Bilhete de avião para o Brasil

     Desde que comecei a sair com o pai da Susana e a encontrar-me com ele no apartamento que um amigo lhe empresta, no Estoril, comecei a escutar às portas. Julguei que ia ouvir falar de mim, queria saber se a minha mãe tinha alguma suspeita.

     Concluí que ela não sabia de nada, porque falava de outras coisas. Escutei sem querer, mas não era de mim que ela falava, era dela mesma, quando tomava chá na cozinha com Ivone. E Ivone também falava de si própria, de modo que fiquei a saber alguns segredos das duas criaturas.

     Ambas me parecem dignas de lástima, cada uma a seu modo. A minha mãe nunca ultrapassou o desgosto de o meu pai a ter deixado, muitos anos atrás. Sempre esperei que ela encontrasse outro homem. Afinal era bonita, e ainda nova. Mas o tempo foi passando, e agora também me parece demasiado tarde. No entanto a culpa foi toda dela.

     Bem lhe dizia eu que deixasse de pensar nele. Olha mãe, a mim ele não me faz falta nenhuma, disse-lhe vezes sem conta. Quero lá saber que se tenha ido embora. Devias fazer como eu, seguir a tua vida e esquecer que ele existe. Parte para outra. Não é o que faz a maioria das mulheres da tua idade? Estão todas divorciadas e procuram outro rumo. Recomeçam, não é? Pois faz o mesmo. Não me fales mais dele.

     Escondi os retratos na gaveta, e deitei fora alguns. Só não deitei todos, porque tive medo de que ela se zangasse. Mas não iam fazer falta, pensei enquanto os rasgava em pedacinhos e deitava no balde do lixo.

     Ele era lixo, o meu pai. Que se danasse. Fosse para o inferno, desaparecesse bem longe, nas profundezas do Brasil, para onde tinha ido com a outra. Pois que vão e não voltem, a mim que se me dá.

     Na minha vida ele não tinha mais lugar. Se me perguntavam pelo meu pai, dizia com toda a calma que estava no Brasil, que ele e a minha mãe se tinham separado. Ponto final no assunto. Quando alguma espevitada queria saber se ele tinha outra mulher, eu atirava logo: como queres que eu saiba, lá no Brasil? É natural que sim, e então? Cá por mim, ele pode fazer o que quiser, ora essa. E se insistiam se tinha outros filhos eu arrumava o assunto: que me conste não, pelo menos ele nunca falou disso nas cartas.

     Claro que nunca houve cartas, nunca houve mais nada. Tudo acabou ali, com ele a sair de casa. E foi melhor assim.

     Mas, se não me perguntassem directamente, eu não falava da minha vida, porque era dar parte de fraqueza, e ninguém tinha nada com isso.

     Aos poucos, as perguntas foram diminuindo, desaparecendo. Afinal, as pessoas tinham mais em que pensar. Passei a sentir-me cada vez mais eu própria, Matilde, no meio dos outros, sem vergonha de nada. Deixaram de me vir à cabeça as coisas que no início me ocorriam. Por exemplo que um dia seria rica e admirada, casaria com um homem importante, iria viajar ao Brasil e encontraria o meu pai.

     Imaginava muitas vezes esse encontro. O meu pai não me iria reconhecer, porque eu teria, evidentemente, mudado muito, era eu que o identificava. Dizia-lhe quem era, mas no minuto seguinte despedia?me, sem querer saber de mais nada. Dava-me a conhecer só para ele medir a imensa distância que haveria entre nós: o meu pai estaria envelhecido e cansado, talvez até sozinho. Sempre pensei que a história com a outra podia até nem dar certo. Quem sabe se o Brasil não teria sido para ele uma desilusão. Provavelmente, as coisas não tinham corrido como ele pensava. Poderia ter-nos deixado, para nada.

     Mas eu, estava na cara que iria ser alguém. Para já era a mais bonita e a mais inteligente da turma. Nem precisava de estudar grande coisa para ter as melhores notas. Sem grande esforço, tudo vinha ter comigo. Portanto eu dava a volta por cima e saía vencedora.

