Ilustração: Joaquim Torres-Garcia

Adoración

        José Jacinto, numa volta, indo para Corrales desde o arroio Verde, tomou o carro-motor em Zapicán ou Retamosa (não se lembra bem); quando viu estava metido no meio de gente de uma Companhia – esses tipos que saem de Montevidéu fazendo atos variados, cantorias, danças, mágicas. Eram como uma dúzia, entre homens e mulheres, apatronados por um velhote amaricado.

        Como sempre, ao se aproximar de Treinta y Tres o carro-motor vinha se enchendo: gente por todo o lado, numa barafunda danada. José Jacinto deambulava pelo corredor com uma maleta na mão e, diante dos quatro últimos bancos (dois de cada lado, virados um para o outro), viu que já não lhe restava lugar: ali as pessoas estavam a três onde dava para duas, embora continuassem parloteando e se mofando de tudo.

        – Arrime-se a los buenos! – disse-lhe um homem de cavanhaque vermelho, com cara de bode. E se levantou. José Jacinto não entendeu por que haveria aquele de ceder-lhe o lugar: ficou quieto, de pé. O de cavanhaque, entretanto, fez questão que ele sentasse e só depois, amparado no encosto do banco, explicou que vinham da capital bem aboletados até que em Nico Pérez haviam perdido assento, ficando todos naquele aperto; mas que, por ora, preferia viajar um pouco de pé, para esticar as pernas.

        Sentado, encolhendo-se um pouco para não se encostar no velhote ao seu lado, que apertava contra a janela um gordo dormindo, José Jacinto desconfiou que as três mulheres em frente estavam rindo dele. Bem adiante uma ruiva; no meio uma de dente de ouro; depois outra, clara e feia. Entre eles, a mesa abatível com naipes de jogar. As três mulheres aos murmúrios e codeios, se rindo. Do outro lado do corredor, os bancos cheios com o resto da troupe jogando truco. José Jacinto preferiu não mirar para as mulheres, fingindo que acompanhava o jogo enquanto lhe subia um rubor pela cara.

        Fazendo que olhava o jogo, José Jacinto enxergava o rosto colorido da ruiva, uma ruiva que só havia visto antes em capa de revista, com seu cabelo vermelho cheio de bucles, as faces pintadas, o nariz empoado. A ruiva sorria a dentes inteiros na boca marcada de baton. Tinha os seios apertados num corpete, mas era como se eles palpitassem para se desprender e se arrojar dali. Era uma verdadeira rainha vestida com luxo, brincos nas orelhas, colares, pulseiras, anéis, e abanico na mão de unhas escarlates.

        Ao lado de José Jacinto, o homem com cara de bode palmeou-lhe o ombro e foi falando: disse quem eram todos, o que fazia e como se chamava cada um; que vinham de Montevidéu e iam ao Brasil por Jaguarão – um só espetáculo haveria em Jaguarão, depois seguiam viagem rumo a São Paulo e Rio...

        Agoniado com aquela mão no ombro, com cada palavra que lhe dirigia o tipo em pé ao seu lado, José Jacinto não entendia por que todos tinham que rir tanto cada vez que o nome de cada um era dito, por que todos se morriam de rir de cada patranha ou morisqueta que eles mesmos faziam. Eles se chamavam Juan, el Diablo – e don Wilson, don Nicolá, Antonini, aliás Alzueta, e Maria isso, Maria aquilo, los Rivero, Ballesté ou Melgar, Diva, Mirta... Juan animava o grupo mas também era músico, equilibrista e acrobata; don Wilson era o maestro e diretor; havia o cômico, os que falavam sem abrir a boca, o casal de dançarinos, os atores, o mago e sua ajudanta, os cantores, os componentes da típica. Ao todo, como vinte nomes para uma escassa dúzia de homens e mulheres divertidos.

        A feia, na janela, essa era simplesmente a mulher do mágico. A do meio, com seu dente de ouro, dançava, cantava e tocava. E, encarando José Jacinto, trazendo-lhe de olho entre a burla e a broma, a ruiva! – a ruiva de brincos, colares, pulseiras e anéis; a ruiva de cabelo vermelho e bucles; a ruiva de seios apertados; a ruiva, enfim, que era cantante e atriz da Companhia – a ruiva de nome Adoración!

        Adoración!

        José Jacinto não conseguia sustentar a mirada de Adoración. Ela firmava os grandes olhos nele e ele tinha que desviar, tinha que baixar os seus. Ela ria, ria, ria de tudo: do mágico, que tirou o bigode e foi apresentado como cantor de tangos; dos anadeios e diabruras que Juan, o do cavanhaque, fazia no corredor; e da dameria de maestro do velhote ali ao lado.

        Adoración ria, ria...

        Perguntaram coisas a José Jacinto e José Jacinto não sabe como falou nem o que disse, mas foi falando, falando, tartamudeando entre os gritos e as gargalhadas, esfregando as mãos de nervoso e sem a mínima coragem de levantar as vistas da mesa.

        Adoración.

        Que nome: Adoración!

        Aquilo era um desenfreio. Já nem desconfiava que estavam rindo dele, preferindo envolver-se por inteiro na farra, confuso e aturdido como um bêbado fingindo-se de sóbrio. Sério, sem ao menos sorrir, sentia-se feliz lançado para lá e para cá, no balanço do carro-motor, sentado firme diante da ruiva Adoración.

        Adoración de vez em quando fazia um jeito com a boca e produzia um ruído à semelhança de um beijo. José Jacinto já não podia ver aquele besuqueio, fazendo que não via. E ela, lhana e singela, com a maior naturalidade, sem tirar-lhe os olhos. Era demais, era brabo, era muito mau, era bom demais!

