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O Roubo na Quinta das Vinhas
A ação passa-se numa noite de setembro de 1905, na
Quinta das Vinhas, com a presença do proprietário, José Mendes Borba, e
do seu filho, José Alves Borba, bem como da sua irmã Adelaide, sua
sobrinha (filha desta), Maria Adelaide, de um primo, aspirante a
oficial, Manuel Barata, e de uma amiga de Maria Adelaide, Maria Elisa.
Também está com e/es o Eng. Augusto Claro, a convite de José Mendes
Borba, o dono da Quinta. É o narrador do caso.
Uma noite, pelas 24 horas, depois de uma explosão, foi encontrado
arrombado o cofre da casa, de onde tinham desaparecido cem títulos da
Dívida Externa Portuguesa, que aliás, dois dias depois, tinham entrado
em circulação.Depois das investigações a cargo do agente Lima, este
desconfiou do filho do dono da casa, com dificuldades de dinheiro e que
aliás tinha já maus precedentes, além de que era amigo de Manuel,
passador de moeda falsa. Por outro lado, o roubo devia ser da
responsabilidade de alguém da casa. Sabia-se que, a hora do crime, todas
as pessoas citadas estavam na casa, já recolhidas aos seus quartos, com
a exceção do proprietário e do Eng. Augusto Claro.
O agente Lima estranhava que o Engenheiro tivesse
justamente subido ao 1º andar (onde se localizava o cofre) pouco antes
da explosão. Convencido de que tudo fora obra de uma quadrilha com
inteligências, não só com o filho do dono da casa, mas também com mais
alguém, o agente prendeu o jardineiro José Algarvio.
É então que o Engenheiro pede ao Dr. Quaresma que procure resolver o
enigma, tanto mais que está convicto da inocência do jardineiro. É por
aqui que principia, no texto de Pessoa, a narrativa do Eng. Augusto
Claro, em discurso direto.
Observe-se que, em apontamento datilografado, o poeta
nos deixou uma síntese do livro, dividida em cinco partes:
l. Indicações sobre as pessoas, os locais, e o caso como se deu até ao
princípio da investigação policial .
II. Narrativa das investigações policiais, incluindo o
encontro de quatro títulos, o esbarrar das investigações (conduzidas
sempre na hipótese de o culpado ser um estranho), até a saída do
narrador da Quinta das Vinhas.
III. Narrativa de como o caso realmente se passou, até
o narrador ficar aguardando com receio a vinda do princípio do ano.
IV. A segunda investigação policial, a visita ao Dr.
Quaresma, até ao braço no ombro do narrador.
V. A explicação do Dr. Quaresma.
Eis os fragmentos da narrativa do Engenheiro, que o
autor chegou a escrever:
1º fragmento:
Apesar de me maçar, por antecipação, a idéia de ir
contar ao Dr. Quaresma toda a história do roubo, não podia decentemente
furtar-me a fazê-lo. Por isso, resignando-me com placidez, lhe expus,
resumindo o mais possível, todos os fatos que vão expostos no decurso
desta narrativa. Fiz, como e de supor, algumas supressões: não falei nas
dividas do José Alves, nem no caso dos quinhentos escudos, e muito menos
da parte do discurso do Lima de que estas coisas tinham sido o assunto e
a base. Não pude, porem, esquivar-me a falar da hipótese policial, de
que havia uma quadrilha a trabalhar, e que a polícia suspeitava que o
fizessem em ligação com alguém de dentro da Quinta das Vinhas. Se não
explicasse isto, era incompreensível a prisão de José Algarvio; e,
aliás, bastava que o Dr. Quaresma se interessasse ativamente por ele
para o descobrir na policia.
O Dr. Quaresma ouviu-me com grande atenção; mas, se
assim posso dizer, com uma atenção dividida. Parecia, ao mesmo tempo que
me ouvia com os olhos, estar escutando uma voz que não era a minha.
