O pátio dos telegramas

à Regina e ao Victor
" meus compadres"
dos raros que, sem equívocos, escrevem belas cartas 

        Ainda o calendário exibia atrasado o dia das mentiras quando o barco, que sempre chegava pela terça-feira, apitou três vezes à entrada da baía que, enrolando a cidade num abraço de afectuosas divagações, emprestava à tarde um desusado colorido e alvoroço, convertendo o acontecimento numa espécie de dia de descanso calendarizado para assinalar as virtudes da vida de algum santo. Assim se convivia ao tempo no pequeno lugar cravado entre a montanha a rondar o céu e o pardacento mar, esse miradouro a perder de vista, engendrado pasto da imaginação onde cada um desassossegava.
        Maria Teresa acabara de espreitar a rua da janela que dava para a praça quando a criada, vinda do pátio de onde se enxergava o ancoradoiro, lhe sussurrou:
        - É para si menina!
        - Uma carta?
        Maria Teresa esforçou-se por aparentar surpresa quando, na verdade, aguardava por esse momento desde a noite da partida do vapor "S. Miguel", um dia após o Carnaval. Olhando o nome do primo no subscrito, pousou o livro e, com a ajuda da colher que usara para o café - o pires e a chávena esquecidos sobre a mesa de pé de galo onde os primeiros malmequeres da estação aqueciam a saleta onde o sol entrava em tons de pastel - abriu-a devagar como se quisesse adiar a leitura. Os dedos alvos e magros acariciaram o papel, parecendo navegar por entre a caligrafia segura, porém, quase indecifrável.
        - Como consegues ler estes arabescos? - Perguntou para a criada.
        - O nome da menina está escorreito - e voltou a espreitar.
        Não adiando mais, leu:

"Funchal, 23 de Março de 1911

Querida prima:
Com saudades escrevo para contar a minha viagem.
Recebi todos os telegramas que mandou. O primeiro chegou às dez horas e vinte e oito minutos da noite. O último às onze e vinte e cinco. A todos respondi como pude, mas não sei se chegaram até si, pois o aparelho de que me servi era um tanto ou quanto primitivo. Usei uma das lâmpadas eléctricas da ré do "São Miguel" que cobria e descobria com o chapéu para responder aos sinais de luz vindos desde o pátio das traseiras. Vinham de si direitos até mim. Não sei se fui visto, diga-me se viu.
Estive no convés até às duas horas da manhã. Durante esse tempo velei pelo seu sono que, sabia sossegado, além das silhuetas das janelas. Dormia porque de luz nenhum sinal. Como o tempo estava mau o vapor apenas partiu às quatro da madrugada, chegando a Santa Maria às dez, e saindo às duas da tarde. Não desembarquei por temer as embarcações que levavam os passageiros até ao cais. Quando acostavam junto do portaló, o mar dançando, os pobres coitados eram literalmente encharcados pela onda e havia gritos. Decidi ficar a bordo. E do convés descobria o que a ilha mostrava. A meu lado, durante essa contemplação, estava uma senhora de Ponta Delgada com a qual estabeleci uma agradável conversa. Ela interrogou-me sobre o meu sotaque. Eu sobre o dela. Fiquei a saber que conhece a tia Margarida e, pelo que me foi dado entender, é dona do casarão nas margens da lagoa, próximo do qual tiramos alguns retratos. Lembra-se?
Enjoei à saída da ilha onde, segundo a senhora, Colombo, no regresso da América, aportou para reabastecer e rezar. Eu não rezei nem provei da água. O mar estava um tanto encapelado. Mesmo assim sobrevivi. Quanto à gentil senhora, não mais a vi, pois recolheu ao camarote, onde passou a viagem em regime de clausura. Viajava com uma criada que, de quando em vez, subia e, a quem por ela perguntava, invariavelmente respondia: muito mal, vem passando muito mal com este mar.
O dia de Domingo passou bem, mas triste. De momento em momento consultava o relógio para ver o que, aí, estava fazendo por aquela hora. Assim fiquei mais distraído. Quando chegamos ao Funchal amanhecia. Parece um presépio.
Adeus, até Lisboa.
Um abraço para os tios. E aceite um ainda mais apertado do primo, 
Marcelo

P.S. Próxima de mim, uma inglesa está fumando e bebendo Whisky. Enjoa a tabaco que é uma peste."