     Ao contrário da minha mãe, que tinha ficado presa ao passado. Foi também o que a ouvi contar à Ivone:

     Quando não aguentava a tristeza ia até à Cooperativa Militar. Andava ao acaso por aquelas salas meio vazias, por aquele palacete decadente, onde o chão rangia e não havia nada de interessante para ver nem comprar, parava diante das vitrinas, sem reparar em nada, deixando-se apenas invadir por aquela atmosfera dormente, de outra época, subia e descia de um andar a outro, evitava em geral a mercearia, tomava um café atravessando um corredor onde velhos dormitavam em sofás desbotados, ou fingiam ler um jornal com vários dias. Voltava finalmente à perfumaria, descendo a escada (não confiava no elevador, demasiado estreito e antiquado), comprava um creme para as mãos ou um dentífrico, e ao pagar na caixa dizia o nome do meu pai: sócio doze mil quatrocentos e cinquenta e sete. José Fernandes.

     E era como se o tempo não tivesse passado, disse ela à Ivone. Como se ele ainda lá estivesse, quando ela voltasse para casa.

     Ivone tinha também um lugar secreto, para quando se sentia mais só: Entrava na Kodak e conversava sobre fotografias. O dono da loja era um homem simpático, bom conversador, muito afável. Com sentido de humor. Ela levava-lhe sempre os rolos para revelar, e depois escolhiam ambos as melhores fotos, para ampliar ou reproduzir. Ele gostava de dar uma opinião, mesmo que ela a não pedisse: iluminava uma caixa de vidro, em cima do balcão, onde punha os negativos, e fazia comentários ao trabalho dela. E era como se fizessem um trabalho conjunto, algo importante, grande reportagem, artigo de jornal ou algo assim. Era pelo menos o que ela sentia. Ele era sempre encorajador e caloroso. No fundo era para conversar com ele que ela tirava tantas fotos. Tinha consciência disso.

     Ir para a cama com ele? Quis saber a minha mãe. Não, não pensava nele nessa perspectiva. Bastava-lhe muito menos, alguns minutos de conversa e era tudo.

     Aí a minha mãe repetia-lhe o que, durante anos, me ouviu dizer a mim. Devia procurar outro homem, fazer novos amigos, sair ao fim-de-semana. Ou mesmo mudar de emprego, para conhecer outras pessoas.

     Não pude impedir-me de sorrir, atrás da porta. Aprendera bem a lição que eu lhe tinha ensinado, a minha mãe. Só que a Ivone não a ouvia, como a minha mãe não me ouvira a mim. Os melhores conselhos caíam portanto sempre em saco roto? interroguei-me.

     A Ivone sorveu outro gole de chá. Não esperava nada da vida, contentava-se com coisas mínimas, e era assim que se mantinha à superfície. Como alguém em risco de afogar-se se agarra a qualquer palha. Disse ela.

     Mas em todo o caso, disse a minha mãe, era melhor assim do que ser como a Maria Ema e a Eduarda, sempre à espera de uma aventura, que nunca acontecia, e tomando por declarações de amor o menor galanteio de um homem. Patéticas. Ou como a Patrícia, que corria do psiquiatra para o psicólogo, e do psicólogo para o vidente -

     Não quis ouvir mais nada e fugi para o meu quarto, como se uma coisa má me perseguisse. Na verdade eram dignas de lástima, mas o que senti foi repulsa. Vi?as, num relance, como bruxas más, que podiam contaminar-me por proximidade ou por contacto. De repente tive medo de ficar como elas. Medo de que me agarrassem e obrigassem a sentar a seu lado.

     Fechei a porta à chave, com o coração a bater. Nunca iria confiar na minha mãe, decidi. Se ela descobrisse e se voltasse contra mim, sairia de casa. Iria ter com o Gonçalo, e ele acharia um modo de resolver as coisas. Tudo menos confiar na minha mãe e deixar-me apanhar.