Reconheço o absurdo deste modo de dizer, mas transcrevo a minha
impressão sensorial. Na realidade, o Dr. Quaresma parecia, sem deixar de
me ouvir atentamente, estar todavia a seguir o decurso interior de uma
outra coisa - raciocínio ou conjectura ligada - que não deixava de ter
relação com o que eu ia narrando.
Acabei, por fim, a minha narrativa, e supunha-me livre
do fardo dela. Mas o Dr. Quaresma, que não me interrompera enquanto eu
contava, começou nesta altura a inter- rogar-me. Pediu-me uma descrição
minuciosa das pessoas que estavam na casa por ocasião do roubo; a minha
descrição direta havia sido sumária. Interrogou-me sobre idades,
profissões, estados financeiros, e tudo mais. Comecei a sentir-me menos
à vontade, sobretudo quando o José Alves era o assunto do
interrogatório. Eu não podia dizer toda a verdade sobre o José Alves,
mas também, em simples justiça ao preso, não podia suprimir redondamente
os fatos. Além disso, não estava muito seguro que o Dr. Quaresma,
falando depois à polícia, não iria descobrir os fundamentos da outra
hipótese do agente Lima. Decidi narrar o caso de certas atrapalhações
financeiras do José Alves, não explicando o jogo que ele motivara, nem
fazendo referência ao furto anterior.
A certa altura, porém, comecei a atrapalhar-me, pois o
medico entrou no assunto por desvios. Perguntou-me se as relações entre
pai e filho tinham sido sempre boas, ao que eu respondi que me parecia
que sim, mas o próprio verbo "parecer" me soou cauteloso demais, e
receei que levasse ao Dr. Quaresma mais informação do que eu queria dar.
Com essas e outras perguntas me entreteve, sem me divertir, durante
cerca de uma hora e meia, a contar do início da minha conversa.
Há aqui uma lacuna, a do pedido do Engenheiro ao Dr.
Quaresma, para que salve o jardineiro, a seu ver injustamente preso. A
narrativa prossegue:
2º fragmento:
- Só o posso fazer pondo a mão no verdadeiro criminoso.
- Então faça-o, Sr. Dr. Quaresma.
Quaresma desdobrou as mãos, estendeu a destra e
tocou-me no ombro. Por fim, levantou-se da cadeira, e dirigiu-se para um
cabide onde tinha o chapéu.
- Não se importa que saíssemos? - perguntou. - Queria
passear um pouco para acabar uns certos raciocínios.
- Não me importo nada. - E saímos.
Descemos a Rua dos Fanqueiros. Estava uma tarde linda de Outono.
Seguimos lado a lado, silenciosos ambos, e, no fim da rua, seguindo o
movimento do Dr. Quaresma, viramos à direita, para o Terreiro do Paço. O
Dr. Quaresma avançou lentamente, cabisbaixo, as mãos sempre cruzadas
atrás das costas, até à muralha da esquerda. Ali parou, e eu com ele, e
contemplou vagamente o rio. Esteve assim um momento. Depois voltou-se
para mim com uma expressão grave e direta nos olhos naturalmente um
pouco febris.
- Eu salvo o José Algarvio - disse. - Mas, antes de o
fazer, preciso estudar com muito cuidado como hei de proceder no
assunto. Calhou muito bem que fosse o Sr. Claro que me procurasse,
porque é consigo que eu tenho estudar a sério a resolução do assunto.
Diga-me uma coisa: ocorreu-lhe alguma vez que o José Alves pudesse ser
suspeito?
- Se me ocorreu? Não. Como sabe o Sr. Dr. Quaresma que
ele é, ou pode ser suspeito?
Depreende-se que assim é. O diálogo continua:
- Se eu salvar este José Algarvio, o José Alves será
fatalmente preso.
- Talvez não - disse eu.
