Num shopping. Escada rolante por perto, muitas pessoas passando.
O MENTIROSO e JOEL descem a escada rolante.
JOEL veste-se a caráter, conforme a época, a moda, a hora. Sem caricatura.
O MENTIROSO também se veste quase igual, mas algum detalhe não lhe assenta bem.
Algo na sua indumentária, no cabelo e na sua expressão não funciona. Tem o ar desamparado, não muito. Sem caricatura.
O MENTIROSO - Olha lá o mundo.
JOEL - Aonde?
O MENTIROSO - Ali. Ali, ó, bem perto de você.
JOEL - Nada vejo, meu bom homem.
O MENTIROSO - Obrigado pelo "bom homem". É bom ser reconhecido. Mas, olhe, olhe. Vidros limpos, total transparência.
JOEL - Gosto disso. Posso confiar no que está por trás.
O MENTIROSO - Não haveria mais coisas por trás?
JOEL - Não sonhe, meu caro. O sonho é caro, e não deixa você ver direito.
O MENTIROSO - Isso é verdade. Não consigo chegar, ver, e seguir em frente como se não tivesse sido atropelado...
JOEL (Rindo) - Você é estranho, mas, admito, engraçado. "Atropelado..." Não é para tanto!
O MENTIROSO parece mergulhado em si mesmo. Volta o rosto algumas vezes para os lados, demonstrando estar atento, sim, mas olha como se fosse golpeado. Golpe que tenta não denunciar, mascarando um pouco a inquietação que sente.
JOEL caminha fácil. Seu rosto luminoso, decidido, nada mascara. É confiança. Não pura - nenhuma confiança é tão pura -, mas confiança .
Ambos tentam continuar o diálogo, entretanto são interrompidos pela massa de pessoas que passa entre eles. Caminham agora separados por uma turma ruidosa. Falam, mas não se ouve o que dizem.
Aos poucos, vão conseguindo reaproximar-se, diminui o grupo de pessoas entre os dois. Um silêncio aceitável volta a se instalar.
O MENTIROSO (atordoado) - Quanta gente!
JOEL (contente) - Quanta gente!
O MENTIROSO - Cegos e surdos. Lamentavelmente, não mudos.
JOEL - É gente! Gosto de ver gente. Dá a sensação de que há tanta coisa no mundo...
O MENTIROSO - HÁ tanta coisa no mundo! Coisas demais.
JOEL - Coisas de menos, meu velho. Sempre está faltando. Eu nunca me dou por satisfeito.
O MENTIROSO - E aí... Uma multidão barulhenta lhe atropelando o faz feliz?
JOEL (rindo) - Gente, gente! Quer coisa melhor?
O MENTIROSO - Quero.
JOEL - O quê?
O MENTIROSO - Gente!
São novamente interrompidos por um grupo que passa entre eles. Vão às gargalhadas, alguns. Outros, às turras. Outros passam pelos dois e viram-se para trás e os observam de forma acintosa. A dupla fala, mas não se ouve o que dizem.
Aos poucos o silêncio volta.
O MENTIROSO - É disso que eu falava...
JOEL - Estão tentando divertir-se.
O MENTIROSO - Eu também estou.
JOEL - Você não está.
O MENTIROSO - Como sabe?
JOEL - Porque não parece.
O MENTIROSO - Parece o quê, então?
JOEL - Sei lá... Parece até que você não gosta da vida.
O MENTIROSO - Pois enganou-se, Joel. Enganou-se redondamente. Gosto tanto da vida que me escandalizo com isso aqui.
JOEL - O que há de tão escandaloso?
O MENTIROSO - Para alguém contente você até que faz muitas perguntas...
JOEL - Você não respondeu. O que há de tão escandaloso?
O MENTIROSO - Não sei... Sei que me escandalizo.
JOEL - Ué? Você não tem uma resposta melhor?
O MENTIROSO - Vamos tomar um cafezinho. De cafezinho eu sei tudo.
JOEL movimenta-se no palco com destreza. O MENTIROSO anda devagar, como se se arrastasse.
JOEL (olhando para trás) - Anda, tartaruga!