     Era então assim que viviam as mulheres maduras e sozinhas - tentando tudo para preencher o vazio, e nunca o preenchendo - ikebana, massagista, acupunctura, natação, karaté, cabeleireiro, aeróbica, dança jazz, macramé, ponto de cruz, maquilhadora, caminhadas a pé, quermesses, reuniões de caridade, cinemas, sapatarias, lojas de roupa, infindáveis sucessões de lojas de roupa -

     Morreriam de inveja de mim, se soubessem. Dariam tudo pelo amor de um homem, e não iriam encontrá?lo nunca.

     E por isso se uma mulher era jovem, bela e rebelde como eu, amava um homem e corria para os seus braços, era preciso de algum modo vingarem-se. Baterem?lhe, quem sabe, insultá-la, pregar-lhe moral, (ah, as lições de moral, as prelecções sobre o amor proibido), o bom senso (ah, já faltava o bom senso, ele era casado etc., não se iria divorciar, eu seria sempre a outra, e onde estava o futuro desse amor) - sempre a pensarem em futuro, porque elas não tinham futuro, nem sequer presente, não tinham nada e precisavam de vingar-se de quem tinha tudo.

     Eu tinha o que elas desejavam, um homem amado à minha espera e era preciso castigar-me, matar-me, por isso. Eu tinha uma vida intensa e deslumbrante e não precisava de psiquiatra, psicólogo, vidente, cartomante, astrólogo nem o demónio que as levasse. Não precisava de nada, a não ser do Gonçalo.

     Liguei-lhe para o telemóvel, porque precisava de ouvi-lo, de o sentir perto, para esquecer tudo o que tinha ouvido atrás da porta.

     - Meu amor, disse-lhe baixo, e a minha voz não tremia.

     Ele respondeu, de Nova Iorque. Por detrás das palavras, chegavam até mim claxons de ambulâncias, o trânsito de Nova Iorque.

     Não iria contar-lhe nada de especial, a sua voz bastava para apagar as vozes da minha mãe e de Ivone. A presença dele, mesmo através do fio, afastava-as, para longe.

     - Até depois de amanhã, dissemos.
     - Adoro-te.
     - Adoro-te.

     Depois de amanhã correria para os seus braços, enterraria a cabeça no seu ombro, sentiria o cheiro forte do fumo do Mayflower, e ele abraçar-me-ia com força, antes de começar a despir-me, e passaria a mão sobre os meus cabelos desmanchados.

     Bilhete de identidade de Gonçalo: quarenta e dois anos, natural de Lisboa, freguesia de São Sebastião da Pedreira, casado, piloto da TAP. E pai da minha melhor amiga, Susana.

     E o melhor amante do mundo. Meu amante.

     Às vezes ainda sorrio, de surpresa. Foi tudo surpreendente, inesperado. Outras vezes não me parece possível, como se fosse sonho, ou imaginação. Mas é real.

     Comecei a ir estudar para casa da Susana. Foi ela que me pediu, não percebia nada de matemática. Eu tinha tido a melhor nota, repetia com ela a matéria, fazíamos os trabalhos juntas.

     A maior parte das vezes o Gonçalo não estava - telefonava de vários lugares do mundo, Europa, África, América do Norte ou do Sul.

     A princípio pensei que ele também era um pai ausente e não fazia, no fundo, muita diferença do meu. Mas depois ele chegava, enchia a casa com a sua presença e esquecíamos tudo, era como se ele não tivesse partido, o fio interrompido do tempo colava?se de novo, reforçado. Ele parecia também consciente disso, procurava compensar-nos do tempo que estivera fora trazendo pequenos presentes, objectos exóticos, postais, fotografias, contando o que entretanto se passara, como se procurasse preencher o intervalo.

     Eu sentia-me incluída nessa relação. Como se fosse irmã da Susana, pensava às vezes. Também eu filha da mãe dela, que era alta e loura e se chamava Alice.

     Foi depois que tudo mudou. De repente.

     Às vezes o Gonçalo ia buscar-nos ao liceu, o que era sempre uma surpresa agradável, sobretudo quando chovia e não tínhamos levado guarda-chuva. Deixava?me sempre primeiro em casa, excepto um dia em que deixou primeiro a Susana - ia ao Jockey Club, explicou, a minha rua ficava no caminho.

