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Nunca fui de meditar. Horas que me vazavam eram horas que me destruíam. É, já penei na vida. Houve um batalhão de pessoas que me ditaram o que fazer sem nunca perguntar se aquilo me fazia sentir iluminado. A vida naquele tempo era uma parede cheia de pregos batendo na cabeça. Certeza, fui ao túmulo das ruínas, bem diferentes das clássicas. Até que encontrei as escadas no fundo do penhasco. Subi, subi, subi, como se o fogo fosse o primeiro desejo. Labaredas nas paredes do que fui de ruína, paradoxalmente transformada em escada. E subi, até encontrar o que não sabia haver. 

Ontem, no meio da noite, bebi toda a vodca. Senti-me inteiro e leve. Bão, balalão. Deitei-me no granito salpicado - um monte de rostinhos dolorosos nele, prisioneiros da pedra -, abri os braços, pendi a cabeça, cruzei a perna. Sobre o mundo do inferno da pedra, ouvi a própria voz roncando. João Sebastião imitando uma craviola, enquanto colhia flores no regato do coração leve. Olhei tudo aquilo, acreditando não estar ali. Nada mais de ruínas gente paredes penhascos fogo. 

Quando dei por mim, era o eclipse. A tartaruga que me roía as entranhas há muitos anos decidira mirar a sombra. E comecei a ouvir o estranho som de sua eternidade, como se uma vaca imitasse a terra dentro de si mesma. Eu, que já não estava ali mesmo, deixei-me distanciando, distante.

JORGE PIEIRO nasceu em 1961, em Limoeiro do Norte (CE). Está professor de Literatura, mestrando em Literatura Brasileria (UFC) e sócio-diretor da Letra & Música Comunicação Ltda. Publicou Ofícios de desdita (novela, 1987), Fragmentos de Panaplo (contemas, 1989), O tange/dor (poemas, 1991), Neverness (poemas, 1996), Galeria de murmúrios (ensaio, 1995) e Caos portátil (contos, 1999). Possui contos, crônicas, ensaios e resenhas publicados no jornal O Povo, de Fortaleza - do qual é articulista -, e em outras publicações nacionais e estrangeiras. Integra as antologias Geração 90: manuscritos de computador (Boitempo, 2001), Geração 90: os transgressores (Boitempo, 2003), Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê, 2004), Antologia de contos cearenses (FUNCET/Imprensa Universitária / UFC, 2004. Estes contemas fazem parte de Entropia com estatuetas, no prelo.