Lília

Vladimir possuía uma lotérica havia seis anos. O negócio ia muito bem, as pessoas acreditavam que a sua lotérica realmente dava muita sorte (cinco apostadores já haviam feito a quadra da ULTRASENA e um, a quina), como declarava o nome na placa: LOTÉRICA LILI - A SORTUDA.

O nome, LILI, fora dado em homenagem a sua ex-mulher, Lília, que há seis meses vive com um outro homem, dono de uma banca de jogo do bicho.

O adjetivo, SORTUDA, apesar de eficiente como estratégica de marketing (Vladimir é bacharel em Publicidade e Propaganda, formado em uma faculdade particular da URSS - Universidade Rural de São Sebastião), deu muita dor de cabeça para o Vladimir. A molecada do bairro chamava a sua lotérica de LILI - A BOAZUDA. Realmente, Lili, além de “boazuda”, parecia ter um prazer especial em provocar a libido dos homens do bairro ao usar roupas curtas, saias convidativas e decotes inspiradores. Na verdade, dizem as más línguas que o Vladimir tinha muita sorte no jogo e pouca no amor. Lili, apesar de ninguém nunca ter provado, seria adúltera.

Agora, todas as noites, depois que fecha a LILI, Vladimir entra no seu Fiat Luxo e parte sozinho para casa, onde fica ouvindo, no rádio, as transmissões em ondas curtas e médias, um gosto que cultiva desde a infância. Gosta especialmente de ouvir uma certa rádio russa (pelo menos ele pensa que é russa, como eu também não entendo russo, não posso afirmar que sim nem que não, tovarish) que sintoniza no 69,6.

Certa noite, quando a LILI estava sendo fechada pelo Vladimir, um homem baixo, meio gordinho, com cara de pobre-diabo, usando uma enjoativa gravata amarela e portando uma flauta dourada aproxima-se resfolegante e: “Por favor, preciso fazer uma aposta. Preciso fazer uma aposta.” Vladimir, meio assustado, afinal era noite e não havia ninguém na rua, responde, polido: “Sinto muito, senhor, mas não posso fazer a sua aposta. Estou fechando a lotérica.” O homem, com olhos desesperados: “Mas o senhor não entende. Eu tenho os números. Eu sei que vou ganhar. Eu tenho os números.” Aquela mania de repetir as frases, coisa que o Vladimir sempre detestou, já estava deixando o ex-marido da LILI meio aborrecido com o sujeito. “Senhor, eu não posso fazer a aposta. Sinto muito. Semana que vem o senhor vem e joga nos seus números favoritos, ok?” O sujeito: “Ok é o caralho! Eu tenho os números que vão ganhar amanhã. Eu não posso deixar pra semana que vem, tá ouvindo, porra.” Uma coisa que o Vladimir odeia é gente falando palavrão. “Meu senhor, passar bem”. Falou isso e fechou a LILI. O homem da gravata amarela ergueu sua flauta, fê-la tremer no ar, o Vladimir ficou branco de medo, “Tás fodido comigo. Vê estes números (deixa um papel sujo e amassado nas mãos do Vladimir), amanhã se estes porras destes números (a repetição de novo!) forem sorteados, eu volto aqui pra te matar”. O flautista mágico, ou melhor, adivinho, disse isso e foi-se. Vladimir, pálido e mudo, viu o homenzinho sumir no meio da noite, e pensou, ele que não gosta de palavrão: “Tô fodido”.

No dia seguinte, sábado, diante do seu rádio, Vladimir ouve, com atenção e medo, o locutor anunciar o resultado da loteria: “Bateu (pavor), bateu (desespero), bateu (quase urinando), bateu (segurando o esfíncter), bateu (chorando), bateu (desmaiou)”.

Quando despertou, sobressaltado, Vladimir pensa em fechar “aquela porra daquela lotérica que só me deu azar, é o nome daquela puta que me dá azar, eu vou trocar o nome daquela porra, aquela safada só me deu azar, que merda! (começa a chorar) que merda! (logo ele que não gosta que repitam sempre a mesma coisa...) que merda! (...e que falem palavrão) que...” Toca o telefone. Tenta controlar-se. Atende, meio choroso: “Alô!”, um som fino, de flauta!, e: “Não falei, seu puto. És um homem morto”. Vladimir cai, como corpo morto cai.

Durante as três semanas seguintes, a LILI ficou fechada. Um cartazete na porta informava que: POR MOTIVO DE FORÇA MAIOR, LILI - A BOAZUDA (isto é coisa da molecada, só pode ser!) FICARÁ FECHADA POR TEMPO INDETERMINADO.
Nesse meio tempo, Vladimir ficara trancafiado na sua casa, nem atendia o telefone, as pessoas pensavam mesmo que ele havia morrido.
Vladimir, que era agnóstico, só tinha uma pequena superstição: carregava no bolso um dado de seis faces que ganhara do pai, seu Óssip. Vladimir acredita que o dado traz-lhe sorte, apesar de nunca tê-lo usado em qualquer espécie de jogo de azar. Na verdade, Vladimir nunca mostrou seu amuleto para ninguém, exceto para Lília, que um dia, furiosa porque o marido não a levara para o zoológico, o jogou (o dado) na privada.

Passadas as três semanas, Vladimir volta à vida normal, volta ao trabalho, ainda abatido e ressabiado, mas acreditando que o louco da flauta já se esquecera dele.

Entretanto, na sexta semana após a primeira aparição do gordinho da gravata, eis que o Vladimir está fechando a LILI e: “Boa noite, senhor!” Vladimir vira-se, trêmulo, já reconhecendo a voz de seu verdugo.

