Ilutração:Carla Carboni

De badulaques e bugigangas

    O corpo caído tencionava submergir, apesar de gravitacionalmente estático. A bruma feito cobertor gelado. Quanto aos olhos, já não os retinha abertos. Na boca, a baba sólida. O sangue que antes vertera, agora congelava e coagulava, assinando uma surra bem dada. Os ossos encaixavam-se lentamente, o que no âmago alimentava o vômito. Encontrava-se curvado como feto. O sono trajava coma. Analisado com zelo, notar-se-ia brotar inchaços acompanhados de hematomas, esverdeantes ainda. E, na presença de um estetoscópio, do estalar dos ossos surtiriam ruidosos acordes tendo ao fundo o compasso lerdo e cardíaco. Tremia de um todo.

    Qualquer mortal teria compaixão. Qualquer! Depois o desprezaria. Mas Deus não. Deus só via, nem compaixão tampouco desprezo; com complacência de telespectador e cheio de vontade de rir.

    No plano mundano, após a aurora chegava a ambulância. Paramédicos carregaram o corpo febril e exausto.

    Voltando gradativamente a si, o corpo provava a repercussão da obra de seu opositor. A lucidez intensificava os sentidos e tornava a absorção das dores quase impossível. Dores ósseas, musculares, indecifráveis, acumulativas e complementares. Seu algoz em nada o preservara. Em seguida, antiinflamatórios e sedativo, e o corpo ainda ouvia o eco das expressões sacras do doutor quando a indústria farmacêutica assumiu o controle.

    Entrava, então, num vai e volta sem fim. Cessando o sedativo, o corpo entorpecia de dor. Os olhos semi-ausentes presenciavam seu corpo – longinquamente – coberto por um pano branco chamuscado de vermelho. Gases, gesso e mercúrio-cromo, na verdade. Sentia-se noiva currada. Pior era o cheiro: água sanitária com esparadrapo. Uma perna suspensa. O compasso lerdo e cardíaco e eletrificado.

    E não tardava a chegar a enfermeira para depurá-lo. Enterrava-lhe o polegar na pálpebra, erguendo-a; pressionava-lhe o punho com a outra mão. Constatando-o vivo, fincava-lhe a seringa novamente.

    Há muito, quando chegara da roça com uma carta de referência do pai e pouquíssimos pertences – quase badulaques, fora de imediato ao encontro do padrinho que o conduzira à labuta, um frigorífico de médio porte.

    Passados alguns dias, padrinho e afilhado já despendiam juntos a maior parte de suas horas de ócio. O afilhado descobria a cidade e sua vasta podridão. Primeiro as mulheres, onde despejava em torno de um terço de seu salário. Destilados para acompanhar. Tabaco e algumas drogas, mas nada relevante.

    Ia do frigorífico para o bar, do bar para a zona e da zona para o quarto de pensão em que o padrinho o depositara. Assim correram-se meses.

    O afilhado prosperava. Três meses no frigorífico e já fora promovido. No quinto, livrara-se do incômodo de carregar bovinos nas costas. Passara a cuidar das contas a pagar da empresa. O padrinho muito se orgulhava.

    Certa data, o padrinho o levara para o carteado, mas prevenira-o do vício. Charutos, mulheres insinuantes, uma redonda mesa verde, bebida e fichas replicantes. Nos momentos de grande tensão, na definição da rodada, o ambiente carregado mais parecia o interior de um elevador lotado ou a sala de espera de um oncologista. A aflição e a ansiedade foram determinantes para o afilhado. E naquela data ele dobrara o seu salário.

    O jogo entrara no roteiro. Trabalho, bar, jogo, zona, pensão. Trabalho, bar, jogo, pensão. Trabalho, jogo, pensão. Trabalho, jogo, trabalho. Jogo, trabalho, jogo. Jogo.

    Cavalos, roleta, pôquer, pife, palito, vídeo-bingo, caça-níqueis, pingüim, loterias e rifas. O padrinho aconselhava-o a largar, retomar a vida. Dizia que o melhor era casar-se. Ele até procurava encontrar uma esposa a contento, mas todas caíam fora quando o vício era deflagrado.

    Porém, Raquel comprara a briga. Mulher espaçosa, pronta para a guerra. Sangue siciliano. O afilhado vidrara nas volumosas mamas da dita. Comia na mão de Raquel.

    Trabalho, pensão, trabalho, pensão, trabalho, casa. Casa! O afilhado comprara uma casa enfim. Um aconchego, um lar, uma morada, um endereço. Ela nutria-lhe; e na rua, ou alguma festa, ela ostentava-o como troféu; ele, sentia-se um poodle branco vigiado pela coleira. Entretanto, isso não fazia importância. Pelo menos enquanto ele se divertia com as suntuosas tetas de sua dona. Nunca trepara tanto. O afilhado encarava os urros, uivos, gemidos, sussurros e palavrões como contrapeso ao poodle branco. O prazer vencia.

    O problema é que peito toda hora enjoa. Demora – porque o par gera o revezamento -, mas acaba enjoando. Para piorar, o afilhado havia voltado a carregar carcaças. E, no momento em que ele não via mais graça nenhuma em nenhum dos dois apêndices, entrou o ciúme. Como bom jogador, virou o jogo. O afilhado passou a vigiá-la. Obstinou-se. A princípio a siciliana relutara, mas duas semanas sem sexo e algumas surras surtiram efeito. Raquel rendera-se, contivera-se, encolhera-se e enclausurara-se; e o afilhado folgara-se. Voltara a jogar, colecionava amantes e penhorava tudo o que tinha para penhorar.

    Quanto aos peitos, ele notara que vagarosamente eles iam enfraquecendo, cedendo, caindo. Perderam volume também, já que a dona mal comia. Por fim secaram. O afilhado definhara a siciliana.

    Não dá para jogar sem cacife. É regra. O padrinho havia alertado. Sem cacife e sem sorte.

    Dos credores, primeiro a compaixão; depois, o prazo findara, a dívida não. A surra quitara. Aí, dos credores, somente desprezo.

    E agora estava ele ali, esfolado, arranhado, inchado, infeccionado, dopado; mas fora voltando a si, ou quase, que apodrecera definitivamente.

    A siciliana trazia-lhe suas poucas bugigangas. Era o que lhe cabia da partilha. Ela estava impecável, devidamente maquiada, ereta e suspensa num salto-agulha; rebolado compassado e muito swing. Até os peitos mostravam-se animados.

    Ela depositou um saco plástico próximo ao corpo inerte, sorriu de canto, e fugiu dele sem pressa alguma.