 |
 |
Iva
É a décima vez este ano que Iva toma sua decisão.
Deveria se chamar Eva, mas sua mãe queria que a
chamassem como a garota do filme americano vagabundo feito nos anos
setenta para TV. Esperava que a filha tivesse a mesma leveza da
personagem clara de cabelos lisos marrons. Iva olha para o céu e torna a
olhar para baixo. Muito nervosa.
Boca seca, coração a mil, lágrimas de enxurrada.
Não é fácil! Seus músculos tremem tanto que nem
tem mais controle do próprio corpo. E não entende porque tanto drama. É
sua escolha. É que na verdade queria fazer outra escolha, como das
outras vezes. Será que desta vez vai ser diferente? Tomou calmantes
antes de sair de casa para fazer a coisa sem traumas, normalmente, mas
não está conseguindo. O coração pula tanto que tem a impressão de que a
qualquer momento sairá de seu peito, fazendo um buraco, e continuará
pulando no asfalto lá embaixo. Mesmo que despedaçado em mil partes,
todas elas continuarão pulando naquele ritmo louco e frenético que quase
a faz sufocar.
Está para sufocar com tanto calor e tanto
nervosismo. Uma sensação bem conhecida mas assim mesmo inconveniente.
Matar alguém deve ser menos difícil! Tenta se ver daqui a algum tempo
mas não consegue. Só consegue que os mesmos pensamentos venham
desfilando um atrás do outro. Os mesmos de todos os dias, de todos as
semanas e meses e anos.
Tem medo deles e tem medo de si mesma. Tem medo
do que poderá ser mais do que poderá não ser, porque tem mais idéia do
que pode se tornar do que o que não pode. Não poderá se tornar outra,
nem poderá de ser a de antes. Um delírio eterno, um dilema.
Tem as mãos geladas e o peito quente, tão quente
que pode sentir dor. Sente o peito em brasa e as pernas mais trêmulas do
que jamais sentiu. É sempre assim. Todas as vezes que toma sua decisão é
como se fosse mais difícil do que da primeira vez. É sempre uma luta
gigantesca consigo mesma.
Está exausta e começa a perceber que ainda não
será desta vez. Não sabe se felizmente ou infelizmente. Por hoje,
decidiu viver. Está sempre fazendo esta escolha, só não sabe até quando.
Não é porque ache que vale a pena, é que não sabe mais o que vale.
Viver, morrer. O que será pior, melhor? Iva não sabe!
ELIZÂNGELA ARAÚJO é jornalista e escritora em Brasília, DF.
|