- É-o com certeza. Será preso e será condenado. Este
José Algarvio salva-se com facilidade, nem era preciso o meu auxilio
para nada. O José Alves é que se não salva. É pena. Quer dizer, não se
salva, se o caso seguir o seu curso entregue só à policia. Há só um
processo de o salvar: é pôr a mão no criminoso. Ora a polícia não é
capaz de o fazer, porque caiu, desde o princípio, num erro fundamental,
naquele mesmo erro em que o criminoso quis que ele caísse.
- E o Sr. Dr. Quaresma sabe quem é criminoso?
- Sei. Quer que eu salve o José Alves?
- Quero - disse eu hesitantemente, sem perceber o que
se seguiria.
No fragmento seguinte, também encontrado no espólio,
quem fala agora é o Dr. Abílio Quaresma, médico e decifrador, expondo os
raciocínios que o levaram à conclusão lógica do problema.
4º fragmento:
O critério de investigação que adoto, porque o acho o
mais racional de todos, é o dividir a investigação preliminar em três
tempos. O primeiro tempo é determinar quais são os fatos incontestáveis,
absolutamente incontestáveis, eliminando todos os elementos que não o
sejam, ou porque não ha certeza direta deles, ou porque sejam conclusões
- talvez lógicas, talvez inevitáveis - tiradas desses fatos, mas, em
todo o caso conclusões e não fatos. Citarei um exemplo para esclarecer
inteiramente o que desejo significar com estas observações. Suponha que
está um dia de chuva e que estou em casa. Aparece-me um indivíduo com o
fato a escorrer em água. É natural que eu pense: "Este homem andou à
chuva e assim ficou molhado." Mas pode bem ser que não andasse à chuva,
que entornassem água sobre ele aqui dentro de casa. A maioria da gente
consideraria um fato o ter andado esse homem à chuva. Afinal é uma
conclusão - uma conclusão naturalíssima, mas uma conclusão, ou uma
dedução. Se eu tivesse estado à janela, tivesse visto esse indivíduo vir
pela rua fora sob uma chuva pesada, poderia ainda, é certo, esse molhar
da chuva ser suplementado por outra circunstância qualquer, mas alguma
coisa da chuva teria molhado o homem, e eu poderia, em todo o caso,
afirmar que o homem tinha andado à chuva. E então isso seria um fato.
Ora, neste caso do roubo na Quinta das Vinhas, há
alguns fatos que parecem incontestáveis (digo "parecem", pois eles se
baseiam em testemunhos que podem ser falsos, involuntária ou
propositadamente). Esses fatos são: que cerca da meia-noite do dia ...
de Setembro se deu uma explosão de dinamite na fechadura do cofre no
escritório da Quinta das Vinhas; que esse escritório e a saleta anexa
estavam fechados por dentro, aberta a janela da saleta, e dois cães
mortos por envenenamento; que se verificou nessa altura não estarem no
cofre dinamitado uns títulos (cem) da Divida Externa Portuguesa, 1ª
série, que haviam estado nesse cofre; que se não encontrou sinal de
ninguém suspeito na busca que se passou imediatamente nas proximidades
da casa; que todos os títulos roubados, verificados os seus números por
uma lista que existia em poder do proprietário dos títulos, foram
passados para a circulação bancária da praça sem que qualquer deles
fosse apanhado no processo de passagem. Fatos, simplesmente fatos, há só
estes. Quanto mais se queira passar por fato é simplesmente dedução.
Estabelecidos os fatos incontestáveis, chegamos ao segundo tempo da
investigação. Este tempo consiste no seguinte: em descobrir qual e a
hipótese que mais completamente liga e explica os fatos incontestáveis.
Mas, descoberta esta hipótese, há que investigar que outras hipóteses
haverá que também, embora com menos probabilidade aparente, se ajustem
ao conjunto dos mesmos fatos. E essas hipóteses determinam-se por um
processo simples: descoberta a hipótese mais provável, estabelece-se
Jogo a hipótese contrária e verifica-se qual o grau de probabilidade que
a essa hipótese contrária compete. Estabelecido isto, será possível
partir para as outras hipóteses, isto é, aquelas que estejam
intermédias, entre a mais provável e a sua contrária, e ir verificando,
a uma e uma, quais as probabilidades delas.