O homem da gravata amarela esquecera a flauta e agora porta um outro objeto, também feito com um cano metálico. Vladimir ajoelha-se e implora pela sua vida. “Calma, fica tranquilo”, diz o baixinho, “Calma, calma... Vamos deixar a coisa mais justa e mais emocionante: ao invés de te matar, eu vou te dar duas opções pra você sobreviver. A primeira opção é você pegar estes cinco números da ULTRASENA que eu sei que vão ser sorteados e mais estes dois números. Um destes dois vai ser o sexto número, o número que vai fazer você ganhar na loteria e sobreviver. A única coisa que você tem que fazer é escolher um dos dois números e esperar pelo resultado que sai amanhã, sábado”.
Vladimir, ainda de joelhos (o que lhe fez recordar de quando, no primário, fora colocado de joelhos no milho pela professora Catarina, a má), olha para o gordinho e pergunta, choroso: “E qual a outra opção?”

O gravatinha amarela abre um sorriso diabólico e: “A outra é simples: a gente faz roleta-russa. É uma bala, só uminha. São seis buraquinhos para as balas, mas só um abriga a passagem para o outro mundo. Você acredita em reencarnação? Já leu Chico Xavier?” Vladimir lembrou-se imediatamente do Doutor Xavier dos X-Men e de que, quando criança, acreditava que o Doutor Xavier, sabe-se lá porque, era inspirado no Chico Xavier... Teve vontade de girar seu dado da sorte no bolso e, quem sabe, transformar-se em um mutante, como o Colossus.

“Quero os números”, choramingou.

O flautista pistoleiro sorri malignamente e parte, deixando no chão o papelote com os números que antes havia mostrado para o Vladimir.

Nosso herói pega o papelote com uma mão e, com a outra, aperta forte o dado no seu bolso. Olha fixamente para os dois números que teria que escolher: 69 e 96. Gira no bolso o dado,
 3215634216543265432165462154264, tira-o do bolso: 6.

“Isso, porra! (o Vladimir desandou a falar palavrão, quem diria!), diz, levantando-se num pulo. É só fazer dois jogos. Um com 69 e outro com 96. É isso! (também deu pra repetir as frases, veja você!)”
No sábado, o Vladimir está na frente do rádio com os dois bilhetes na mão à espera do resultado. A sintonia está difícil, Vladimir, nervoso, briga com o dial, o locutor anuncia o resultado, um pastor expulsa um demônio, um cantor canta seus cornos, um locutor grita gol, Vladimir sua frio e sua mão continua um diálogo infrutífero com o dial... “Resultado do prêmio 6996 (meia nove, nove meia) da ULTRASENA...” Fiuiiiii! Flauta, flatulência, flagelo, flauteio: “Como é, bunda-mole, pensou que eu ia te dar essa moleza? Achaste que eu era um burro? Queria me enganar, né? Sifu!”

Vladimir derruba o rádio sobre a mesa e agarra seu dado com força.

No rádio, o caos das quatro estações: “Fuscão preto/Que destino traiçoeiro...”, “A ULTRASENA não teve nenhum vencedor...”, “Sai capeta, sai capeta...”, “Trocou o meu fuscão/Pelo amor de um motoqueiro...”, “45 do segundo tempo, um pênalti assinalado para...”, “Sai capeta...”, “Meu Deus do céu/Diga que isto é mentira/Se for verdade/Me esclareça por favor...”, “Gooooooollllll!!!!!”, “Repetindo os números da ULTRASENA...”, chiuichiuichiuichiuichiuiii...

“E então, vamo pra roleta?”

“Qual o seu nome?”

?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?

“Por favor, qual o seu nome?”

“Maya.”

“Vamos fazer a roleta-russa (Vladimir tenta mostrar segurança). Mas vamos usar um dado pro jogo. O número que der, vai ser a quantidade de disparos que o jogador vai ter que fazer. Se der seis...”
“Ok. Mas tu começa.”

Vladimir tira o dado do bolso e, lembrando da brincadeira que seu pai Óssip fazia com o dado, coloca-o apoiado sobre uma de suas oito pontas, dá-lhe um piparote e fá-lo girar como uma bailarina russa n’A Morte do Cisne: 162534615243ETC.

“3”

Vladimir: tlec (suor), tlec (lágrimas), tlec (sangue?).

“Minha vez.”

Maya joga o dado, agora sem aquele sorriso enjoativo, e quase poderíamos dizer que ele estava com medo.

Joga. A bailarina agora tropeça, tropica, atrapalha-se,
atropela-se, quebra-se, requebra-se,
132461364131563541241626413546...

“1!”

T (Vladimir vê) l (o tambor mover-se) e (lentamente) c!

“Tua vez.”

Agora restava apenas uma chance. 2 buraquinhos. 1 com a bala. Morte: log2 2 = 1 bit.

Ancudedêetc...

Lança, agora sem piparote, sem bailarina, sem lembrança, só fúria, só cegueira, só ele e as seis faces da morte...

1.

Vladimir ri e chora convulsamente, coloca o cano na boca e dispara.

O eco ressoa na boca e invade toda a casa: TLEC TLEC TLEC TLEC TLEC (ad nauseam)...

Maya sorri e, a plenos pulmões, declama: 

Como se diz
o caso está enterrado,
a canoa do amor
se quebrou no cotidiano.
Estou quite com a vida
inútil o apanhado 
da mútua dor 
mútua quota de dano.


PAULO DE TOLEDO, nasceu em Santos/SP há 33 anos. Tem poemas, contos e ensaios em sites especializados em literatura. É colaborador da revista de poesia Babel. Venceu o V Projeto Nascente (USP/Editora Abril), na categoria Poesia em 1995 e o I Concurso Binacional de Conto Brasil-México (2001), promovido pela revista brasileira Cult e pela Revista Cultural El Ángel, do jornal mexicano Reforma.