exatidão e a eficácia a que estava acostumada: agora
fazia coisas sem razão, por um impulso que parecia vir de fora, por uma
força contraditória que a jogava contra si mesma.
Lembrou-se com amargura do momento glorioso
de segurança na fila do supermercado. Já não poderia rir de si mesma; já
não poderia ser indulgente consigo nem com ninguém mais. A menor
grosseria ou desatenção agora a fariam perder o controle. Tinha se
tornado mais um robô passível de se determinar por fatores alheios, e no
entanto não havia tais fatores à vista, não os reconhecia no emaranhado
de sentimentos desse momento. Uma nuvem passou por seus olhos. Procurou
um lenço de papel no porta-luvas, não encontrou. Mordeu os lábios com
tanta força que se cortou e mais lágrimas lhe subiram aos olhos.
Esfregou-os com as costas das mãos.
O motorista do caminhão a seu lado a olhava
com curiosidade, com um semi-sorriso que lhe pareceu um insulto, um
escárnio. Revidou o olhar com tamanha carga de ódio que o homem desviou
o rosto, embaraçado, fingindo concentrar-se num ponto qualquer à
distância.
O sinal abriu. Entrou no primeiro retorno e
em cinco minutos estava de novo em casa. O mal-estar do sonho se
prolongava, e agora parecia moer alguma coisa em seu peito. Amanhã
levaria um atestado médico para justificar a falta injustificável. Não
havia razão para ela, bem sabia. Sabia muito mais do que gostaria de
saber, e por isso chorava e por isso tinha que ficar sozinha, tinha que
ficar doente. Os outros nunca a entenderiam.
ADELAIDE AMORIM nasceu no Rio de Janeiro. Graduou-se em filosofia
pela UFRJ, é mestra em literatura brasileira pela UERJ e em teoria
psicanalítica pelo IBMR do Rio de Janeiro. Trabalhou como coordenadora
editorial de periódicos na Fundação Getulio Vargas e lecionou no Colégio
Pedro II e no Caperj. Publicou em 2003 Umbigo do sonho, pela editora
Litteris, livro de contos.
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