No caso de que se estamos tratando, a hipótese
aparentemente mais provável é a que toda a gente aceitou desde logo,
instintivamente, achando-a tão provável que a tomou, até, por fato e não
por hipótese ou conclusão. Essa hipótese é de que o roubo houvesse sido
praticado por um indivíduo ou indivíduos, estranhos à Quinta das Vinhas,
que houvessem envenenado os cães, entrando em casa escondidos, posto a
dinamite, roubado os títulos e fugindo depois, suficientemente depressa
para não serem vistos. Conhecida esta hipótese, estabeleceremos a
hipótese contrária. A hipótese contrária é que o roubo não tenha sido
praticado por indivíduos estranhos, que não tenha havido nenhuma das
circunstâncias aparentes já indicadas. É isso que constitui, como é de
ver, a hipótese contrária.
Ora que probabilidade se pode ligar a esta hipótese
contrária? Como a hipótese mais provável, a mais imediata para todos, é
que o roubo fosse feito por estranhos, e nas circunstâncias indicadas, a
hipótese contrária será realmente provável apenas num caso: se houve a
intenção de simular esse roubo por estranhos. Nesse caso, a hipótese
contrária é provável; tão provável como a primitiva é natural.
Estamos, pois, perante duas hipóteses prováveis, e que
entre si se opõem. Qual das duas é a mais provável? Temos que considerar
isto à luz do exame das circunstâncias diretas do roubo, ou seja,
considerando (1ª) o local do roubo, (2ª) a hora em que o roubo foi
praticado, (3ª) a natureza do objeto roubado. São estes os três
elementos materiais diretos do sucesso.
O local do roubo pode ser considerado sob dois aspectos
- o local em si mesmo, e a escolha deste local para roubo; ou seja, o
ser o roubo praticado no escritório da Quinta das Vinhas, e o ser a
Quinta das Vinhas o local escolhido para o roubo. Quanto a dar-se o
roubo no escritório da Quinta, nada há de extraordinário pois ali é que
está o cofre, e o roubo havia forçosamente de ser ali. Mas quanto a
escolher a Quinta das Vinhas para casa a roubar, o caso é diferente. Que
presunção havia de que o cofre da Quinta das Vinhas era mais proveitoso
de roubar que qualquer outro cofre? Que presunção dessa ordem havia para
estranhos? Quem tivesse a habilidade e os processos para roubar como se
roubou neste caso, por que escolheria a Quinta das Vinhas, quando, sem
desperdício de habilidade, nem maior risco, obteria melhores vantagens
atacando outro ponto? A probabilidade neste caso é, pois, em favor de
uma pessoa não estranha à casa; capaz de roubar esse cofre por não ter
outro a mão - razão suficiente e clara - e sentindo-se na necessidade de
simular o roubo dum estranho para desviar a atenção de alguém de dentro
da casa, entre os quais ele estaria incluído.
Agora quanto à hora do roubo. Quanto à hora do roubo, é
mais estranha se ele foi obra de estranhos do que se foi obra de alguém
de dentro de casa. Entrado em casa, o gatuno estranho deixa passar o
tempo necessário para ter a certeza, ou a probabilidade grande de
estarem todos a dormir. Para que operar logo, ainda que não se soubesse
que tinha ficado alguém cá em baixo? Para estranhos é a hora mais
espantosa que se pode imaginar. Mas para alguém de dentro da casa, que
quisesse simular um roubo por estranhos, a hora e exatamente a que seria
escolhida. Estava quase toda a gente deitada, mas ainda estava alguém a
pé. Não havia tanta gente a pé que se corresse o risco de cruzar com
alguém ao dispor as coisas para a simulação; mas havia ate o número
bastante de pessoas para marcar a hora - neste caso a pretensa hora - do
roubo e para dar sinal de que o roubo estava cometido.
