A viagem e as obscuridades do pensamento

      Esta viagem tem um percurso que deve durar cerca de vinte e quatro horas, você viaja só, perseguido pela própria imaginação, ocupando uma poltrona e uma área inferior a um metro quadrado. O pensamento retém a melancolia e a angústia de uma solidão desconcertante. Todas as outras poltronas estão ocupadas, cada personagem viaja por motivos diferentes. Pessoas estranhas tão perto e distantes, da emoção da emoção que te afronta.

      O tempo vai deslizando lentamente, você mergulha no circuito das recordações, pensa em tudo: na mulher, na amante, no dia seguinte, etc., tenta se livrar em vão de uma angústia. Nem alegre nem triste, irônico, talvez preocupado, pensativo, ansioso. Uma troca de palavras como o vizinho de poltrona, mas por gentileza. Um lance de olho na paisagem: áreas desérticas, abandonadas, sem vegetação. Por uns momentos vem a reflexão dos problemas ecológicos.

      Uma parada para um lanche e outras necessidades do corpo, a higiene corporal mínima indispensável... a viagem recomeça. Alguns passageiros comentam sobre a ausência de higiene na lanchonete, os sanitários, os preços elevados... Você indiferente lê alguns parágrafos de um livro que fala do tédio. Vem o sono, um cochilo e o despertar alguns minutos depois com o choro de uma criança, possivelmente filho do jovem casal que está sentado nas poltronas atrás da sua. A noite chega sem fazer surpresas. Mais uma parada...

      A viagem recomeça. Um pequeno teatro, as cenas vão se repetindo quase sem alterações. Você exercita um saber sobre a frustração, na memória refaz o mundo e preenche este indesejável turismo solitário, com o deleite de satisfazer o desejo no engano das fantasias inventadas pelo pensamento. Esta viagem parece interminável. Novamente o sono. Depois o dia seguinte, a parada para o café da manhã. A autorização do fiscal para continuar a viagem. Uma troca de palavras com outro viajante. A viagem está chegando ao fim, você procura saber das horas, se certifica da hora exata da chegada. Espera silencioso... Finalmente se livra desta monotonia e começa uma outra numa cidade desconhecida.


ALMANDRADE, ANTÔNIO LUIZ M. ANDRADE é arquiteto, poeta e artista plástico baiano, de Salvador. Como artista plástico já participou de quatro bienais internacionais em São Paulo, além de várias outras exposições no país e no exterior. Editou em 74 a revista “Semiótica” e, seus poemas procuram dar às palavras intensidade plástica, forma. Publicou os livros “O Sacrifício dos Sentidos”, “Obscuridade do Riso”, “Poemas”, “Suor Noturno” e no prelo, “Arquitetura de Algodão”. É um dos grandes nomes brasileiros do poema visual e, já teve matéria sobre sua obra publicada na Revista Pampulha