        O silêncio apoderou-se da exígua sala povoada de retratos. Um deles era de Marcelo. Vestia sobretudo e sobre a cabeça trazia um chapéu que ela sabia ser azul-marinho pois testemunhara o momento, junto da pequena igreja de Nossa Senhora da Vitória, na lagoa das Furnas. Era uma manhã de sábado. Uma dessas manhãs que trazem sobre a superfície das águas, picos, nuvens, arvoredo ? os tons da melancolia. Como ela se lembrava do sorriso luminoso do primo e do sol ardente. E por momentos o retrato pareceu um cortinado abrindo-se lentamente em movimentos delicados sobre os seus olhos da cor dos cedros e das algas da lagoa. Estavam sentados sobre a erva e ele atirava pequenas pedras para a água. Formaram-se círculos, uns após outros, ondulados como cabelos. E sorria. Inocente. A rapariga, a mesma que há pouco trouxera a carta, estendera a toalha sobre o chão. A cesta de vimes com o assado de borrego estava na charrete, à sombra, e a outra, com pratos e talheres e copos, estava ali, junto de tia Madalena que, zelosa, espreitava os movimentos da criada.
        - Vê se te maneias, criatura, os meninos querem almoçar. 
        Marcelo estendia o olhar pelas cercanias à cata de flores enquanto a prima parecia adivinhar-lhe o pensamento.
        - Porque não fazemos um jogo?
        - Que jogo sugeres meu primo?
        - Eu cubro seus olhos com um lenço, depois descrevo-lhe flores, e às minhas indicações, vai tentando adivinhar os seus nomes. Quer?
        - Sim! - Disse sem hesitar e, após uma pausa, avançou - Mas além da descrição das cores, da forma das pétalas, queria indicações sobre o seu perfume.
        - Perfume? 
        - Por que não? - Ainda acrescentando - O que sente a sua alma perante o perfume de uma flor.
        - A prima quer-me a recitar...
        O céu estava como o mar e não havia nuvem ou brisa. Os verdes abundavam: criptomérias, fetos, plátanos, azáleas, conteiras, hortênsias. Um infinito silêncio maior que a luz. Tranquilo como a expressão da mulher que, repentinamente, retirava o chapéu e desfazia o nó que abraçava o lenço amarelo à palhinha. Então, Marcelo abeirou-se, cuidadoso e meigo, quase infantil, escondeu-lhe os olhos sob o amarelo do lenço longo que agora lhe caía sobre as costas. Ela, num amável gesto, abriu os braços como querendo enlaçar aquele mundo mágico estendendo-se pelo vale. Que essências amaciam o coração? Deus continuava condescendente e generoso para com aqueles rochedos fundeados nos abissais e escuros fundos do oceano. Quando arrefeceram as lavas que escorreram dos vulcões, tinham-se formado crateras enormes a que os habitantes davam o nome de caldeiras. Umas eram secas, abundantes de bagacinas e rara vegetação, outras, lagos de água fria, apelidados de lagoas. Isto ocorria pela cabeça de Maria Teresa quando Marcelo lhe perguntou:
        - Prima, diga-me que flor é esta: aparece pelo vale e pelos caminhos da ilha, cheira ao orvalho da manhã...
        Ela, sorrindo, pergunta:
        - Que cor tem?
        - Tanto é da cor do céu como pode ser da cor das nuvens.
        - Hortênsia! Só pode ser a hortênsia.
        A flor que ele descrevera era uma hortênsia. Abriam-se pelo vale parecendo alvos novelos de lã, ou sendo azuis, os olhos da Terra. Ou ainda, menos frequente, rosa. Como toucado de menina. As folhas verdes pareciam recortadas por mão de fada. E forte o caule. Como a terra que lutou contra a raiva dos vulcões.
        Tão absorvidos estavam que não ouviram o chamamento para o almoço.

