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A multa
Eu gritei, me esperem. Eles andaram mais depressa. Não tive dúvida, me apressei e, pouco depois, já estava com eles. Então me dei conta de que estavam misteriosos. Mais sérios do que de costume. Laerte disse, se quer vir, vem, mas a responsabilidade é sua. Eu não respondi. Andamos mais um pouco em silêncio. Fiquei curiosa e perguntei, é hoje? Rubens respondeu, tem que ser algum dia, não é? Melhor que seja hoje. Os outros não disseram nada.
Andamos uns 15 minutos, até chegarmos ao lugar. Ninguém conversava. Por minha causa ou são assim normalmente? Laerte franziu a testa. E disse, é melhor falar mais baixo porque já estou sentindo o cheiro. De fato, quando a brisa soprava para o nosso lado, reconhecíamos o cheiro.
Laerte, como sempre, dava ordens. Faz isso e faz aquilo, anda com mais cuidado, se a gente conseguir, vai ser o máximo. Em dado momento, ele se virou para o Sávio. E comentou, bobeira trazer o harpão. Sávio parou, aborrecido. Baixou o harpão e disse, verdade, acho que não é apropriado. Melhor deixar em cima desse banco da praça. Em caso de necessidade, volto e pego.
Bom, pessoal, disse Laerte, chegamos. Cláudio e Valério, vocês dois vão pelo outro lado. Eu e o Sávio, ficamos aqui. E você – apontou para mim – ataca de frente.
Sacana! Estava me preparando uma. Primeiro, tinha se aborrecido ao saber que eu também viria. Havia desconversado. Ah, não é hoje. Agora, me dava o que havia de pior. Relaxei depois de um tempo. Acho, pensei, que estão me testando.
Aproximamo-nos, sempre seguidos por aqueles dois olhinhos brilhantes. E sentíamos o cheiro, claro. Laerte deu um grito e atacamos. Acho que o Cláudio foi o primeiro que conseguiu alguma coisa. Ouvimos um grito de dor. De quem? Talvez um grunhido. Sim, um grunhido, quando Cláudio saltou de lado. Novo grunhido, dessa vez mais fraco. Em seguida, o baque do corpo.
Mais fácil do que pensávamos, disse Laerte, orgulhoso. Só que no mesmo instante formos surpreendidos. Um grunhido horrível. Vamos ajudar ao Valério! O grito do Valério, sim, o grito do Valério era de dor. Horrível. Ele berrava de dor, pois o peito do pé tinha sido ferroado por dentro do sapato.
Decidimos então atacar todos de uma vez. Com um a menos, claro. O Valério estava em um banco, tirando o sapato para olhar o estrago. Perguntei, não vem? Valério respondeu, vão vocês, vou passar uma pomada na ferida. Fomos, então. Ziriguitamos pelo averso. Ele assanfonou. Que nem um bagre, esquecido na areia. Aproveitamos para dar umas rasteiras. Ele pulou, californioso, como se tivesse bebido óleo de mamona. Quando caiu de novo, Cláudio riu. Fingindo de novo, hein! Acha que somos bobos?
Não estava fingindo dessa vez. Prestando bastante atenção, a gente conhece quando chega a hora derradeira. E essa era a hora derradeira. Ele tinha um ferimento no ombro e outro perto da cintura. Um sangue esbranquiçado. Laerte ordenou ao Cláudio, vê se é pus ou leite condensado. Era leite condensado. Tem certeza? Cláudio respondeu, sim, tenho certeza.
Voltamos, então? Valério era de opinião de que devíamos voltar. Foi então que o ouvimos pela última vez: e vão mesmo cobrar a multa? Todo mundo se voltou e respondeu ao mesmo tempo, como se tivesse sido combinado: claro, acha que viemos pra quê? Ao ouvir isso, ele deu um longo suspiro e morreu. Laerte olhou pra mim. E exclamou, puxa, fiquei impressionado com a sua coragem! Não respondi. Ele podia estar se referindo ao morto. Ou me testando novamente.
SÉRGIO CAPPARELLI nasceu em Uberlândia, MG mas vive em Porto Alegre, RS há mais de 30 anos. É professor de comunicação na UFRGS, autor de vários livros, muitos deles premiados.
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