O grande amor do mudo

      A cadela não pôde fazer nada quando ele começou a espetar a navalha no mudo. Foi uma tragédia muito grande. A cadela estava longe e levantou as orelhas quando ele começou a espetar a navalha no corpo do mudo: acertava-lhe por onde o apanhava: no peito, nos ombros, no pescoço. A cadela correu depressa. As unhas das patas cravavam-se na terra. O instante das patas sobre a terra e, cada vez mais perto, ele a bater com a mão direita no mudo e, dentro da mão, a navalha. A cadela a correr e a lâmina da navalha, com raiva, a espetar-se entre as costelas, ou a bater nas costelas duras, ou espetar-se no pescoço de veias. E, cada vez mais perto, os gemidos que o mudo asfixiava e que eram sons da garganta. A cadela parou de correr. Aproximou-se devagar porque o mudo estava deitado no chão. Estava morto. Do seu corpo estendido, escorria sangue grosso, como uma garrafa entornada sobre a mesa, como uma nascente. As navalhadas atravessavam-lhe a camisa. Havia pedaços do tecido da camisa que entravam dentro desses buracos de sangue grosso. A cadela aproximou-se mais devagar quando já não podia fazer nada. O mudo estava morto. A cadela parou-se aos seus pés. Tinha os olhos pesados. Pousou o focinho sobre as botas do mudo. E levantou a cabeça quando quis olhar para o seu rosto morto.

      Ouvi tanto esta história que, de cada vez que a conto, tenho sempre a sensação de que repito cada uma das palavras que a velha Estrudes me contava. A velha Estrudes chamava-se Gertrudes. Vivia perto da minha casa e as pessoas diziam que já não tinha o juízo todo. Mas não fazia mal a ninguém. Lembro-me de quando ela ia à venda. Eu e os outros rapazes estávamos a jogar à bola e parávamos quando ela passava. Quando regressava, parávamos de novo. Não foram poucas as vezes em que ela, depois de passar por nós, pousou a alcofa que tilintava de garrafas sob um pano da loiça, abriu as pernas um bocado, subiu a saia até ao joelho e urinou na rua. Nesses fins de tarde, ficávamos com a bola debaixo do braço a ver a urina que descia pela regadeira. Esperávamos que passasse pela baliza do fundo, duas pedras, e continuávamos a jogar à bola. Lembro-me também de quando ia a casa dela. A porta estava sempre aberta. Eu entrava e ela não se assustava. Parecia que estava à minha espera. Começava a falar com conversas a meio, como se já estivesse a falar para mim antes de eu chegar. Eu tinha doze anos. Ela contava histórias. Uma que ela gostava de contar, enquanto fazia o comer, enquanto misturava feijões e couves na panela, era a história de como o mudo se transformou numa flor sobre o seu próprio caixão.

      Eu cheguei a conhecer o mudo. Ainda não andava na escola. Não sei se já tinha cinco anos. Subia e descia o muro do quintal. As minhas mãos cabiam nos buracos pequenos do muro. Os meus pés cabiam nas curvas ténues da cal. Quando o mudo passava, todo vestido de preto, com a barba muito comprida, seguido pela cadela, eu tinha medo e não trepava o muro de volta. Abria a porta e fugia para dentro de casa. Quando estava na rua com a minha mãe, escondia-me atrás das suas pernas. Tinha medo do mudo. Todas as crianças da minha idade tinham medo dele. Nessa altura, eu não sabia que a história do mudo começava aí. Quando subia a minha rua, vestido de preto, com a barba muito comprida, seguido pela cadela, o mudo ia para a casa de uma mulher casada. A velha Estrudes, na sombra da sua cozinha, contava-me que o mudo e a mulher eram felizes no seu segredo. Algumas semanas. Como todos os segredos que existiam na minha vila, também esse não durou muito tempo. Quando alguém suspeitou, quando alguém imaginou que podia ser possível, quando alguém se lembrou que podia ser algo que acontecia, as pessoas falaram disso durante dois dias seguidos. Depois, sem que nunca ninguém tivesse visto o mudo entrar na casa da mulher, sem que nunca ninguém os tivesse visto juntos, toda a gente deu por assente que o mudo e a mulher eram amigos. Quando o marido se aproximava, as pessoas mudavam de conversa. Depois de toda a gente saber, depois dos pastores que só tornavam à vila uma vez por semana saberem, também o marido soube. Ninguém lhe disse. Soube, porque alguém lhe falou que havia um homem que tinha uma mulher que tinha um amigo. Soube porque os outros homens olharam para ele e houve um que disse pois é, há por aí um homem que tem uma mulher que tem um amigo. Esse homem não sabia que a mulher tinha um amigo. Esse amigo era o mudo. Nessa noite, o marido estava a jogar às cartas e perdeu. Saiu da taberna e foi para casa devagar. Foi pelas ruas mais escuras.