        A cidade revigorava-se com a chegada do vapor. Outra luz, outro contentamento. E quando a rapariga voltou a entrar na saleta, apenas disse:
        - Menina, o vapor está a entrar...
        - O vapor? Pois, o vapor!... - Disse por dizer.
        Tão cativa estava às recordações do primo e da sua estadia que continuou com o olhar nos retratos, enquanto um fino fio de luz entrava pelas janelas, com o burburinho nervoso dos micaelenses dirigindo-se para os Portões da Cidade. O livro permanecia sobre o colo, as mãos caídas no regaço, a carta sobre a mesinha do café. A carta de Marcelo aprisionava-a. E os telegramas que enviara, ainda os que dele recebera. Nada teria sido possível se o mar fosse distante.
        - Menina venha ver como é bonito o vapor. Há tanta gente no paredão à espera. Venha...
        Perante a insistência da criada, levantou-se, atravessou o corredor como suspensa do alto, enquanto a rapariga, num nervoso miúdo, continuava:
        - Hoje é o segundo vapor.
        - Oh! Rapariga, mais parece um faroleiro.
        - Troça de mim, mas se não fossem os vapores, não chegavam cartas à ilha...
        - O que pensará quem te ouvir?!... 
        Quando alcançaram o pátio a embarcação apitou e um fumo negro saiu das chaminés. Tão próximo estava que Amélia, assim se chamava a criada, julgou que se estendesse os braços haveria de tocar nas mãos dos passageiros debruçados no convés.
        - É estrangeiro, menina?
        - Sim! - Afirmou com paciência, depois revelou - Americano!
        - Quem pudesse desaparecer num vapor igual - E os seus olhos diziam-se presos da viagem. Depois, perguntou -         Como sabe que é americano?
        - Pela bandeira que traz à ré.
        - Ré?... As coisas que a menina sabe.
        Regressou ao seu sonho guardado em segredo dentro do peito, porém, a criada parecia roubar-lhe o gosto da divagação.
        - A menina lembra-se da noite em que ficamos a mandar recados para dentro do vapor do menino Marcelo?
        Maria Teresa relembrou todos os minutos daquela noite de Março como fita de cinema, um a um, como quando na companhia do pai, em Paris, assistiu à projecção da coroação do Rei Jorge de Inglaterra, porém, agora a heroína chamava-se Maria Teresa. Amélia segurava no candeeiro, enquanto que ela com o xaile tapava e destapava, lentamente, para não apagar a chama, o vento crescera e, se a criada o não segurasse, Marcelo nunca teria recebido as mensagens. Quando de bordo começaram a chegar aqueles sinais trémulos de luz, foi uma alegria, depois a dúvida: seriam do primo? Ou seria um tripulante? Só poderiam ser do primo e agora a carta confirmava-o.
        As traseiras da casa davam para a baía, a frente para a praça das duas igrejas onde, ao centro, uma árvore secular tudo ligava. Abandonando o camarote sobre a baía, regressou à saleta onde a praça se enxergava. Olhou da janela a árvore sem nome, enorme, e pensou que nunca a vira despida. Recuou até à mesinha, a carta parecia esquecida. Olhou os malmequeres, os primeiros a chegar do campo, retirou um da jarra, com ele acariciou o rosto, os lábios ao de leve, depois extraiu pétala após pétala, em silêncio. O olhar, ora no subscrito, ora na árvore da rua. O cortinado, levado pela aragem fresca, afastava-se em delicados movimentos deixando vislumbrar a praça e a árvore. E os ruídos outra vez. Gente para o cais, gente descobrindo a praça, vozes estranhas como o estranho amor que, desde a chegada do primo, habitava a sua alma e, partindo, a deixara como o malmequer esmagado que atirara pela janela. Com a mão segura apanhou o subscrito, rasgou-o. De seguida, correu às traseiras e deixou o vento levar mil sonhos, mil pedacinhos de papel. Pareciam pétalas de malmequer levadas pelo vento.         Entrou no quarto de onde o mar se via, e escreveu:

"Ponta Delgada, 2 de Abril de 1911

Primo:
A sua carta chegou há pouco. Todos nos alegramos em saber de si.
Quando esta estiver em suas mãos, terá regressado para os seus, ao seu Rio de Janeiro. Poderia aguardar mais uns dias para escrever-lhe, ainda andará em viagem, porém, apresso-me, porque um lamentável equívoco se instalou entre nós, ou melhor, em si. Na verdade achei divertida a sua carta e deliciosa a história dos telegramas, no entanto confesso: não fui eu a remete-los para bordo, mas sim Amélia, a criada. E mais divertido ainda porque, na manhã seguinte à sua partida, veio acordar-me radiante, dizendo que o seu Alfredo, um tripulante do "S. Miguel" que conhecera na praça das duas igrejas, lhe respondera aos sinais de luz.
Há pouco chegou outro vapor, onde vinha o Luís. Creio ter-lhe falado, estuda medicina em Coimbra e vem passar uns dias às Furnas. Está muito doente o infeliz. Os versos - cheguei a ler-lhe alguns dos seus sonetos - deixaram-no esquecido do mundo.
Recomendações para os tios.
Um abraço da prima,

Maria Teresa"