        Era mui malo, mui bueno; mui malo, mui bueno; mui bueno, mui bueno! Mui bueno!

        No seu balanço, no seu tlaquetlaque, o carro-motor acabou chegando a Corrales ( – Parada em José Pedro Varela! – anunciaram). Era mui malo, mui malo, mui malo... Mui malo.

        Que nome: Adoración! Que olhos, que cara, que boca, que dentes, que seios, que mulher! Com brincos, colares, pulseiras, essas coisas. Mulher de cidade, artista, atriz da capital, cantante ruiva de cabelos vermelhos com bucles. Capa de revista. A mulher mais linda como jamais tinha visto antes, mulher de grandes unhas pintadas, mulher de abanico, mulher de sustentar a mirada de um homem!

        – José Pedro Varela!

        José Jacinto aprumou-se, disse que ali se apeava. Deram-lhe a maleta, levantou-se, e se despediu desejando boa viagem para todos. Mas não teve forças para se virar e dar com os olhos de Adoración. Baixou rápido, mal o carro-motor havia parado.

        José Jacinto não se voltou. Caminhou pela plataforma cheia de gente e se dirigiu à porta mais próxima, sem ver ninguém. Tinha nas vistas, ainda, os olhos, a boca, os dentes, a cara, os seios, os beijos de Adoración. Mas não se voltou. José Jacinto não se voltou.

        O carro-motor ficou muito tempo na estação. Saíram todos que terminavam ali a viagem; entraram todos que iam adiante. Fora, ficaram apenas alguns guris magros com cestos nos braços, e funcionários fardados do ferrocarril; dentro, os passageiros foram se arranjando como podiam.

        José Jacinto, sempre que via passar ônibus, trem ou carro-motor, dava para cuidar quem viajava. Ou então, se era ele que viajava, dependurava-se na janela a ver de passada as pessoas que ficavam. Se alguém abanava, se uma mulher, uma menina se virava, José Jacinto guardava aquela estampa viva na retina, imaginando coisas boas que jamais faria. Era lindo de figurar. Passava tempo e ele não esquecia. Sonhava com ranchos de beira de estrada, com gurias debruçadas numa cerca, com as que lhe davam adeus, com as que somente ficavam paradas por trás dos vidros olhando longe as distâncias dos campos.

        A cavalo, José Jacinto não se voltava (era diferente; mas nem ele mesmo sabia por quê). A cavalo, José Jacinto estava sempre só, sempre com pressa, querendo chegar, querendo ir embora. Não tinha tempo nem sentido para ver direito quem andava em volta. A lo largo não diferenciava as caras, fosse quem fosse, fosse aonde fosse; não fazia muitos amigos, tinha poucos conhecidos, só falava quando lhe falavam.

        No carro-motor, ao contrário, estava-se como numa cidade, cercado de gente. Havia gente de toda a laia – tipos sujos, tipos limpos; gente pobre, gente rica; mas ficavam todos tão perto uns dos outros, se cumprimentando, se falando, trocando fiambres, que não havia como estar quieto num canto. Depois, andava-se tão depressa, mesmo sentado num banco ao revés, que havia tempo, que havia tempo de sobra. Um podia sair e chegar sem se preocupar com nada.

        Quando o carro-motor saiu de José Pedro Varela, todos os artistas da Companhia se haviam acomodado confortavelmente nos seis últimos bancos do fundo. Adoración permanecia em seu lugar, do lado do corredor. Alguém tocava uma guitarra e cantava.

        Ao se aproximar o carro-motor de Treinta y Tres, muitos da troupe já dormiam. Paco estava outra vez de pé, para esticar as pernas. Adoración retocava a pintura com um estojinho de mão.

        Adoración era a mulher mais linda que José Jacinto jamais vira. Talvez ela se admirasse no espelho do estojo, com seus grandes olhos, seu cabelo vermelho de bucles, sua boca de dentes inteiros. Aqueles grandes olhos cuja mirada ele não conseguia sustentar, aqueles grandes olhos, aquele cabelo vermelho e os bucles de capa de revista, aquela boca com que ela lhe atirava beijos.

        Adoración firmava nele os grandes olhos e ele tinha que desviar.

        Era bom, era bom, era bom demais. Impossível de evitar. Não dava para agüentar.

        José Jacinto havia feito a volta na estação, havia comprado outra passagem e embarcado de novo em Corrales. Toda a maneira, ficar ali ou ir adiante não fazia muita diferença para ele. Então, voltara ao carro-motor e, de longe, pudera ver o grupo no fundo do carro: ver a ruiva sentada no mesmo lugar; ver todos os artistas da Companhia acomodados nos seis últimos bancos; ouvira alguém que tocava e cantava; mas não se animara a acercar-se.

        O carro-motor foi andando no rumo dos trilhos.

        José Jacinto permaneceu em seu canto. Depois, já perto de Vila Sara, notou que quase todos dormiam e que Adoración retocava a pintura com um estojinho de mão – mas não teve coragem para se chegar.

        José Jacinto acabou indo até Treinta y Tres. José Jacinto foi até Treinta y Tres vendo Adoración sentada de frente para ele bem lá no fundo do carro. Foi até Treinta y Tres; mas não teve coragem para se chegar.

ALDYR GARCIA SCHLEE, nasceu em Jaguarão, RS., em 1934. É advogado, jornalista, tradutor, desenhista e professor universitário. Publicou Histórias Ordinárias em 1977, Contos de Sempre em 1983, Contos de Futebol em 1997 e Contos de Verdades em 2000, entre outros. Recebeu o Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira em 1984.