      Não passaram muitos dias, mas passaram tranquilamente. O marido marcou um encontro com o mudo na herdade onde trabalhava. O mudo, seguido pela cadela, fez o caminho sempre convencido de que lhe queria oferecer trabalho. Foi disso que falaram, debaixo de uma azinheira fina e torta. A cadela estava longe porque, sob a voz calma e distante do marido, perseguia gafanhotos pequenos que saltavam entre as ervas e os cardos. Foi de repente que o homem tirou uma navalha aberta do bolso e começou a espetá-la no mudo. A cadela correu, correu e o mudo, morto, ficou deitado no chão. A cadela não pôde fazer nada. Ficou triste. O homem abriu uma cova no chão e enterrou o mudo. Era novembro e, nessa tarde, choveu sobre a terra.

      Quando o mudo desapareceu, as pessoas da vila falaram sobre isso durante dois dias seguidos. Depois, tomou-se por assente que o mudo tinha desaparecido. A mulher encontrou uma angústia. O marido via-a sem ânimo e não dizia nada. Houve homens que procuraram o mudo. Mas ninguém o procurou com vontade, porque chovia muito e porque o mudo já não tinha família. A única pessoa que sentiu mesmo a sua falta, a mulher, não podia ir procurá-lo. Às vezes, à tarde, sentava-se ao lume e julgava ouvir a porta a abrir-se. Crescia dentro de si a esperança, voltava-se para ver, e era o vento ou era os barulhos que a madeira faz sozinha quando é velha. Houve homens que desconfiaram que podia ter sido o marido. Alguns perguntaram-lhe se tinha visto o mudo. Ele nunca respondia.

      Quando chegou março, nasceram flores nos campos. Debaixo da azinheira nasceu uma única flor. Era uma flor bravia. As raízes dessa flor entravam dentro do corpo do mudo. Aquilo que tinha sido a vida do mudo entrava por essas raízes e corria dentro dessa flor. Ninguém sabia, mas o mudo era essa flor. Continuava mudo. As suas roupas pretas, apodrecidas debaixo da terra, eram pétalas brancas. Os fios da sua barba, misturados com a terra, eram pétalas brancas. A cadela, sem saber que ele era uma flor, continuava perdida pelas ruas da vila. Foi a cadela, num dos dias em que se deitou debaixo da azinheira, ao lado da flor, que fez com que um pastor descobrisse o corpo do mudo. Três homens revolveram a terra e descobriu-se o mistério do seu desaparecimento. Andaram duas mulheres a pedir de porta em porta para o enterro do mudo. Quando chegaram à porta da mulher, quando disseram andamos a pedir para o enterro do mudo, os olhos da mulher tornaram-se mais escuros. Era impossível distinguir o fundo na água daqueles poços negros. Na venda, houve três homens que perguntaram ao marido se sabia do mudo. Quando virou a cara, os homens agarraram-no e entregaram-no aos guardas. Foi preso no forte de uma cidade e nunca mais voltou à vila. Na madrugada do enterro, a mulher saiu de casa, vestida de preto. E fez o caminho até à herdade. Ficou em silêncio. As suas mãos, os seus dedos, aproximaram-se do monte de terra que estava ao lado da cova. As suas mãos, os seus dedos, agarraram o caule fino da flor e foi-se embora. As poucas pessoas que estavam no enterro do mudo, ficaram admiradas quando viram a mulher entrar no cemitério. As pessoas murmuraram palavras por cima dos ombros. A mulher, sozinha, estendeu a mão, os dedos, e pousou a flor sobre o caixão.

      Neste ponto, a velha Estrudes não contava mais. Ficava em silêncio e, com um garfo, esmagava as batatas cozidas dentro da panela. Era também neste ponto que eu, muitas vezes, saía para a rua e ia jogar à bola. Só muito mais tarde, passados muitos anos, soube que a mulher que amara tanto o mudo era a velha Estrudes, quando ainda não era tão velha, quando as pessoas não diziam ainda que tinha perdido o juízo.

JOSÉ LUÍS PEIXOTO nasceu em 1974 em Galveias, concelho de Ponte de Sor. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, foi professor do ensino secundário e é colaborador regular de vários jornais e revistas. Em 2000, publicou a ficção Morreste-me e, logo a seguir, o romance Nenhum Olhar, que fez agitar o panorama literário português e foi finalista dos prémios da APE e do PEN Clube, acabando por ganhar o Prémio José Saramago. O livro de poesia A Criança em Ruínas, lançado em 2001 e com edições sucessivas, constituiu um novo êxito de público e de crítica. Já em 2002 publicou Uma Casa na Escuridão e A Casa, a Escuridão, romance e poemas sobre o mesmo universo. Em 2003, numa iniciativa inédita, publicou o livro "Antídoto", que foi acompanhado do disco "Antidote" num projecto conjunto com grupo musical "Moonspell". A sua obra está já traduzida em nove línguas e em negociação para várias outras. Em 2002 foi o primeiro autor português convidado para a residência de escritores Ledig House em Nova Iorque, encontrando-se já a preparar o seu terceiro romance.