 |
 |
Acerto de Contas
Digo-lhe: meu doce acabou.
Nada de açúcar, baby.
Fiquei diabética.
Cotidiano hábito de
pingar gotas de
aspartame na vida.
Parece doce,
mas amarga no fim.
Não sei se você merece mais algumas palavras....
Bem, isso é outra conversa. Escrevo, preciso fazê-lo, mas não tenho
certeza de que irá lê-las. Guardo seu endereço num pedaço de papel em
bom estado, legível. Na verdade, o sei de cor. A carta chegaria, é só eu
decidir...... Isso me dá um certo prazer, algum poder talvez. O quão
poderosas as palavras podem ser. Instaurar mais uma crise, uma culpa?
Você tem, não tem? É, na minha mão um trunfo valioso. Mas talvez não vá
usá-lo como também não usei em tantas outras ocasiões.
Acho que você não gostaria de escutá-las ou
lê-las. Ou ouvi-las de alguém que as contasse.... Tenho coisas a
revelar, a perdoar. Esclarecer sentimentos confusos; dissipar mágoas...;
relembrar o lado patético de nossas ações, rir delas; esperar, qual
Penélope, suas respostas como verdades, inteiras ou não. Algum consolo
para a nossa perda comum. No entanto, se você lesse estas linhas iria
dizer com naturalidade coisas que já não me importam, repetirá o que tem
dito há anos. Resposta automática.
Você se afirma adestrado estoicamente para os
desígnios dos afetos....... não me apego a mais nada e ninguém! Mentira.
Não, não choro mais.... foi-se o tempo! Ana disse que você chorou no dia
em que parti. Mas isso eu já sabia mesmo que ela não contasse, porque
quando ele morreu, ainda no hospital, vi as lágrimas escorrendo por
dentro da sua carne, molhando seus ossos, aguando o seu sangue até
tirar-lhe a cor. É difícil não odiar e temer ao mesmo tempo a morte.
Ficar impassível. Eu não consigo mais.
Ou seja, nada do que disser como não penso mais a
respeito, porra! me fará deixar de imaginá-lo abatido, olhos paralisados
no seu quartinho de memórias, fumando a última ponta antes de encontrar
os amigos. Amigos? Vai voltar para casa solitário, tenho é vontade de
rir!!, mesmo acompanhado, tirar o boné, cachecol, pulôver, calça,
guardando tudo em seu devido lugar, mas não tendo onde colocar a
consciência do que está por trás dessa dor.
Pois é, o amor, esta palavra que foi tão
mastigada entre os dentes da sua boca, não serve mais pra nada.
A angústia, não a tristeza natural(?) admitida no
cotidiano viver, em mesas de bar...., mas a que dividimos e que o peso
não foi aliviado, mas multiplicado. Ah.... daquela sabemos só nós! Eu
via seus olhos tão vagos como os meus enquanto estávamos ainda juntos;
na missa de 7º dia, de mãos dadas; andando pela cidade olhando o nada
das bancas de jornais; encontrando vizinhos pesarosos; nos beijos em
silêncio onde trocamos orações para apaziguar nossas línguas, em meio à
aflição insone. Ou quando acordávamos na madrugada pelo poderoso troar
do telefone, esgrimindo espadas no ar, atormentando a nossa paz depois
do quase fim. Assistia ao jornal da TV não vendo nada a seu redor....
hipnotizado pelo passado. Distraindo-se, vivendo ao largo de nossa vida.
É dela que foge. Sem saber como arrancar o
incômodo surdo do meio dos seus pêlos, dos poros, da sua voz
monocórdica, do seu discurso ora monossilábico, ora retórico, da sua
inércia vendo o pó recobrir cada instante do presente.
Me rendi às evidências do seu sepultamento
interior. Sei disso agora.
Você sabe? Talvez se engane para sobreviver. Mas
não terá meu entendimento fazendo coro ao fracasso que cultiva
silenciosamente com dedicação. Quero me livrar dessa cumplicidade
sombria.
Mesmo assim, vou colocar as folhas dentro do
envelope. Talvez, vendo-as dobradas, guardando o rumor dessa noite, eu
venha a recuperar a essência do que geramos um dia, a permanência
daquilo que foi e nos uniu, e então as envie.
Se isso acontecesse, eu pararia por aqui. Mas
não. Quero tirar hoje, junto com minhas roupas, também a minha dor tão
gêmea da sua. Serei livre de indagar, refletir sobre o passado, pois
deixará de existir. Uma criança. Eu.
Sim, é certo que você nunca venha a receber esta
carta. As palavras têm seu tempo: se não ditas, morrem na garganta e
acabam por nos asfixiar. Eu mesma vou queimá-la, porque você saberá,
sim, sobre o que pensei nesta noite. Não serei mais alimento distante
para o seu ponderado viver. Não há o que explicar, não resta dúvida,
porque farei o que você vem pensando há tantos anos e nunca teve coragem
de fazer.
SHIRLEY KÜHNE mora, ainda, em São Paulo, e é redatora e revisora
de textos. Atualmente, faz especialização em Literatura. Quando pensa em
poesia lembra de Leminski e se imagina uma história para contar pede a
São Guimarães Rosa ou São Jorge Luís Borges que a ajudem. Nem sempre
eles podem! Tem coisas espalhadas pela Internet mas pretende publicar em
breve.
|