     Casualmente, acabei por ir com ele, ver os cavalos. Eu nunca tinha entrado no Jockey Club, nem sabia que ele gostava de montar. Havia muitas coisas que eu não sabia sobre ele, pensei quando o vi falar com o tratador e fazer festas ao cavalo, que estendia o pescoço para fora da box.

     No regresso atravessámos o Monsanto. Chovia cada vez mais e a certa altura ele parou o carro debaixo das árvores, numa reentrância da estrada. Era perigoso conduzir com aquela chuva, que não deixava ver o caminho. Valia mais esperar um pouco.

     Pôs a mão no meu joelho e depois abraçou-me. Não reagi nem consegui articular palavra - estava ao mesmo tempo surpreendida e deslumbrada. Ao primeiro beijo percebi que o mundo tinha mudado. Definitivamente.

     Ele foi muito terno comigo, quis saber o que eu pensava, mas eu não pensava nada. O mundo tinha mudado, era agora outro, e eu ainda não sabia como andar no meio dele.

     Mas aos poucos fui sabendo. Deixava-me ir, ao sabor de uma corrente - deixava-me levar, como se dançasse. Bastava não pensar, fechar os olhos e seguir a música - e não havia nenhuma hipótese de falhar o compasso. Tudo estava certo, e era bom. Não posso ser mais feliz, dizia-lhe - continuo a dizer-lhe, desde o primeiro dia e até hoje. Não posso ser mais feliz.

     Ele é tudo o que eu quero nesta vida. Porque ele me dá tudo - sexo, ternura, amor, compreensão, a sensação de partilha.

     Gosto de tudo, nele - da experiência dos anos, de saber que ele viveu muita coisa até chegar a mim e parar em mim, gosto do seu rosto com rugas, do seu corpo bronzeado pelo sol dos trópicos, dos cabelos que embranquecem acima das sobrancelhas. Não me interessam os rapazes da minha idade, que não viveram nada, não sabem nada do mundo e da vida e me arrastam para estúpidas discotecas onde nem gritando conseguimos ouvir duas palavras. Aliás, não teríamos nada a dizer, os rapazes da minha idade não têm nada a dizer. Sou mais madura e mais adulta e também mais inteligente do que eles.

     Nenhum me interessa, respondo se o Gonçalo me pergunta. És tu que eu quero, não duvides disso. De poucas coisas tenho tanta certeza.

     Falamos muito na cama, depois do amor. O que vivemos só a nós diz respeito, e a mais ninguém. É uma espécie de dádiva dos deuses - há uma porta que se abre, num andar do Estoril, e dá directamente para o céu.

     O céu não tem a ver com o mundo real. É um lugar onde estamos sós e onde não existe a minha mãe, nem a Susana, nem Alice, mulher do Gonçalo. Não existe o tempo nem o pensamento, nem a voz da minha mãe e de Ivone.

     É só depois, na minha cabeça, que por vezes, sobretudo de noite, ouço vozes. Que poderiam ser das vizinhas, dos transeuntes, dos professores, dos colegas do liceu, dos pais deles, vozes anónimas do senso comum e do medo. Do meu medo.

     Vozes, figuras e cenas. Por exemplo assim:

     Fazemos amor, na cama do Estoril, quando alguém mete a chave na fechadura, entra no quarto e nos surpreende. Vejo o rosto que nos olha, no primeiro instante quase com pavor: não é o amigo do Gonçalo, dono do apartamento, mas Alice.

     A sensação desconfortável de trair Susana e Alice. De lhes entrar em casa, e roubar. Fingindo ser amiga da Susana. Porque agora de algum modo finjo - continuo sua amiga, mas finjo que continuo a ser a mesma, e já não sou.

     Pesadelos, em algumas noites. De uma vez havia um pássaro que apanhava uma janela aberta, entrava numa casa e roubava um dedal de prata. Não era a minha casa, era outra, desconhecida. Mas o pássaro era muito visível no sonho - relativamente grande, com penas cinzentas, pretas e algumas brancas, tinha um voo rasante, de veludo, e era irresistivelmente atraído por objectos brilhantes, de metal. No sonho eu não sabia o seu nome, nem reconhecia a casa.

