Loja de tecidos

"Serei alfaiate e cliente. Costuro para mim."
Silviano Santiago


Na ponta da cabeça: 
cabelo
Na frente do verso:
inspiração
Frente e verso de ponta-cabeça: 
plantar bananeira, na ponta
do cabelo: o chão 



        Um dia fui escritor, hoje vendo panos. Tenho de todas as cores, texturas, preços, quer ver? Há sempre uma nova notícia chegando e já não sei lidar com ela... Eu nunca soube mesmo lidar com novidade. Tanta gente viva pra quê? Morrer então... nem pensar. 

        Acontece que ultimamente a morte tem virado uma obsessão. E a vida também. Tanta, tanta, tanta gente viva, passando pelos mesmos sentimentos que eu, ou melhor, somos muitos sentindo e pensando a mesma coisa. Gosto disso, me sinto amparado. Quando eu era escritor essa troca era bem mais fácil. Eu via um filme e escrevia para o diretor, o roteirista, a atriz, o ator... As pessoas me liam e diziam o que sentiam. Quando se escreve ou se expressa artisticamente a comunicação é quase exata... Quase... Cada um vê num livro ou filme aquilo que deseja ver... Não quero me deter nisso agora, quero discorrer sobre tecidos e sofrimentos. Perguntas que gritam, suplicam, berram. Inútil. A resposta é surda. Surda e muda. 

        Não sou cega, sou cetim. Meu brilho me ofusca. Sabe quando você sai de um ambiente fechado e os raios de um sol bem quente atravessam as suas retinas? Então, ser cetim é isso. Cetim também existe masculino e feminina. Você já sabe, sou fêmea. Fêmea e leve como o escritor disso aqui... Eu sei que a coisa está meio confusa, mas, pelo que estou entendendo, somos três: o escritor, o vendedor de tecido que já foi escritor e eu, cetim vermelha. Assim mesmo, sou fêmea. 

        Sou o tesoura. Muito macho e cortante, tenho dois buracos onde os costureiros e as estilistas colocam o dedo indicador e o dedão da mão esquerda. Todos são canhotos, também nunca fui tocado por nenhuma costureira nem por nenhum estilista. Comigo a coisa é assim: só as estilistas e os costureiros me usam. Vivo num ateliê.

        Se eu ainda fosse escritor, gostaria de escrever um conto clássico, com unidade dramática e sem tantos malabarismos, sem dar voz a tantos objetos. Num filme eu vi a proposta: "você transaria com outro homem por 200 mil? 300 mil? 1 milhão!" Há putos demais e magnatas de menos. Você prefere lã, seda ou algodão? Tem gente que chega aqui atrás de fazenda... Fico irritado quando tratam pano por fazenda. Por que será? Quando era escritor eu odiava as palavras oriundo e doravante e jamais usava ponto-e-vírgula. Com o passar do tempo, as manias vão criando raiz, ainda bem que não sou mais escritor. Tergal, chita, brim, veludo, seda ou lã, qual você prefere? 

        Eu sou o molde.


WAGNER MANGUEIRA nasceu em Marília (SP) em 1965, onde vive. Dos 18 aos 34 anos morou em São Paulo (SP), onde formou-se em Arte Dramática e participou de oficina literária com o escritor Caio Fernando Abreu. É autor de A gaveta (2001), Pó (2002), Vamos passear na floresta? (2003) e Prata (no prelo da Editora Medusa)