A natureza do objeto roubado... Se o roubo foi
praticado por estranhos, ou iam roubar os títulos ou não iam roubar
senão o que encontrassem. Contra a hipótese de que iam ao acaso, milita
a própria natureza do roubo, e a maneira como depois foi passada a
matéria roubada parece indicar preparação para dispor dela.
Em toda a investigação de um fato, cuja natureza se
desconhece e se quer saber ou cujo autor se ignora e se quer descobrir,
o que importa, acima e antes de tudo, é isolar nele qualquer elemento
que, sendo absolutamente indubitável, seja, ao mesmo tempo, inesperado
ou estranho. Este roubo contém dois elementos que são inesperados ou
estranhos - as circunstâncias do roubo, e o fato de que se conseguiu
passar os títulos sem encontrar obstáculos. Por um destes dois fatos,
portanto, convém que principiemos a investigação.
Mas, isolados que sejam os fatos de que se não possa
duvidar que se deram, e que são estranhos (presumindo, é claro, que haja
mais do que um), escolheremos, para verdadeiro princípio da
investigação, aquele desses fatos que seja susceptível de menos
interpretações, isto é, aquele que pareça mais misterioso. Ora a
passagem dos títulos é susceptível de várias interpretações; pode haver
um conluio com qualquer indivíduo num banco ou na bolsa; pode haver um
erro qualquer na lista dos títulos; pode ter havido uma troca de títulos
sem que se verificasse a troca, nem portanto se conferissem os números.
Mas sobre as circunstâncias do próprio roubo não há várias hipóteses
plausíveis. Há simples estranheza.
Sim. O roubo foi praticado, ao que se viu, por um
processo ruidoso, e a hora não tão cedo que fosse dia, mas não tão tarde
que houvesse a certeza de estarem todos deitados em casa, como
efetivamente não estavam. Podendo o cofre ser aberto por vários
processos que não envolviam ruído, foi escolhido um processo que
precisamente o causava; e, ainda, um processo invulgar. Resultado: foi
escolhido um processo invulgar porque era desnecessário e produzia
alarme - exatamente as razões contrárias àquelas que levariam a escolher
um processo invulgar. Que a intenção era roubar os títulos é evidente,
primeiro porque o modo misterioso como se passaram os títulos deve,
qualquer que fosse, ter sido objeto de preparação; segundo, porque,
sendo o roubo praticado com gente dentro de casa, não haveria tempo para
roubar mais que os títulos.
Ora estas circunstâncias levam-nos a uma conclusão: que o processo
empregado para o roubo foi empregado precisamente para dar alarme. Ora
não se dá alarme senão para um fim: para enganar sobre a hora do roubo.
E, se considerarmos que o processo de roubo - uma deflagração por
rastilho - é coisa que pode ser disposta por uma pessoa para produzir
resultado quando essa pessoa não esteja presente, chegamos a outra e
ulterior conclusão: que o roubo não foi praticado pela deflagração de
dinamite. Se o não foi, é porque foi por chave falsa e se foi por chave
falsa, quem roubou era uma pessoa da casa, que, pela deflagração, quis
dar a idéia de que quem roubara era pessoa de fora. Mas, se essa pessoa
queria dar a idéia de que o que roubava não era ele, haveria de
completar o seu cenário com o cuidado de estar onde o vissem na ocasião
da deflagração e assim assegurar a si mesmo um álibi suficiente. Na
altura da deflagração estavam todos deitados menos duas pessoas - o pai
Borba e V. Ex.ª. E, como era ele o proprietário dos títulos, a primeira
suspeita é sobre V. Ex.ª que recai.
Para que a suspeita se confirme, ou se confirme mais, é
preciso ver, primeiro, se, um pouco antes de se dar a deflagração, V.
Ex.' saiu de casa de jantar sob um pretexto qualquer e se demorou
bastante para dispor o cenário. Ora V. Ex.' saiu sob um pretexto direto
- o ter deixado uma cigarreira no quarto do aspirante -, e demorou-se o
bastante para dispor o cenário completo, aliás obra de minutos sobretudo
para quem, tendo tudo estudado, procede rapidamente.
