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Manhã
Eu não tive uma vez uma juventude amável, heróica,
fabulosa, para escrever sobre folhas de ouro, - sorte demais! Por qual
crime, por qual erro, eu tive mérito por minha fraqueza atual? Vós que
pretendeis que bestas soltem soluços desgostosos, que doentes se
desesperem, que mortos sonhem mal, esforcei-vos de contar minha queda e
meu sono. Eu, eu não posso mais me explicar como o mendigo com seus
contínuos Pai Nosso e Ave Maria. Eu não sei mais falar!
No entanto, hoje, eu creio ter terminado a relação de
meu inferno. Era bem o inferno; o antigo, aquele no qual o filho do
homem abriu as portas.
Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos
infelizmente acordam à estrela de prata, sempre, sem que se comovam os
Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando nós
iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do novo
trabalho, a nova sabedoria, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da
superstição, adorar - os primeiros! - Papai Noel sobre a terra!
O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não
amaldiçoemos a vida.
Traduzido por Ana Carolina da Costa e Fonseca
Mestre e doutoranda em Filosofia pela UFRGS
Jean-Nicolas Arthur RIMBAUD nasceu em 20 de outubro de 1854, em
Charleville, nas Ardenas, filho de um capitão de infantaria e uma mulher
de origem camponesa. Sua precocidade revelou-se no Colégio de
Charleville, onde surpreendeu mestres e colegas com sua inteligência
excepcional que o levava a traduzir poesias latinas. Com 15 anos
publicou seu primeiro poema. Em 1870 conheceu o professor de retórica
Georges Izambard que tornou-se seu amigo e confidente. Naquele ano
começa a escrever intensamente. Os acontecimentos políticos o atraem. O
império francês cai e o fato suscita profunda alegria em Rimbaud. Nessa
época propalava-se ateu e republicano e acompanhava com apaixonado
interesse as notícias sobre a Comuna de Paris. Nos primeiros meses de
1871, depois de fugir de casa pela terceira vez, lê Rabelais,
Saint-Simon, Rousseau e Victor Hugo, entre outros. Com o fim da guerra
cresce seu desejo de viver em Paris para onde vai em setembro de 1871.
Às vésperas de sua partida escreve Le bateau Ivre, uma de suas
obras-primas. Na capital francesa conhece Paul Verlaine com quem teria
uma conturbada relação. A agressividade em seus contatos com os meios
literários, a vida boêmia e o uso de drogas caracterizam sua conduta em
Paris. Lá viveu menos de seis meses, voltando em fevereiro de 1872 para
Charleville. Retorna a Paris a pedido de Verlaine e seguem juntos para a
Bélgica, permanecendo algumas semanas em Bruxelas. Depois de sucessivas
brigas separam-se. No final de 1872 Rimbaud termina Un saison en enfer e
dois anos depois Illuminations, encerrando, aos 20 anos, sua carreira
literária. Começa a viver uma nova existência, entre mistérios
sucessivos. Nos anos seguintes percorre toda a Europa. Em 1880 vai para
a Abissínia trabalhar no comércio de marfim, café e peles. No início de
1891 nasce um tumor em seu joelho direito que provoca dores terríveis.
Volta à França para se operar e é diagnosticado que ele está com câncer.
Sua perna é amputada. Internado pela segunda vez morre em novembro de
1891, aos 37 anos.
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