O Conto

Ainda me lembro bem daquela tarde de abril. Depois de passar duas semanas no Algarve e outras partes de Portugal e Espanha, retornava à Bretanha que estava agora toda aberta em flores. A caminho da universidade passei pelo Chêne des Anglais e não pude deixar de me influenciar pelo milagre que a primavera é capaz de produzir todos os anos. Nantes havia mudado totalmente de roupa, agora muito mais carnavalesca e alérgica. E isso tudo acontecera em apenas duas semanas de ausência. Muito ágil e esperta essa nossa mãe natureza.

Para comemorar tal mudança, decidi dar uma guinada de 180 graus no meu curso de língua escrita e ensinar algo sobre criação literária (se é que isso se ensina). Mas a verdade é que precisava mudar pois assim como a natureza dá mostras de que a mudança é essencial para a renovação espiritual do indivíduo, também nós educadores devemos seguir o seu exemplo.

Anouk chegou tarde à aula, como de costume. Sentou-se ao lado de Marie Christine logo na primeira fileira e mostrou-se disposta a aprender alguma coisa sobre o assunto. Fez perguntas, tomou notas, deu provas de que as duas semanas de férias tinham lhe sido boas. Fizemos uma breve discussão sobre gêneros literários e caímos logo no « conto », justamente o assunto que desejava discutir, já que havia previamente preparado uma lista de citações sobre definições de conto feitas por vários mestres do gênero: Poe, Cortázar, Machado de Assis, Deonisio da Silva, Eikhenbaum entre outros.

Os alunos ouviam atentos à definição de Cortázar de que um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta.

Foi então que, por coincidência, começou a tempestade que explodia contra a vidraça da janela atraindo imediatamente a atenção de Anouk e quebrava esta miserável história que conto. Tentei em vão trazê-la de volta à aula, porém as forças do vento e da chuva eram mais fortes do que as minhas palavras. Apelei para as citações de Poe, Eikhenbaun e Machado de Assis. Tudo em vão. A viração do tempo deixara-a com os olhos fixos na janela e o olhar perdido de quem se deixa cair livremente no abismo da alma. E como é que podemos resgatar alguém que se precipita por esse abismo? A alma é cheia de veredas desconhecidas do próprio homem. Deixei-a mergulhar ainda mais fundo e voltei à citação de Cortázar… o tempo e o espaço do conto tem de estar como que condensados, submetidos a uma alta pressão espiritual e formal para provocar essa abertura. E olhei para Anouk pois ela, como o conto de Cortázar, estava com o seu tempo e espaço condensados e submetidos a uma alta pressão espiritual. Precisava somente talvez de algo que provocasse essa abertura da qual falava Cortázar. Uma conclusão, talvez? Todo bom conto necessita de uma boa conclusão. E Anouk não haveria de ser uma exceção. Apelei então para a citação do meu querido amigo de jornadas literárias, Deonisio da Silva, ex-seminarista e conhecedor íntimo de Santa Teresa D’Avila: Jesus foi um extraordinário contista… criativo e inovador em suas parábolas.

A tempestade cessara imediatamente. Nos vidros da janela só ficaram as gotas que corriam como lágrimas de abril. O sol que se abrira permitia que seus raios penetrassem na sala-de-aula. E Anouk foi assim voltando pouco a pouco do seu transe. Deixei-a recobrar consciência do tempo e espaço, o qual acabou se manifestando com um sorriso seu que se abrira para mim. Creio que ambos compreendemos então que aquele seu despertar seria a conclusão que eu buscava para o meu conto e nossa aula.

GLAUCO ORTOLANO é poeta, contista e ensaista. Nasceu em Americana, São Paulo e atualmente vive e trabalha nos Estados Unidos da América, lecionando na Universidade de Oklahoma. Publicou a novela "Domingos Vera Cruz" e o livro de contos "Sonhalidade"