Rescrito mitológico

Há tempos, quando os homens ainda acreditavam nas miragens provocadas pela alma, uma criança, cujo nome por nós é ignorado, nasceu fruto de uma união pecaminosa nunca dantes conhecida. Isto porque sua mãe, rainha de uma ilha longínqua, motivada por um súbito amor provocado pelas divindades, havia de se apaixonar por um estrondoso animal que da criança lhe seria o pai. Assim, diante das características especiais que a criação herdara, tanto da realeza materna quanto da bestialidade paterna, após seu nascimento, fosse por vergonha ou por medo, um labirinto lhe fora mandado construir por um famoso arquiteto, pois assim aprisionada ficaria até o fim dos seus dias.

Cresceu solitária sem conhecer o mundo que além daquelas paredes, especialmente erguidas para seu cárcere, existia. Passava seu tempo a imaginar se em outros lugares, talvez de climas diferentes e de odores diversos, outro ser como ela habitava o interior de outro labirinto. Em seus sonhos, transmitidos talvez pelo sangue humano que completava seu corpo, se imaginava em pé sobre uma rocha a olhar uma superfície azulada, que de tão grandiosa se confundia com o firmamento. Entretanto, pois a tristeza alheia sempre nos é indiferente, sobre os intricados caminhos que afastavam a criatura dos nossos semelhantes, uma ilha prosperava impulsionada pelos ventos trazidos do mar: Creta.

Com o correr dos anos, a criatura passou a necessitar não só da vegetação que do úmido chão brotava para se alimentar, mas de algo que lhe saciasse tanto a fome humana quanto a sede animalesca. Assim, com o intuito de fazer-se notar, passou a mugir todas as noites até que um dia, apavorada pelos gritos abafados pelas paredes que se entrelaçavam, sua mãe procurou o rei da ilha, seu esposo, com o objetivo de que algo fosse feito para acabar com aquele sofrimento.

Mandou então, o rei, na tentativa de estabelecer uma comunicação com o ser mitológico, um súdito. Todavia, como bem sabiam, este nunca retornaria, pois o labirinto havia sido construído para impossibilitar a fuga do seu singular habitante, e ninguém além do seu construtor e da portadora do novelo, conhecia um meio para dele sair. Contudo, diante da pertinácia da rainha e do incômodo que os mugidos traziam à cidade, o mensageiro foi enviado e, assim, não tardou para que todos percebessem que se havia encontrado a solução do problema, pois o desespero da besta sempre passava quando vítimas lhe eram oferecidas.

Com isso, todos os anos, quatorze cidadãos eram ofertados ao ser que era meio-homem, meio-bovino, na esperança de conseguirem vencê-lo e retornarem sãos e salvos, contudo, isto só aconteceria quando do aparecimento de um jovem chamado Teseu. Filho do rei de Atenas, Teseu seria o herói que livraria, com um único feito, a criatura do seu tormento eterno e a cidade da sua voraz fome de lançar vítimas aos corredores do labirinto, pois Ariadne, princesa de Creta e, por conseguinte, irmã da fera, por Teseu se apaixonaria e, em troca de ser levada para Atenas, dar-lhe-ia um novelo de lã que pelo arquiteto-construtor lhe havia sido oferecido.

A função deste presente era somente esta: uma vez dentro da prisão construída para a besta, Teseu amarraria à porta que ao labirinto lhe servia tanto para entrada como saída, o fio de lã e, à medida que para o interior se dirigisse, deixaria livremente desenrolar o novelo, bastando, para o seguro retorno, voltar a enrolá-lo.

Seguindo as instruções à ele passadas por Ariadne, no dia marcado, nosso herói e outros treze rapazes, foram ofertados à criatura. Teseu deixou que todos fossem à sua frente, pois assim teria tempo suficiente para realizar com calma o que lhe fora informado ser a solitária maneira de escapar do complicado interior do labirinto. Ouviu assustado a mistura de gritos de satisfação e mugidos de dor que pelos corredores se propagavam. No entanto, decidiu que precisava cumprir sua tarefa e caminhou o resto do percurso com sua espada em punho.

Vagou sem destino por muitos minutos até que viu, dobrada sobre o que provavelmente seria o corpo de um dos rapazes, a temida besta. Levantou o mais alto que pode sua espada e preparou-se para assassinar aquele monstro de hábitos repugnantes, todavia, ao perceber a presença de Teseu, o ser-animal largou seu alimento e pôs-se em pé diante do nosso guerreiro.

Impossível acreditar no que os olhos de Teseu viram pois, sob uma cabeça animalesca, um corpo perfeitamente talhado de mulher seria capaz de fascinar o mais petrificado dos homens.

Largou sua arma e ajoelhou-se diante daquela heterodoxa beleza. Beijou-lhe o pé para demonstrar que seria seu servo no que necessário fosse. Em retribuição, a Minotauro deitou-se e entregou-se ao homem que era Teseu. Sentiu-o sobre sua carne, tocando-a, mordendo-a e só então compreendeu a paixão que sua mãe um dia sentira por um Touro. Durante momentos não se saberia dizer quem dominava quem: se o animal, se o humano.

Foi a última vez que Creta ouviu os sons daquela fera, todavia, desta vez, não foram mugidos, mas gritos de uma mulher que se entregara pela primeira vez ao homem da sua vida, mesmo sabendo que os deuses lhe castigariam com a morte logo após a cópula e que Teseu teria que retornar solitário guiado apenas por um fio de lã. Assim foi.


ANTONIO CARLOS SOROMENHO
é escritor português e cursa mestrado em Direito na Universidade de Coimbra.