Flores mortas


     Era um dia de semana. Telefones tocavam, impressoras cuspiam relatórios, a música monótona do rádio nos alto-falantes, pessoas tagarelavam em volta da mesa do cafezinho. O departamento de contabilidade das Indústrias Têxteis Carolina tinha uma característica pouco usual, seu quadro de funcionários é composto predominantemente por mulheres. Isto significa que era comum, vez por outra, aparecer um entregador com um ramalhete de flores endereçado a alguma das funcionárias. Portanto, ninguém estranhou quando Larissa, uma jovem e promissora assistente contábil, recebeu um buquê de rosas vermelhas. Estranha foi a sua reação. Ao invés de um sorriso de alegria, ou mesmo um suave ruborizar das faces – como ocasionalmente ocorria com as mais tímidas ou recatadas –, ela debulhou-se em lágrimas assim que leu o cartão.

     Após as exclamações de espanto, foi cercada pelas colegas, preocupadas com o que aconteceu. Na leitura do cartão, ficaram ainda mais perplexas, havia apenas um nome escrito, nem mesmo uma assinatura, apenas o nome, Otávio Augusto. O que houve, ele morreu? Perguntaram aquelas que já o conheciam, para receber em troca alguns soluços mais sonoros. É como se fosse – disse Larissa – ele me mandou flores mortas.

     – Isto tu nunca vai receber de mim, disse ele, comentando algo que apareceu na televisão.

     – Isto o quê? Respondeu ela, enquanto folheava a sua revista.

     – Flores. "Se de repente um homem lhe oferecer flores". Pelo menos, não flores mortas.

     – Como assim?

     – Ora... Acho uma grosseria dar flores mortas. Se fosse para presentear, daria um vaso com flores plantadas. E não cortadas, mortas. Coitadas.

     – Bobagem. Eu gosto, acho romântico.

     – De mim nunca! É desumano. Para mim significaria o oposto, não um carinho, mas uma forma de mostrar contrariedade, sei lá. Seria o anti-romantismo, o rompimento de uma relação.

     – Mas que exagero, Gu...

     Larissa e Otávio Augusto – Ó Gugu, como alguns o chamavam pelas costas – estavam numa fase do namoro um pouco mais avançada, na qual, além de terem suas escovas de dentes um na casa do outro, começavam a aparecer as pequenas idiossincrasias de cada um. Neste aspecto, Ó Gugu era o maior colaborador, diferente de Larissa, moça meiga e agradável. A cada semana ele deixava mais à mostra seu caráter irritadiço e manias sem pé nem cabeça. Num dia foi o comentário das flores, no outro resolveu que não comeria mais produtos de origem animal. Não sou devorador de cadáveres, ele disse. Além disso, prosseguiu como um ranzinza, quando pressentem que serão abatidos, os animais liberam adrenalina, que deixa a carne mais dura. E quem garante que isso não nos faz mal, hein? Hein?

     Não demorou e apareceu com outra esquisitice, também ligada aos animais. Decidiu que não usaria mais sabonete, afinal, segundo ele, a gordura dos animais era uma matéria-prima para esta fabricação. De nada adiantou Larissa argumentar, embora sem muita convicção de que estivesse certa, que a indústria havia evoluído e só usavam matéria-prima sintética. Ele estava irredutível. Assim, seu banho era a base de água, suavizado pelo spray do desodorante. Cheio de manias, no entanto não soube dizer se este spray era composto por CFC. A camada de ozônio não parecia ser muito importante para ele. Larissa, apaixonada e de bom coração, absorveu mais este impacto, e acabou habituando-se ao aroma animal que chegava com o final do dia. Parecia que seu amor, além de cego também não tinha olfato.


     Quando chegou em casa – ainda morava com seus pais – já se encontrava mais calma. De fato, pensando bem sobre seu namoro com Otávio Augusto, concluiu que não era caso para aquele escândalo todo. Sou uma manteiga derretida, pensava. Acho que foi a maneira de ele dizer que não me queria mais. Por que não um telefonema, já que preferiu não falar diretamente com ela? Deu-se conta, de repente, que Ó Gugu sempre fora uma pessoa esquiva. Seus pais não se importaram com o fato, exceto por verem sua filha triste, pois, na realidade, ficaram quase eufóricos por terem se livrado daquele traste. Dona Marilda, a mãe, até estava mais aliviada por não precisar mais arquitetar malabarismos culinários para agradar o genro querido. Além disso, o consumo de aromatizadores de ambiente e outros artifícios como incensos e velas perfumadas cairia drasticamente.

     Nos dias que se passaram, a atmosfera ficou mais leve na casa – respirável já estava. O ex era chamado abertamente pelo apelido de Ó Gugu, e já riam e se divertiam a cada lembrança do comportamento pouco simpático do pseudo-naturalista. Na prática, apenas Ó Gugu saiu perdendo. Larissa mais nada sentia a seu respeito, pois concluíra que vivia sob uma espécie de torpor romântico que obstruía sua razão e senso crítico e, parodoxalmente, as narinas. Mesmo os motivos para a atitude de Ó Gugu já não a preocupavam. Afinal, não comer carne até pode ser justificável, mas não usar sabonete, era demais para ela. O que poderia se esperar de uma pessoa dessas?

     Vão-se alguns meses e Larissa chega em casa sorridente, com um vaso de flores nas mãos e dizendo:

     – Mãe, pai. Trouxe meu namorado para vocês conhecerem.