Suzana Montoro: O conto como nonsense

Volnyr Santos

O prisma pelo qual a contista Suzana Montoro traduz a realidade em seu livro "Exilados" (Porto Alegre; WS Editor, 2003) é não só instigante, mas capaz de provocar no leitor reações as mais inusitadas. Um exemplo expressivo se acha já no primeiro conto, "O construtor": a valorização da elipse, processo de renovação do gênero que vem de Anton Tchecov. A propósito de uma rotina de natureza burocrática em que se tematiza não só a solidão, mas a impossível presença da humanidade, a autora vale-se de um estratagema de natureza circunstancial para mostrar, através de um código de ralações verbais e de inferências representativas do subjetivo e do concreto num jogo de analogias e contrastes. O resultado é a transformação de uma história aparentemente banal numa tragédia. Desse modo, a narrativa produz um corte vertical na realidade na qual a própria vida se mostra absolutamente desconcertante. Mesmo caracterizando uma impiedade que desafia a sensibilidade do leitor, Suzana Montoro faz isso
num estilo marcado pelo calor humano e pela ambigüidade que envolve o implacável destino de suas criaturas.

Ao primeiro contato com o texto, um gesto de reserva: a história, passada num escritório repleto de papéis e documentos, descreve a impossibilidade amorosa sitiada pela burocracia e sua extravagante rotina. Na seqüência, a reificação. É, pois, a partir dessa circunstância que a história, circunscrevendo a vida de duas
personagens, (ele) e (ela), instaura, em breves referências à idéia de "construção", a noção simbólica de desconstrução que propicia o desfecho do conto, um modo de significação descrevendo o máximo com um mínimo de palavras.

Associada ao realismo que a autora imprime ao texto percebe-se a existência de uma outra "realidade,
digamos, "mágica", que de certo modo integra um momento anterior ao ordenamento racional: (ele) o personagem masculino, diante da ausência da personagem feminina (ela), encontra um modo de resolver a solidão. Através de um estado de encantação, de invenção arbitrária, Suzana Montoro faz com que o personagem traduza aquela condição por um artifício, desencadeando um clima de sonho e, ao mesmo tempo, de paródia, já que a contista cria um pensamento determinado semelhante à expressão kafkiana. É em face dessa forma de narrar que o conto, na caracterização de uma atitude ingênua e mágica do personagem, propõe um modo de leitura. Não a realidade concreta, mas o mundo da fantasia como instrumento para a alegoria amorosa. Assim, à medida que a ausência de (ela) se faz mais significativa, (ele) institui um jogo de aparências: enquanto (ela) não retornasse ao escritório, (ele) não abandonaria o ambiente de trabalho. Para tanto, valendo-se apenas de água e cigarros como modo de sobreviver,
recolhe todo o material disponível e começa a construir pequenas pirâmides de papel sobre a sua mesa de trabalho, primeiramente, e, depois, não só todas as demais estão cobertas de pirâmides, mas também o próprio chão do escritório. Essa construção, no entanto, não é aleatória, eis que obedece a um critério rigoroso: de qualquer ponto do escritório era possível contemplar uma janela e a paisagem, ritual a que (ele) se submetia todos os dias, indiferente a qualquer outra realidade. Uma forma de esperar retendo o absurdo: o eu o mundo numa aliança impossível.

As pirâmides que (ele) constrói representa uma forma de a autora traduzir a responsabilidade do homem no jogo dos acontecimentos. Sabe-se que, simbolicamente, as pirâmides serviam, no Egito faraônico, de monumentos funerários.

Vista a realidade por esse prisma, a história narrada por Suzana Montoro está comprometida com certos valores que, na sua proposta estética, são permamentes, já que ela faz derivar do absurdo da situação vivida pelo personagem um modo de invocar a realidade, ainda que de modo fantasioso. Alegoricamente, o conto "O construtor" recupera, através do trágico, a verossimilhança: (ele) na sua busca de satisfação amorosa elide-se da vida: enquanto vê a paisagem, absorvido pela fantasia, a verdadeira realidade é afetada. Esquecido do mundo, (ele) é incapaz de aperceber-se de que um estranho "tempo de
sonho" está prestes a acabar-se.

Distante, difusa, uma voz anuncia que se escoa o último momento param os moradores abandonarem o prédio, eis que a implosão se dará nos próximos sessenta segundos.

VOLNYR SANTOS é professor de Literatura Brasileira.
Escritor, tem vários títulos publicados na área de poesia, crítica literária e educação. Ex-diretor da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul.