
Ilustração: John Sokol |
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A Arte da Guerra
(para Marçal Aquino)
É assim: enfie a faca sempre abaixo do peito,
três ou quatro dedos abaixo do centro. É nesse ponto que fica o
diafragma. É o ponto mais macio dessa área, porque não tem osso. Enfiar
um objeto perfurocortante no peito de alguém é algo que só pode fazer
quem tem muita força no braço, senão corre o risco da faca ficar presa
no esterno, e pra tirar não é fácil. Mesma coisa nas laterais. Acontece
muito com baionetas. Se você enfia a baioneta no flanco de um sujeito,
tem que ser abaixo das costelas, na região dos rins. Caso contrário, a
ponta fica presa na carcaça do morto e você tem duas opções: ou deixa a
arma onde está e corre o risco de uma corte marcial por deserção ou
comportamento covarde em batalha - faziam isso muito na França, na época
da Primeira Guerra - ou se arrisca a retirar à força e morrer tentando,
porque logo vem um compatriota do cadáver e enfia a baioneta nas suas
costelas. E aí começa tudo de novo.
Entendeu? Enfie a faca sempre, mas sempre abaixo do peito. O sujeito vai
sofrer, e não vai morrer na hora. Mas sem ar ele não tem força, e vai
ficar incapacitado. Aí é só terminar o serviço com calma. E limpeza, que
é fundamental.
Entendeu tudo mesmo? Então pode ir. E não me volte aqui sem a cabeça
daquele filho da puta.
FÁBIO FERNANDES tem 38 anos, é carioca e mora em São Paulo.
Jornalista, tradutor e dramaturgo. Duas peças encenadas, uma delas
premiada (Vestidos Brancos, direção de Luiz Armando Queiroz, Prêmio Frei
João de Sant’Ângela de Dramaturgia - Universidade Federal de Alagoas).
Um livro de contos publicado (Interface com o Vampiro, editora Writers,
2000), e outro para sair (Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa).
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, prepara atualmente uma
nova tradução do clássico Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (ed.
Aleph). Está terminando de escrever seu primeiro romance.
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