Agora é o Eng. Augusto Claro, apontado por Quaresma
como autor do roubo, que volta a ser o narrador.
5º fragmento:
O Dr. Quaresma desligou as mãos detrás das costas,
olhou sem expressão e rapidamente para mim, e, estendendo a mão direita
de repente, tocou-me no ombro. Depois tornou a posição em que estava, as
mãos outra vez atrás das costas, atadas, e os olhos perdidos sobre o
Tejo.
Como uma bola de sabão, estoirou-me a alma, sem ruído,
dentro de mim. Fiquei suspenso de um vácuo interior, sem razão, sem
fala, sem gesto. Se o Dr. Quaresma tivesse dito qualquer coisa, eu teria
respondido qualquer coisa; teria tido a que adaptar a minha razão e a
minha voz. Ao silêncio não pude responder nada. O seu gesto era
guilhotinante. No longo espaço de curtos segundos tentei
desesperadamente formar uma atitude, uma palavra, um gesto, qualquer
coisa... Não pude... e então compreendi violentamente quanto pode em
nos, se sabem excita-la, a consciência da culpabilidade. Fosse eu
inocente, e alguma coisa diria, alguma coisa sucederia. Com cada fração
de segundo do meu silêncio a minha culpabilidade enchia o espaço. Com
cada fração da minha consciência desse silêncio aumentava a minha
incapacidade de falar, de agir, de me defender. A minha der-rota era
completa. No fim do que deviam ser poucos segundos reconheci-o
inteiramente.
O Dr. Quaresma desviou o olhar do Tejo, mas não o
passou por mim. Voltou-se de costas para o rio, disse-me, com um tom de
quem antes nada dissera que pesasse: "E se nós nos fôssemos embora?" E,
avançando ele para o Arco da Rua Augusta, avancei, silencioso ao lado
dele, soterrado em mim sob a acusação definitiva que não fora proferida.
A meio da Praça o Dr. Quaresma voltou para mim a face,
mas não os olhos, e disse: "O que pensa fazer?"
Tive uma grande vontade de chorar, de lhe pedir perdão,
a ele, a quem nada fizera. Durante um momento não pude falar. Depois
encontrei a minha voz dizendo-lhe: "Não sei." E acrescentei, passado um
momento: "O doutor dirá o que quiser."
O Dr. Quaresma olhou então em cheio para mim, e
disse-me com grande simplicidade: "Eu não tenho nada a dizer. Como já
compreendeu, decifrei - posso dizer-lhe que decifrei com muita
facilidade - o seu caso. O resto é consigo."
FERNANDO PESSOA:
Nascido em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888, perde o pai aos 5 anos de
idade. Em 1896, a família é levada pelo segundo marido de sua mãe para a
África do Sul. Em 1903, ingressa na Universidade do Cabo. Deixa a
família na África e retorna para Portugal, onde matricula-se no Curso
Superior de Letras, que logo abandona. Em 1908, começa a trabalhar como
tradutor de cartas comerciais para empresas estrangeiras, esse modesto
emprego lhe garantiria o sustento por toda a vida. Funda em 1915,
juntamente com amigos, a revista Orpheu, marco inicial do Modernismo
Português. Mergulha em anos de relativa obscuridade, publica dois
pequenos volumes de poemas em inglês, reunindo Antinuous e 35 Sonnets
(1918), além de ensaios e poemas esporádicos em algumas revistas. Em
1934, tomando dinheiro emprestado, publica o livro Mensagem, com o qual
participa do prêmio Antero de Quental. Recebe o prêmio de Categoria B.
No dia 30 de novembro de 1935, morre de cirrose hepática, sem nunca ter
recebido o merecido reconhecimento. Escreveu, no dia de sua morte, a
seguinte frase em inglês: " I know not what tomorrow will bring " ( " Eu
não sei o que o amanhã trará").
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