Mistério preferidos

Paulo Monteiro

ANTOLOGIA - MEUS CONTOS PREFERIDOS
Autor: TELLES, LYGIA FAGUNDES 
Editora: ROCCO


Anões, ratos, formigas e saxofones. São esses alguns dos personagens que contracenam com homens e mulheres nas histórias que compõem o livro 'Antologia - Meus contos preferidos'. A escritora paulistana, Lygia Fagundes Telles lança uma coletânea organizada por ela própria, reunindo 31 de seus contos mais queridos e levando os leitores a uma viagem através de seu universo literário.

Há um tom sobrenatural permeando boa parte das histórias, mas Lygia mostra que todos esses pavores e estranhezas nascem dentro da própria mente humana. Os mistérios de Lygia Fagundes Telles são os mistérios da vida, com suas questões que nem sempre podem ser esclarecidas, e o sobrenatural é o caminho pelo qual a escritora trilha para chegar à realidade.

Lygia Fagundes Telles completou 81 anos e diz sempre que a literatura é uma prova de amor. A autora encoraja a autocrítica na produção literária negando-se a autorizar que seus três primeiros livros de contos sejam reeditados. A estréia foi ainda na adolescência, em 1938, com a coletânea "Porão e Sobrado", financiada pelo pai. O terceiro, "O Cacto Vermelho", veio em 1949 e foi premiado pela Academia Brasileira de Letras e argumenta que os leitores de hoje não precisariam perder tempo com as suas experiências de iniciante, já que há tanta coisa boa para ler por aí e tão poucas horas no relógio.

Em relação às antologias anteriores, esta agora tem de novidade a maior das extensões e a inclusão dos melhores momentos de" Invenção e Memória", livro publicado em 2000 que e que receberia o prêmio Jabuti de Livro do Ano em Ficção. "Invenção e Memória" não era apenas o melhor livro de contos do país. Bateu em qualidade, segundo o júri, toda a literatura produzida no Brasil no ano anterior, incluindo romances, crônicas, poemas. Deste título a antologia contempla, entre, os contos "Que se Chama Solidão" e "Nada de Novo na Frente Ocidental". Em ambos, as recordações de infância e adolescência abalroadas pela súbita morte de entes queridos, uma por aborto, outra num quarto de hotel. No segundo, pedaços de autobiografia, a jovem legionária de farda na II Guerra, fortalecem uma narrativa que se aproxima do fantástico ao tentar travar o tempo da escrita ("mas espera um pouco, estou me precipitando", "não, ainda não") postergando a má notícia. 

"Meus Contos Preferidos" abre-se com "As Formigas", conto que Sergio Faraco alçou a título da coletânea organizada para a L&PM. Começa tudo muito placidamente, duas estudantes dividindo um quarto de pensão, e já no virar da página o leitor está com os braços duros de pavor, imaginando formigas em fila encaixando o esqueleto de um anão. Final ainda mais fantasmagórico, tenebroso mesmo, a autora reserva para o aparentemente lírico Venha ver o Pôr-do-Sol, em que ex-amantes encontram-se para um duelo final no cemitério. Os fantasmas são bem-vindos na imaginação de Lygia desde a infância pré-televisão no interior de São Paulo, quando ela ouvia as histórias das pajens à noite, na companhia de gatos e cachorros, e depois inventava as suas. 

Os três textos de Lygia incluídos recentemente na antologia "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século 20" repetem-se aqui: "A Caçada", "O Moço do Saxofone" e "A Estrutura da Bolha de Sabão", este um comovido ensaio sobre o ciúme e a paixão feminina, sobreviventes no tempo da delicadeza. De novo, a iminência da morte, a doença do amado repentina como a flecha do caçador que atravessa o sonho e destrói, na loja, o admirador de uma tapeçaria ancestral. A destruição algo apocalíptica comparece também em Seminário dos Ratos, alegoria política em tempos de ditadura militar, publicada em 1977. O poder contempla as pantufas queixando-se da ausência do assessor de imprensa, enquanto a casa vem abaixo. Como o amigo português José Saramago, Lygia sempre foi uma escritora preocupada com o estado das coisas. O ensaísta Silviano Santiago define o narrador de suas histórias curtas como alguém que ao mesmo tempo observa e avalia a experiência humana: "A cada milésimo de segundo, o narrador dos contos de Lygia deixa-se impregnar pela escrita minuciosa e detalhista do mundo". 

Há seis contos do livro "A Noite Escura e Mais Eu" (1995) nessa nova antologia, e nota-se em títulos como "Papoulas em Feltro Negro" e "Você não Acha que Esfriou?" um adensamento do ceticismo das mulheres maduras e de sua capacidade de reação. Uma professora de piano coloca em dúvida o passado de criança perseguida que construíra para si ao reencontrar uma mestra megera, ainda destrutiva, que acusa a ex-aluna de mentirosa e gaga, as falhas da comunicação tornando ambígua a própria memória, roubando-lhe as certezas, ocultando-as sob trevas espessas. Na cama fria do amante improvisado, uma mãe de 45 anos ergue-se para a vingança verbal que derrubará a pose do amigo do marido. Lygia é mestre nas vozes femininas, como no conto Natal na Barca, o menino ressuscitando diante de duas mulheres de aço e de um Deus bêbado, mas suas narrativas contemplam com igual talento dramas masculinos, como os irmãos competidores de Verde Lagarto Amarelo. Sem falar nos cães, galos, gansos e anões de pedra, seres portadores de um desespero profundamente humano. 

"Crachá nos Dentes", por exemplo, conto menos famoso do que "Anão de Jardim", ambos dos anos 90. Quem narra a história triste é um cão amestrado de circo, desses que para comer precisam, coitados, se exibir com um saiote de tule azul no picadeiro. O drama à primeira vista pertence ao reino animal, mas em rápidos parágrafos o leitor vai se recordando de quantas vezes por dia, da manhã à noite, também ele sente a inadaptação no corpo. Quantas vezes na vida é preciso dançar com roupas ridículas e ainda sofrer torturas do treinador, as pontas do cigarro queimando a carne, diante de um movimento de pernas mal-feito? A ficção esmera-se em metáforas da deprimente condição humana. É por isso que ela dá medo. 

Os contos que Lygia apresenta agora na Bienal do Livro de São Paulo, "Meus Contos Preferidos", são o melhor de si, os seus eleitos, os que passaram pela mais dura das seleções, a de uma autora exigente e em atividade por mais de seis décadas.