A margem imóvel do rio

Paulo Scott

“A margem imóvel do rio” (Editora L&PM, 2003), do conhecido escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil (sim, estou rompendo pela primeira vez o padrão desta coluna de resenhas, que é tratar dos novos e desconhecidos), é um livro que merece toda atenção, força ao resumo (de cinqüenta e dois capítulos breves) os limites existenciais de um velho historiador, cuja condição de cronista da Casa Imperial, ao ser lembrada numa questão menor da rotina monárquica e às vésperas da passeata republicana de 1889, servirá para lançá-lo num carrossel de ocasiões que saltitam às pressas e que o precipitarão no desaconchego definitivo. O texto inteiro justifica o início (ou reinício) contido no último parágrafo do livro. Haverá, antes dele, dois outros igualmente marcantes: os que estão no último parágrafo do prólogo e no antepenúltimo parágrafo do epílogo. Nesse meu contar de leitor, são três passos que resolverão a vida do protagonista. O primeiro passo tem como antecedentes quinze capítulos – será o mais grave; nele se encontra, ainda, a prudência (notoriamente enganosa a partir de certa altura da história) e o conflito (surgido nas tentativas que são cada capítulo) presentes na tarefa que o protagonista se deu: a de “organizar a alma” – e, após iniciado, tomará trinta e cinco capítulos e meio, até o segundo passo, e o terceiro. Entre os três, há mistério – o mistério que é possível a todos nós e se apreende no exaurir da identidade que serve de prisão à própria vida –, ele está no protagonista, mas também nos ambientes que se lhe escolhem para corresponder. Nesse sentido, o ápice da narrativa foi deixado na seguinte passagem, onde o autor combina as almas de todas as mulheres da história, e, por arranjada coincidência, todos os desafios de insanidade e não:“Dado que criados não tocam piano, vivia mais alguém na casa. Ele deixou-se dominar pela idéia de ir ver. Levantou-se e empunhou o trinco da porta. Abriu-a. O perfil de uma jovem mulher ao piano repetia-se no espelho oval. O rosto desvelava-se pela luz das duas velas nos castiçais aplicados ao instrumento. As velas iluminavam também a partitura. ‘Essa jovem não mostra uma beleza na obrigatoriedade geral de serem belas, e que tanto exigimos das mulheres.’ Era bela por ser única, o queixo talvez um pouco projetado para a frente, ou o nariz pequeno demais. Toda essa assimetria ressaltava pela exatidão dos cabelos penteados em bandós idênticos. Ele procurou uma cadeira na penumbra. Era justo no momento em que a jovem feria o acorde final, o qual ficou ressoando pela força dos pedais. A seguir ela abriu outro livro de partituras e o pôs na estante do piano. Ele pôde ver que as mãos eram brancas (...) Ela agora começa o prelúdio A gota d´água, em que o intérprete martela com obsessão uma única tecla com a mão esquerda, enquanto a direita realiza uma fantasia de todas notas lentas.” Sem dúvida, é um trecho belíssimo. Destaco também a linguagem do narrador – que não é brasileira, mas algo de “entre caminho” desta e a portuguesa. Numa leitura apressada (dessas de verão, já que Assis Brasil é autor que vende bastante e atinge todo tipo de leitor), o conjunto pode sugerir um quadro inofensivo. Mas o final e o que (nele, de assalto imensurável) ganha e perde o protagonista provam claramente o contrário – quando, justificados, tangenciam o preço da redenção.

PAULO SCOTT é autor do livro de poesia "Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimento dos monstros" (Sulina, 2001); com a ajuda do músico Flu e do desenhista Fábio Zimbres, criou o cultuado evento literário de Porto Alegre ´PóQUET: rUÍDO & LITErATUrA >>> ESCRITORES QUE TOCAM – MÚSICOS QUE ESCREVEM <<<´. Recentemente lançou o livro de contos "Ainda orangotangos" pela editora Livros do Mal.