        Dobrou o papel em duas partes, meteu-o no envelope, escreveu o nome e morada do destinatário. Os lábios colaram demoradamente o subscrito. Depois, abeirou-se do pátio das traseiras e deixou-a, tal como fizera à dele, mas não em mil pedaços, ser guiada pelo vento. Recolheu-se em lágrimas junto dos malmequeres. Os parentes nos retratos só tinham olhos para ela, desfeita, arrependida. Gritou por Amélia, quase em delírio, porém, demorava. Correu em sua procura não atinando com as portas. A criada pasmara com o vai e vem do ancoradoiro, as cores do navio americano, imaginava a sua viagem, via-se no cais deixando a ilha, os achaques repentinos da patroa, os tostões contados, a pequenez da terra, o cerco onde habitava apartada do mundo, sem saber como e o que sonhar. Com um grito acordou.
        - Vai, criatura, depressa...
        - Onde menina, onde?
        - Vê se encontras uma carta que atirei ao vento.
        - A que recebeu do menino?
        - Não, infeliz, uma que acabo de lhe escrever.
        - Como a irei encontrar? - Pergunta, pasmada.
        - Não sei... pelo nome dele, sim, pelo nome dele.
        Amélia não corria, voava. Desceu as escadas como novelo de lã ou borboleta, avançou por entre a multidão com os olhos presos na calçada, depois para as mãos deste ou daquela. Corria, abrandava, olhava para trás, voltava a progredir entre o vai e vem das saias roçando sensualmente o chão, voltava a procurar na distância o vulto de Maria Teresa na varanda do pátio, nada. Em casa, desfeita, arrependida, vagueava entre a janela da saleta e o pátio como se aguardasse, não a criada, mas alguém batendo à porta com a carta, e pensava: "como, se nem o remetente escrevi?".         Quando bateram à porta, correu, louca.
        - Como estás, Maria Teresa? - Perguntou um rosto alvo de olhos mais claros que os dela, cabelos soltos e loiros e finos.
        Gelaram as mãos e dançaram as pernas como as canas da beira-mar, a voz estava perdida, segurou-se à porta até conseguir reencontrar a sua voz e, por fim, exclamou:
        - Luís... julgava-te em Coimbra!
        - Não me convidas a entrar?...
        - Desculpa, não esperava - não sabia disfarçar, a voz traía a surpresa, mas ao fim balbuciou - Mas entra, entra.         Que bom rever-te!

        Os cortinados da janela da saleta foram afastados para a luz avivar-lhe o rosto e os malmequeres, porém, as palavras não diziam dessa claridade que, da praça das duas igrejas, invadia o espaço e devolvia alguma vida aos parentes dos retratos. Só a ela parecia não iluminar e, quando viu Amélia à porta, de braços caídos, arfando o peito enfezado, se voltou para a árvore da praça, e disse:
        - Hoje pareces mais verde, mais senhora...
        Luís olhou a criada, esta buscou uma expressão acanhada, um tanto aparvalhada, nada dizendo pois nada entendia.
        - Que fazes aí especada à porta, alguém te chamou?
        Ainda não alcançando as palavras, a criada só foi capaz de soletrar:
        - Verde?...
        - Não, não quero verde, antes preto, um chá preto!
        O silêncio voltou à saleta e passaram uma vez mais a serem audíveis as gargalhadas dos parentes mortos, os queixumes dos malmequeres e, cortante como o gelo, o apito do navio afastando-se, provocando de imediato um olhar longo para o retrato do primo e, à pergunta "teria apanhado a carta?", nenhum dos parentes respondeu. Não sabendo mais esperar, desculpou-se com a demora da criada e deixou a saleta e foi à cozinha, de lá seguiu até ao pátio onde a rapariga espionava o quintal do vizinho, aí se confrontou com o que temia.
        - Nada, menina, nem sinais do envelope...
        - Não pode ser... mas que fazes tu em cima desse muro?
        - Talvez o vento a tivesse plantado no jardim do lado...
        Voltou para o poeta doente, porém, a pálida cor do seu rosto denunciava desassossego, levando de imediato a que Luís questionasse:
        - Não se sente bem?
        - Cansada, toda a manhã foi uma correria...
        - Não deveria ter vindo sem avisar, prometo que virei mais tarde - disse, levantando-se.
        - E o chá?... - Perguntou Maria Teresa à falta de palavras.
        - Por agora não, amanhã... porventura - disse e, sem se despedir, afastou-se.
        Não houve outro chá nem outra visita pois nessa mesma tarde seguiu para as Furnas de onde não voltou a sair, porque passava os dias escrevendo para se esquecer das velhas vielas de Coimbra, dos humores imprevisíveis dos mestres, da valentia dos colegas, dos seus sonetos desconsolados esquecidos sobre o tampo da escrivaninha na "república" aonde não pretendia regressar, por isso escrevia, queria reescrever todos os sonetos, horas a fio, nada comendo e também nada dormindo, a doença encurralando-o nas quatro paredes que o apartavam do mundo, não padecendo do corpo mas do espírito, isolou-se de tudo e todos, da própria luz do dia que aparecia e desaparecia sem que notasse, a noite avançando, uma silenciosa e impiedosa e infindável noite dos mortos, nascia um novo dia mas não para ele que, repetitivamente, só enxergava os versos, aperfeiçoando a métrica do soneto até que encontrada a música capaz de comover a sua alma e, quando pelo terceiro dia de solidão, soaram pela casa as três pesadas badaladas da tarde, despiu-se e deitou-se sobre o chão de madeira encerado, nu, olhos no tecto, adormecido.

