 |
 |
A terra e toda a alegria dos
que amam
"Com certeza escrevo isso por desespero com meu corpo e com o futuro
desse meu corpo."
Do diário de Franz Kafka.
"La bala que me hiera
será bala con alma.
(…)
Si mi hiere el cerebro
me dirá: Yo buscaba
sondear tu pensamiento.
Y si me hiere el pecho
me dirá: Yo quería
decirte que te quiero."
Salomón de La Selva.
Esta terra tem um lodo que prega forte no corpo
da gente, pra alcançar a luz que ilumina a nossa cara, a gente estende a
mão, mas o corpo não responde, fica parado como uma folha, então a gente
consegue e move a cabeça pro lado, e olha com um olho de baleia, tenta
ver ao redor, pegar uma coisa que valha para levantar. ninguém. nada.
coisa nenhuma. Terra.
Antes de ficar aqui, deitado com os caranguejos,
pardais, cecílias, a gente vivia com aquele beijo sopro de mulher,
lavrando a terra que tem um lodo forte que prega na cabeça da gente, pra
alcançar a luz fraca que mal ilumina a nossa cara, a gente estende a
mão, mas o corpo não responde, fica parado como uma folha, a gente move
a cabeça pro lado, e olha com um olho de baleia, tenta ver ao redor,
pegar uma coisa que valha para levantar. ninguém. nada. coisa nenhuma.
Terra.
Foi você que fez isso, você com esse rosto e essa
pá de terra, que tem esse maldito lodo que prega forte no corpo da
gente, a gente estende o corpo, mas a mão não responde, fica parado como
uma folha, a gente não move a cabeça pro lado, e olha com um olho de
baleia, tenta ver ao redor, pegar uma coisa que valha para levantar.
ninguém. nada. coisa nenhuma. Terra.
Numa noite, em qualquer noite, talvez hoje, a
gente, eu, eu levante daqui. Não, hoje não. Nessa noite você vai me
entender, me compreender, me amar verdadeiramente em cima desta terra
que tem esse lodo que habita naquele corpo, que já não é iluminado, que
já não tem rosto, que já não estende a mão, que fica parado como uma
folha, sem mover a cabeça pro lado, e sem olhar com um olho de baleia,
sem tentar ver ao redor, sem pegar uma coisa, uma coisa qualquer, que
valha para levantar. ninguém. nada. coisa nenhuma. Terra.
Nessa noite, nessa bendita noite, nessa noite em
que estou perdido, você vai me desejar como quem deseja muito aquilo que
pode lhe matar, porque o que não pode matar não pode ser amado, não pode
ser beijado, nem abraçado, nem apertado contra o peito. Numa noite, numa
noite qualquer, você estará sentada aí, bem aí, e eu vou me levantar
rapidamente no escuro, você não vai nem ver. Quando me levantar nessa
noite, você vai se sentir bem melhor. Muito melhor. Você vai amar, me
amar, olhando fixamente para esta terra que é só lodo, que é um ventre
de baleia com um olho para dentro, é o corpo que foi meu, é o corpo que
foi da gente, os nossos corpos se pregavam forte, cabeças mãos, rostos.
Terra.
Mas por enquanto eu não posso levantar daqui,
levantar do barro e da noite, levantar da terra que tem um lodo forte
que tapa o meu olho como uma folha, que acolhe meu corpo como um ventre
de baleia, que aperta minha cabeça contra o seu peito forte de lodo.
Você não sabe o quanto é difícil ser feito de barro, ter o corpo
construído em barro. As mãos, feitas de barro, sujam e deixam marcas em
tudo. Os pés, de barro, deixam pegadas fáceis de seguir para lugar
nenhum. O corpo, fabricado do barro, é disforme, é viscoso, é mal
iluminado, não tem cara. Você não sabe que o barro não tem forma. O
barro é frio. O barro fede. O barro é esta terra com ventre, lodo,
corpo, gente, cara, mão, folha, cabeça, amor, olho, noite, morte,
desejo, peito. E sem luz que ilumina. E sem sopro beijo. Terra.
BERNARDO BRAYNER nasceu em 1975 na capital pernambucana, Recife.
É publicitario e já publicou alguns contos na Internet.
|