     Foi muito tempo depois que de repente me ocorreu: era a casa da Susana, a da janela aberta.

     E como se chamava o pássaro? Como se chamava?

     Sim, eu sabia, tudo tinha ficado subitamente muito nítido: o pássaro era uma pêga.

     Agora não tenho amigos, porque não posso confiar em ninguém. Não posso falar com ninguém da minha vida.

     Quando lhe digo coisas destas, o Gonçalo consola?me como se eu fosse uma criança. A felicidade é assim, diz ele. Não se pode pensar demasiado.

     Tento ser como ele, que conhece a vida. Não pensar. A felicidade é frágil como uma borboleta. Não se pode tocar-lhe.

     E é também uma coisa sem tempo. Percebo que não posso pensar no que acontece amanhã. Amanhã o Gonçalo envelheceu, cansou-se de mim, esqueceu?me, recuperou o dia-a-dia, voltou a tempo inteiro para casa. Ou eu cansei-me de esperá-lo, de separar-me dele constantemente, de estar sozinha, de me sentir culpada. Amanhã o amor acaba.

     Mas amanhã não existe, e o nosso amor nunca acaba. Nunca, dizemos abraçados, rolando nos lençóis. Nunca.

     Depois ele é muito terno, e procura dar resposta ao meu medo. Trocamos o apartamento por hoteis, sempre diferentes, para diminuir o risco de alguém nos encontrar, outras vezes ele arranja modo de me meter no mesmo avião que ele conduz e fazemos uma escapada ao Funchal, a Madrid ou ao Algarve. O fim?de?semana, apenas o fim-de-semana. Digo sempre à minha mãe que vou à quinta de uma amiga, e invento um nome que ela não conhece.

     Adoro essas escapadas - ele leva-me pelos ares, voando, à descoberta do mundo, leva-me consigo, sobre as nuvens -

     A próxima escapada é ao Brasil. Disse-me ontem, e deu-me de surpresa um bilhete de avião. Partimos na quinta?feira e voltamos oito dias depois. Vamos ver o Rio de Janeiro, Angra dos Reis, apanhar sol em Búzios. Só tenho de inventar uma boa história para dizer à minha mãe e à Susana. Ou duas histórias, mas que não colidam, se a minha mãe por acaso encontrar a Susana. Também isso me ocorre - que a minha mãe encontra a Susana e se põem a conversar sobre mim e inesperadamente alguma coisa sobe à superfície e transborda.

     Às vezes volto-me na cama, sufocada, e sinto a minha mãe lutando contra mim. Grito-lhe que me deixe em paz e fique com o fantasma do meu pai - porque ela não tem mais nada, a não ser aquele cartão desbotado de quando ele era oficial miliciano e se fez sócio doze mil quatrocentos e cinquenta e sete da Cooperativa Militar.

     Vá-se embora, grito no sonho, fique no meio daquelas salas mortas, mas deixe-me viver a minha vida, porque eu estou viva -

     (Rio de Janeiro, Angra dos Reis, apanhar sol em Búzios)

     Derrubo a minha mãe, que tenta agarrar-se a mim e prender-me, pego na mala e corro, ela está morta mas eu estou viva, e vou voar para o Brasil com o homem que eu amo.

     (Rio de Janeiro, Angra dos Reis, apanhar sol em Búzios)

     Ouço os meus passos a correr na escada.


TEOLINDA GERSÃO nasceu em Coimbra, estudou Germanística e Anglística nas Universidades de Coimbra,Tuebingen e Berlim,foi Leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim, docente na Faculdade de Letras de Lisboa e posteriormente professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa,onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada até 1995.A partir dessa data passou a dedicar-se exclusivamente à literatura.
Além da permanência de três anos na Alemanha viveu dois anos em São Paulo, Brasil, (reflexos dessa estada surgem em alguns textos de Os Guarda-Chuvas Cintilantes,1984), e conheceu Moçambique, cuja capital, então Lourenço Marques,é o lugar onde decorre o romance de 1997 A Árvore das Palavras.
Escritora residente na Universidade de Berkeley em Fevereiro e Março de 2004.