Azul Índigo

Eram três irmãs que moravam numa casa de porta e janela em São Gonçalo do Rio das Pedras, MG. A mais velha, Inácia, se perdia de vez em quando e fazia marmelada. Joana, a mais nova, sofria de asma e chupava o dedo. A do meio, Quitéria, esculpia em pedra e madeira. Chorava muito. A casa velhíssima, caindo aos pedaços. Nas paredes, nervuras arrocheadas e peludas de mofo. Descobri o trio porque vi Quitéria à janela, tomando café - a preta mais preta que enxerguei na vida. Nem preta era, de tão preta. Era azul, de um tom índigo e lustroso. E comprida, como observei depois, entrando na casa. Quitéria à frente, galgando os cambitos nos degraus do portão. A carapinha irregular e descuidada. O vestido de uma chita encardida lembrava esses camisolões brancos de manicômio. Nos pés, sapatilhas chinesas. Que figura! 
Lá dentro tinha um bafo, sala modesta de interior. Era e não era. Tudo virado, de ponta-cabeça, minto, estava tudo no lugar. Mas não estava. Desconcertei. "Ah... mas é que aqui é Minas Gerais", conclui. Alguma coisa do ambiente, corrente elétrica. Eu achava que a sala queria me conter. Não sabia mais onde começava e acabava o mofo. A toalha de retalhos emendados sobre o sofá, a Santa Ceia pregada na parede de um verde-malva descascado. Por baixo, era cor de rosa. Em muitos pontos o reboco falhado deixava à vista tijolos antigos. Havia um buraco maior feito nicho para São Jorge Guerreiro. Sobre a televisão, um berloque de Papai-Noel e o retrato de Hebe Camargo. Havia folhas secas no chão de cimento queimado.
Eu estava em Minas, perto do Vale do Jequitinhonha. Dia anterior, tinha passado em Pedra Bonita e Almenara. Entre uma e outra, um bando de cabras paramentados. Depois me disseram que era pessoal de coronel Fulano e eu cismei como aquilo tudo podia ser verdade - é que eu sou acostumada em cidade. Essas coisas pra mim, só Guimarães Rosa.
A artista Quitéria - assim ela se apresentou na janela, quando me viu turista - serviu um cafezinho ruim em uma xícara sem pires. Havia uma dama barroca estampada sobre o a louça lascada. "Tá bom de açúcar"? Menti que sim, queria saber onde aquilo ia dar. Quitéria foi buscar uma "estáutua muito bonita" e entrou por um corredor escuro. Espreitei o canto oposto por onde ela tinha ido. De onde eu estava, via uma quina do fogão à lenha do mesmo tom de iodo do assoalho. Tachos, panelas e utensílios pendurados na parede. A porta ao lado dava para um quintal onde a luz cegava. O dia trazia uns barulhos pra dentro de casa. Quitéria chegava nunca. Alguém respirava silenciosamente na cozinha. "Se achegue". Me acheguei. "Está esperando aquela lá"? Disse que sim. Se desculpou por não ter doce pronto, enquanto despedaçava marmelo no tacho. "Aquela não presta e não tem sossego", avisou Inácia, um pano branco cobrindo a cabeça. E explicou que era atormentada, a Quitéria. Bebia cachaça feito macho e continuava em pé esfaqueando pau e pedra. Suas noites eram uma carpidura sem fim, até amanhecer o corpo desmaiado, cercado de criaturas do cujo que ela fazia. Era assim, ela. Perguntou se eu queria café. "Brigada", recusei. Mesmo assim, me serviu numa xícara lascada de florinhas: "É que você tomou aquela água de nojo. Toma aqui, este sim é café de gente". Estava tão ruim quanto o de Quitéria. Mas eu tomei porque não queria fazer desfeita. Ficamos sem assunto, mas cozinha é um cômodo que me deixa à vontade. Percebida do meu estado de espírito, Inácia se ocupou do marmelo e me deixou vagar. Fui indo devagarinho pro quintal. Galinhas e patos ciscavam imundices. Um poço de água esverdeada e muitas árvores. Soube identificar o pé de goiaba, que eu conheço, e o de marmelo, porque vi a fruta na cozinha. Estava nisso quando ouvi cantar: Nhé-nhé-nhé-nhé-nhé. Casa omi com muié. Joana foi na roça cortá cana e corto pé. Nhé-nhé-nhé-nhé. Casa omi com muié..... Uma voz fininha e esganiçada. Procurei de onde vinha e dei com Joana encarapitada na árvore sobre o poço. Era tão preta quanto as irmãs, parou de cantar e tapou a boca com o dedão, devidamente chupado. Os olhos postos em mim. "Oi", abri conversa. "Bom dia dona moça, a senhora é amiga das minhas irmãs"? "Sou sim". Ela veio descendo com uma agilidade símia. Usava um camisolão parecido com o de Quitéria, o cabelo ainda mais desarranjado, umas folhas aqui e ali, toquinhos de pau. Me pus em guarda. "A senhora é clarinha", disse alisando minhas bochechas. Ri amarelo, dura. Inácia apareceu na janela da cozinha: "Deixa a moça, Joana. Vá pro teu canto"! Fez um bico que ia dar em Diamantina e resmungou: "Essa aí não presta. Em dia de lua cheia, ela sai pela aí. Se Quitéria não busca... Ela se perde, moça, ele se perdeu de mocinha e mãe deu nela até tirar sangue, sangue"! Uma sombra escura apareceu entre nós. Era Inácia, vexadíssima. Foi arrastando Joana pelo braço pro fundo do quintal. A coitada gemia uma voz mais aguda ainda: "Não me bata, mãinha, que eu sou adoentada". Fui voltando com a intensão de cair fora. Dei com Quitéria na porta da cozinha. "Tá vendo o que eu passo"? Me conduziu de volta à sala onde estava a peça que ela queria pra mim. Um corpo feminino dobrado sobre si, os cabelos formando um ninho no entorno, tudo em azul, do tamanho de um punho. Realmente era linda. Comprei pelo preço que ela pediu e foi pouco pela beleza da peça. Devia ter pagado mais, acontece que eu também não estava com essa bola toda. Agradeci e fui voltando para outra casinha de porta e janela que eu tinha alugado. Dia seguinte e no outro, tornei a visitar as irmãs e tomei os cafés horriveis de Quitéria e Inácia. No quintal, ouvi outras cantorias de Joana. Sempre me atendiam sozinhas, uma de cada vez. Diziam barbaridades umas das outras. Terceiro dia, antes de ir embora, fui me despedir e elas não me receberam. O portão - aberto das outras vezes - estava impedido por grossas correntes. Bati palmas. Ouvi alguém se lamentando lá dentro - e o canto esganiçado de Joana. Mas ninguém abriu a porta. Uma vizinha veio me dizer que elas não iam aparecer. Perguntei por quê. "É que ontem foi lua cheia", me olhou cheia de mistério. Pediu licença e sumiu da janela.

NEUZA PARANHOS recebeu o Prêmio Nascente (USP) para texto de 1994, publicou contos na revista Cult e no suplemento especial do jornal O Estado de São Paulo, em homenagem aos 450 anos de São Paulo. Autora do livro de contos Avenida Marginal (editora ComArte, 1998). Mora em Nova York desde junho de 2003, onde estuda inglês, bloga e aproveita a primavera de bicicleta.