Internação

      - Estás em surto! - vociferou meu analista num portunhol carregado.

      - Não estou! - repliquei, desta vez, com a convicção daqueles que dizem gozar de sanidade absoluta. - Não quero mais vir aqui. Vou embora para Florianópolis. Quero autonomia sobre minha vida. 

      - Estás em surto. - repetiu meu analista. 

      - Não estou. - segui dizendo num diálogo que parecia não ter fim e que quase me levou a pensar em suicídio como forma de escapar do divã em que deitava três vezes por semana e de onde enxergava a lombada de um livro em que dizia Porque Freud Errou.

      Não nego a minha reincidência em sair “fora de casa” por sofrer de uma doença chamada psicose-maníaco-depressiva ou distúrbio bipolar. O mesmo mal, por exemplo, que levou Van Gogh a cortar sua orelha, a Virginia Woolf colocar pedras nos bolsos e mergulhar num lago, a Hemingway dar-se um tiro com uma espingarda de matar elefantes. Mas daquela vez eu queria minha alta, estava pronta para andar pelos meus próprios pés. 

      Tinha tomado uma decisão final. Me dedicar somente à literatura depois de passar pelo direito, pelo jornalismo, pelo magistério, pelo mestrado, pelo doutorado. Meu analista, apesar de eu falar que minha escolha era a escrita literária, insistia para que eu fizesse um concurso de professor adjunto na Universidade Federal e ministrasse um concurso de criação literária para a terceira idade. Estava dificultando, ainda mais, uma escolha que levou séculos para ser assumida. Desde de criança queria ser escritora, mas circulei, circulei, circulei em volta do desejo como um cão que fareja a comida antes de abocanhá-la.

      Moral da história: pelo poder da psicanálise fui internada sem estar em surto. Sã, lúcida e de cara lavada, me levaram para o hospital psiquiátrico para uma nova experiência. Fui ver como era a internação sem estar fora do ar. Fui prisioneira sem ter cometido nenhum crime. Pensava no meu sobrinho, filho emprestado, esperança emprestada. Sua adolescência me dava forças para imaginar um futuro menos injusto. Eu tinha que sobreviver àquele lugar para tornar o espaço de fora menos ameaçador para os que vêm depois de mim.

      No manicômio tem hora certa para fumar cigarro. Muito choro nos primeiros dias. Lá vive-se para a chegada da visita. Os dias vão passando e se acaba fazendo amizade com os outros detentos, digo, internos. Há o Roberto, esquizofrênico que fala com Jesus Cristo e conta a toda hora que do outro lado do mundo, no Japão, já é dia ou noite. Tem a Simara, que rejeita tudo o que a família manda de casa, pois foi mandada à força de lá. E a Luana, prendada, adolescente, que faz dez meses que está lá. Já cruzei com ela em outra internação. Tem um que joga xadrez, tem os meninos das drogas, tem a senhora que lê os Miseráveis em francês. Eu leio o jornal e escrevo cartas que nunca serão recebidas. 

      Atônita, sinto medo de ficar ali para sempre. Esquecida entre as grades logo no momento em que fui dar o grito de independência. Minha alforria virou escravidão. As horas não passam na internação e quem está no lado de fora nem sonha o valor que o minuto tem entre as paredes do hospital Petrópolis. Também não imagina a dor da agulha fincando a pele para injetar o calmante quando a raiva pela prisão injusta toma conta do corpo.

      O analista vem me visitar e insiste que eu volte a vê-lo no consultório quando eu sair da internação. Penso que quem deve estar internado é ele, mas, infelizmente, não tenho o poder para mandá-lo passar uma noite sequer no inferno. Por fim acabo saindo do claustro e ganho a rua sem grandes emoções. Só quem já foi preso sabe que as quatro paredes ficam dentro da gente para sempre.


SUZANA VERNIERI é autora da novela O Caminho de Telêmaco (Criação Humana), e do ensaio O Capibaribe de João Cabral de Melo Neto em O Rio e O Cão sem Plumas: Duas Águas? (Annablume), tem mestrado e doutorado em literatura brasileira pela UFRGS, é jornalista e formada em direito.