Em busca do amor e da guerra perdidos

Paulo Bentancur

Título: O deserto dos tártaros
Tradução: Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 256

Título: Um amor
Tradução: Tizziana Giorgini
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 288

Dino Buzzati é conhecido no Brasil por um livro, O deserto dos tártaros, o que não o torna, claro, um escritor conhecido. Assim, a oportunidade que a Nova Fronteira nos dá, relançando, além de O deserto..., Um amor, em edições caprichadas, deve ser aproveitada para uma leitura talvez inaugural deste importante autor italiano em terras que até agora curtiram mesmo Umberto Eco, Italo Calvino e, um pouco menos, Alberto Moravia.

Comecemos pelo fim, e o fim é Um amor, romance da maturidade de Buzzati (1906-1972), publicado na Itália mais de 20 anos depois do pesadelo da espera no forte Bastiani. Quando sai Um amor, Buzzati já fez fama. Na Itália, porque no Brasil ressente-se de alguma desconfiança, como se se tratasse do autor de um livro só.

Prolífico nos gêneros (jornalista por quase quatro décadas, ficcionista, poeta, dramaturgo, autor de libretos de ópera e, além das letras, pintor), esse filho natural de Belluno mas adotivo de Milão – onde passou grande parte de sua vida – refletiu nas escuras tintas de sua prosa, sempre no limite da poesia, as inquietantes faces do absurdo, num primeiro momento, e do neo-realismo, num segundo.

Este segundo e derradeiro momento se mostra sem defesa em Um amor. O purgatório amoroso de um homem de meia-idade em torno de uma jovem prostituta que o submete a um consentimento muito caro, que além dos custos mais previsíveis onera-se pela série interminável de humilhações impostas.

Um amor resulta, afinal, numa espécie de desfecho para o qual os protagonistas de Buzzati encaminham-se quase sempre. Uma promessa vã de vida, uma promessa ansiosa e tormentosa que depois de muita luta – luta paradoxal, sem ação alguma, sobretudo no caso d’O deserto... – reconhece a derrota de que a busca foi menos busca que espera e a espera foi somente os ilusórios sinais que brotam da solidão que a todo custo busca desmentir-se.

Falando em espera e em solidão – palavras barateadas por uma subliteratura recorrente –, O deserto dos tártaros é o ápice, embora pertencente ainda à primeira fase do romancista, dessa angústia cristalizada na alma pedregosa das personagens. Aí um jovem tenente é designado para servir num remoto forte de fronteira, e recebe a missão como quem tem a súbita sorte suprema de vigiar e em seguida enfrentar um inimigo tão poderoso quanto imponderável.

Pois é exatamente essa imponderabilidade que cria o poder do inimigo pressentido e, ao mesmo tempo, a fraqueza do oficial. Passam semanas, meses, anos. O inimigo não vem. A ameaça não se cumpre e, no entanto, ao invés de alívio, sobrevém a indescritível frustração de quem mergulhou fundo numa campanha inútil.

Inútil não é bem a idéia. Uma vida pode ser tudo, menos inútil. Um amor que não se cumpre, uma batalha que não se trava: eis os indícios que Buzzati recolhe do desfile imperturbável dessa fantasmagoria em que ele transforma situações, figuras e cenários. Na força de suas descrições bem se vê que não por acaso ele também foi pintor (e nada medíocre). Na contemplação inquieta e contraditória – porque paralisada – de seus personagens principais, marcados por uma impossibilidade que não se anuncia nunca mas se confirma sempre, a cada novo movimento, o romancista desmente qualquer aceno, mesmo os pretensamente existencialistas.

Buzzati foi comparado a Kafka. Nem tanto. Kafka criou situações de um humor grotesco inédito e seus pesadelos passaram a fronteira pequeno-burguesa na qual Buzzati parou para cutucar sem pressa.

Buzzati foi chamado de “menos profundo do que parece” por Otto Maria Carpeaux, em sua História da literatura ocidental. “Mas acerta sempre.” As ratoeiras em que suas figuras impotentes se digladiam não parecem armadilhas à primeira nem à segunda vista. Nem mesmo o forte Bastiani, à mercê mais da indiferença do que às ásperas e inexpugnáveis montanhas e ao deserto que revela tão frontalmente um vazio que mais encobre que mostra.

A mediocridade talvez seja a grande ameaça e o inimigo – os tártaros, de uma violência que a fantasia mais dolorosa leva para muito além do que a experiência pode comprovar, ou o amor que torna todo o universo menor que o corpo e a alma insondáveis de uma mulher –, esse inimigo jamais se anuncia nem pode ser provado. E ainda assim, há derrota. Da pior.

PAULO BENTANCUR é escritor, autor de Instruções para iludir relógios e Frio, para adultos. E da coleção Brincando de Pensar, para pré-adolescentes. Atualmente trabalha numa biografia de Erico Verissimo.