Dino Buzzati
é conhecido no Brasil por um livro, O
deserto dos tártaros, o que não o torna, claro, um escritor conhecido.
Assim, a oportunidade que a Nova Fronteira nos dá, relançando, além de O
deserto..., Um amor, em edições caprichadas, deve ser aproveitada para uma
leitura talvez inaugural deste importante autor italiano em terras que até
agora curtiram mesmo Umberto Eco, Italo Calvino e, um pouco menos, Alberto
Moravia.
Comecemos
pelo fim, e o fim é Um amor, romance
da maturidade de Buzzati (1906-1972), publicado na Itália mais de 20 anos
depois do pesadelo da espera no forte Bastiani. Quando sai Um
amor, Buzzati já fez fama. Na Itália, porque no Brasil ressente-se de
alguma desconfiança, como se se tratasse do autor de um livro só.
Prolífico
nos gêneros (jornalista por quase quatro décadas, ficcionista, poeta,
dramaturgo, autor de libretos de ópera e, além das letras, pintor), esse filho
natural de Belluno mas adotivo de Milão – onde passou grande parte de sua
vida – refletiu nas escuras tintas de sua prosa, sempre no limite da poesia,
as inquietantes faces do absurdo, num primeiro momento, e do neo-realismo, num
segundo.
Este segundo
e derradeiro momento se mostra sem defesa em Um
amor. O purgatório amoroso de um homem de meia-idade em torno de uma jovem
prostituta que o submete a um consentimento muito caro, que além dos custos
mais previsíveis onera-se pela série interminável de humilhações impostas.
Um amor resulta, afinal, numa espécie de desfecho para o qual os
protagonistas de Buzzati encaminham-se quase sempre. Uma promessa vã de vida,
uma promessa ansiosa e tormentosa que depois de muita luta – luta paradoxal,
sem ação alguma, sobretudo no caso d’O
deserto... – reconhece a derrota de
que a busca foi menos busca que espera e a espera foi somente os ilusórios
sinais que brotam da solidão que a todo custo busca desmentir-se.
Falando em
espera e em solidão – palavras barateadas por uma subliteratura recorrente
–, O deserto dos tártaros é o ápice, embora pertencente ainda à
primeira fase do romancista, dessa angústia cristalizada na alma pedregosa das
personagens. Aí um jovem tenente é designado para servir num remoto forte de
fronteira, e recebe a missão como quem tem a súbita sorte suprema de vigiar e
em seguida enfrentar um inimigo tão poderoso quanto imponderável.
Pois é
exatamente essa imponderabilidade que cria o poder do inimigo pressentido e, ao
mesmo tempo, a fraqueza do oficial. Passam semanas, meses, anos. O inimigo não
vem. A ameaça não se cumpre e, no entanto, ao invés de alívio, sobrevém a
indescritível frustração de quem mergulhou fundo numa campanha inútil.
Inútil não
é bem a idéia. Uma vida pode ser tudo, menos inútil. Um amor que não se
cumpre, uma batalha que não se trava: eis os indícios que Buzzati recolhe do
desfile imperturbável dessa fantasmagoria em que ele transforma situações,
figuras e cenários. Na força de suas descrições bem se vê que não por
acaso ele também foi pintor (e nada medíocre). Na contemplação inquieta e
contraditória – porque paralisada – de seus personagens principais,
marcados por uma impossibilidade que não se anuncia nunca mas se confirma
sempre, a cada novo movimento, o romancista desmente qualquer aceno, mesmo os
pretensamente existencialistas.
Buzzati foi
comparado a Kafka. Nem tanto. Kafka criou situações de um humor grotesco inédito
e seus pesadelos passaram a fronteira pequeno-burguesa na qual Buzzati parou
para cutucar sem pressa.
Buzzati foi
chamado de “menos profundo do que parece” por Otto Maria Carpeaux, em sua História da literatura ocidental. “Mas acerta sempre.” As
ratoeiras em que suas figuras impotentes se digladiam não parecem armadilhas à
primeira nem à segunda vista. Nem mesmo o forte Bastiani, à mercê mais da
indiferença do que às ásperas e inexpugnáveis montanhas e ao deserto que
revela tão frontalmente um vazio que mais encobre que mostra.
A
mediocridade talvez seja a grande ameaça e o inimigo – os tártaros, de uma
violência que a fantasia mais dolorosa leva para muito além do que a experiência
pode comprovar, ou o amor que torna todo o universo menor que o corpo e a alma
insondáveis de uma mulher –, esse inimigo jamais se anuncia nem pode ser
provado. E ainda assim, há derrota. Da pior.
PAULO
BENTANCUR é escritor, autor de Instruções para iludir relógios e Frio,
para adultos. E da coleção Brincando
de Pensar, para pré-adolescentes. Atualmente trabalha numa biografia de
Erico Verissimo.