        A notícia chegou à casa da praça das duas igrejas pelo início da noite, sem meias palavras: Luís fora encontrado sem vida sobre o soalho da sala grande, pelos avós, às cinco da tarde. A sua mão esquerda segurava um crucifixo deitado sobre o peito, a direita um velho revólver e, a seu lado sobre o chão, uma bíblia aberta na epístola de São Lucas relatando a morte de Cristo:

        "Por volta da hora sexta, as trevas cobriram toda a terra, até à hora nona, por o Sol se haver eclipsado. O véu do Templo rasgou-se ao meio, e Jesus exclamou, dando um grande grito: "Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito". Dito isto, expirou".

        Na manhã seguinte, a caminho das Furnas, mergulhada em dolorosa e profunda mudez, passando nas margens da lagoa, Maria Teresa olhou para as flores sem as ver, seguiu o voo dos pássaros sem dar conta do rumo que tomavam, atendeu no rumor das folhas das árvores sem ouvir, pois que só escutou vinda das águas uma voz envolta em murmúrios que lhe descrevia na sensibilidade própria das palavras medidas: hortênsias, azáleas, margaridas, malmequeres. Uma segunda voz se misturou, menos nítida é certo, porém, familiar, recitando versos que ela conhecia. E pela primeira vez, quando as lágrimas lavaram o seu rosto marcado pela dor, sentiu medo e achou-se só.

        As razões da carta para o primo negando a autoria dos sinais mandados para bordo do vapor "S. Miguel", perseguiam-na; o estranho suicídio do poeta e que todos consideravam seu noivo, tiravam-lhe a alegria da estação; ainda a partida de Amélia, sua cúmplice, que assustada com o cerco da ilha decidira partir no primeiro vapor que demandou a baía. Por tudo isto, também ela, haveria de seguir para o ancoradoiro com o propósito de não regressar nunca mais às Furnas nem ao pátio de onde se enxergava o mar e sonhava o mundo.
        Assim falou aos pais e assim fez.

        Quando na véspera de partir para Lisboa, primeira escala de uma viagem que a levaria por uma Europa entristecida e onde já se adivinhava o cenário em que haveria de mergulhar por vários anos, e voltando do lançamento do livro "Infinito Tempo", versos do poeta morto por volta da hora sexta, uma carta a esperava na mesinha da saleta. O primo Marcelo acusava a recepção da missiva sem remetente, lamentava o triste equívoco dos telegramas, mas alegrava-se pela pobre Amélia.
        A praça das duas igrejas deserta. A árvore secando doía-lhe. Retirou da jarra um malmequer, e em silêncio, desfolhou-o.


IVO MACHADO nasceu na Ilha Terceira em Outubro de 1958. Estudou em Angra do Heroísmo, Ponta Delgada e Lisboa. Em 1987 deixou as Ilhas para se fixar no Porto.
Publicou: Poesia – Alguns Anos de Pastor, 1981; Três Variações de Um Sonho, 1995; Cinco Cantos Com Lorca e Outros Poemas, 1998; Adágios de Benquerença, 2001. Teatro – O Homem Que Nunca Existiu, 1997. Novela – Nunca Outros Olhos Seus Olhos Viram, 1998.
O Compositor e Musicólogo Fernando Lopes-Graça musicou em 1983 sete poemas do seu livro Alguns Anos de Pastor, intitulando a obra de «Sete Breves Canções do Mar dos Açores», ocorrendo a primeira Audição Absoluta em 1985, no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, interpretados pela Mezzo-Soprano Dulce Cabrita e pela Pianista Olga Prats. Estes poemas – bem como os de Antero e Nemésio musicados pelo compositor – encontram-se reunidos na colectânea «Lira Açoriana», editada em 1992, pela Direcção Regional da Cultura do Governo Regional dos Açores.