 |
 |
Morto
Lá pelas três ou quatro da madrugada, vão chegando lá embaixo. Uma tropa silenciosa se estica pela calçada, equilibra tábuas e monta as barracas da feira. Amanhã é aquela zorra de fruta, vegetal e peixe escorrendo pros bueiros, moleques segurando sacolas, velhas empurrando carrinhos, pechinchas e gritos batendo na janela. Depois da disputa pela xepa, a rua faxinada à mangueira e muito rodo pra limpar a imundice.
Acordamos embrulhados um no outro. Os pedaços de cama vão sendo conquistados sem cerimônia durante a noite, entre lençóis enrolados nas pernas, travesseiros jogados, cotoveladas e joelhaços involuntários. Quando dou por mim, o braço caído pelo chão, ocupo um canto, sem ter onde apoiar a cabeça. Com a manhã, o torcicolo e as costas moídas. Enquanto tento me ajeitar, ela domina o território, estica-se sem remorso sobre mim, sossegada. Nessa guerra surda pelo colchão, sou perdedor assumido.
Quando abre os olhos, dispara beijinhos e diz que me ama, esbaforida. Abraça forte e não quer largar. O que foi é que sonhou feio, de morte. Diz que vai chorar, mas não chora e conta. Mas contar sonho antes de tomar o café dá azar, então demora pra contar, adoça. Depois de vários depois, veio o enfim: o sonhado foi que eu morri. Daí o drama. Ônibus pra São Paulo, pego pro lançamento do livro, duas horas depois o acidente e a lista dos mortos na televisão. Ainda fresco, o sonho vai saindo derramado, cheio de detalhes e desencontros. Depois de morto, digo coisas através de fotos. Respondo perguntas, projeto imagens dentro da sua cabeça.
E foi dizendo sobre o sonho. Agarrando-se a mim e a minha ausência sentida, de morto presente. O que se tem, ganha um gosto diferente com o medo. A sombra e a saudade pesam mais do que a presença. Sentimentos temperados por risco, feridas que se abrem só pra espiar. Às vezes eu penso que as coisas fáceis são as melhores de complicar. E também penso em algumas equações idiotas pra simplificar a conta. Que o amor ensina as pessoas a mentir, desde sempre. E que mentir ensina as pessoas a morrer, desde sempre. E que amar e morrer são duas pontas dessa maior mentira de todas: estar vivo. Sem amor, não há morte - não há o que perder. E sem morte, não pode haver amor, essa efemeridade prolongada. Respiram um dentro do outro numa relação incestuosa, parasitária. Entrelaçam-se como as nossas pernas disputando espaço na cama.
Ficou o dia todo com esse gosto de morte anunciada, e não houve o que tirasse. Nos olhares, a eternidade do casal traída pelo sonho ruim. E depois de morto, quanto tempo ela demoraria pra encontrar o próximo homem? Uma semana, três meses, dois anos? A viuvez simulada não deu gosto e veio uma angústia doída entre os peitos. Sabor de nostalgia precoce, solidão acompanhada no dia preguiçoso, cheio de sonos, cochilado sem dó nem piedade, “pra apagar o sonho ruim”.
Enfim, digo que morto, só espero uma coisa: que ainda ame dentro de quem ficar."
O carioca JOÃO PAULO CUENCA toca guitarra em duas bandas (Netunos, de surf music, e Glamourama, de glitter rock), mas é mais conhecido por seu trabalho como escritor na rede. Lançou pela Editora Planeta o romance "Corpo Presente"
|