O MENTIROSO - É que me pesa este mundo.
JOEL (olhando para trás) - Anda, ruminante!
O MENTIROSO - É que este mundo ruim não me pensa.
JOEL (olhando para trás) - Anda, monstro com pinta de médico!
O MENTIROSO - É que o mundo que me chega é chaga.
JOEL (olhando para trás) - Anda, doutorzinho do discurso, figura solitária vestida de poeta!
O MENTIROSO - É que a palavra é a brecha, único lugar onde esse mundo não me fecha.
JOEL (apoiando-se no balcão, sacudindo a cabeça) - Quanta desolação nesse papo, quanta vontade de cuspir lava pela boca...
O MENTIROSO (chega arfante, com expressão cansada) - Ufa! O café agora apaziguará esse momento doloroso.
JOEL - Diga, afinal, o que você tira disso tudo.
O MENTIROSO - Não tiro.
JOEL - Sente-se roubado, então?
O MENTIROSO - Nem isso. Não querem o que possuo.
JOEL - Então por que tanto cuidado?
O MENTIROSO - É valioso para mim.
JOEL - Mas você não parece ter prazer com isso.
O MENTIROSO - Como ter? Um tesouro que pesa mais que posso carregar, e que ninguém vê?
JOEL - Tesouro?
O MENTIROSO - Joel...
JOEL (interessado) - Sim?
O MENTIROSO - Quando eu tinha oito anos de idade, e contava pra minha mãe as coisas que tinham me acontecido, ela pensava que eu estava mentindo.
JOEL - ...E o chamava de mentiroso!
O MENTIROSO - Aí é que está: não. Não dizia nada, ficava quieta, e eu sabia que no fundo sentia tristeza por eu não levar a vida como os primos levavam, os colegas de aula levavam.
JOEL - Você já era complicadinho, meu...
O MENTIROSO - Já, evidente. Mas mais complicado ainda era tentar explicar a ela que a verdade estava comigo, para quem tudo era mais difícil, do que com os outros, para quem tudo era fácil.
JOEL - Não era você quem estava tornando tudo mais difícil?
O MENTIROSO - Não. Eram os outros, que estavam tornando tudo mais fácil.
JOEL - Não é melhor assim?
O MENTIROSO - Negativo, Joel, negativo. O fácil ao qual eles queriam se abraçar era o difícil jogado pra baixo do tapete. Ficava só o tapete, onde eles pisavam em cima. A maioria, com o tempo, acostumada a esse jogo, esquecia que virava um jogo e passava a enxergar só o tapete. Aí ficava de fato tudo mais fácil.
JOEL (faz um gesto enérgico, se defendendo) - Sem essa de sujeira pra baixo do tapete! Eu tenho vergonha na cara! O que você está insinuando?
O MENTIROSO - Não precisa se defender, homem! Ou, se não considerar um ataque pessoal, considere-se no mesmo barco, sim. A maioria dos enigmas desta vida vira mistério porque cedo renunciamos a olhar a sombra.
JOEL - Você parece um juiz, e um juiz carrasco, poderoso demais! Cuidado onde pisa.
O MENTIROSO - Ser homem é ser ninguém, e ainda por cima ter de viver para prová-lo.
JOEL - Não tem sol nesse seu mundo?
O MENTIROSO - Tem. Só que no mundo onde você está ele vai explodir daqui a um milhão de anos, e no meu, antecipei a explosão.
JOEL - Não é uma idéia muito esperta...
O MENTIROSO - Claro que não é. Mas a esperteza, nem o sol tem. Nem estrela nenhuma. Qual bicho é esperto que não seja apenas para salvar a pele?
JOEL - Não é o bastante?
O MENTIROSO - Para salvar a pele, sim. Mas estamos num shopping. Há muito passamos do estágio onde sair da caverna e do fogo era cair no espaço aberto dos tigres-de-sabre.
PAULO
BENTANCUR
- Escritor, autor de Instruções para iludir relógios e Frio,
para adultos. E da coleção Brincando
de Pensar, para pré-adolescentes. Atualmente trabalha numa biografia de
Erico Verissimo.