O lagarto

      Israel foi o primeiro a demonstrar alguma inquietação com o lagarto que se mexeu, do outro lado do rio, em algum ponto da mata. Eu, ele e Mauritano discutíamos, com fingida seriedade, sobre como poderíamos chegar à outra margem. Havia a ponte, mas já naquele tempo ela não dava sinais de confiança: era apenas um tronco de coqueiro em grande parte carcomido pela umidade, apodrecendo e já se deixando levar pelo rio largo e barrento. Estávamos bem no início dela, que ficava suspensa a cerca de seis metros acima do rio, eu podia ver os redemoinhos e me sentia bastante apreensivo, embora não soubesse - ou não quisesse admitir por quê.
      - Você está com medo de cair - disse Israel com o sorriso que ele trouxe de algum ponto da Colômbia, um lugar no qual eu pensava que ninguém sorrisse, de forma que tudo aquilo me parecia inverossímil. Ri com ele, mas com cinismo, desejando mostrar que achava tudo o que ele dizia uma piada insignificante. Por que eu teria medo daquele rio, se eu nascera quase ali nas margens, se eu crescera ali, tomando banho, deixando-me levar pelas corredeiras, aquelas mesmas que eu olhava abaixo dos meus pés, a seis metros de altura?
      - Acho que você está com medo. He he he - dizia agora Mauritano, que ao contrário de Israel, não possuía cabelos lisos, mas que tinha um jeito de sorrir de lado, com os braços longos, que iam quase até os joelhos, e as mãos grandes, e um jeito de olhar como se tivesse o tempo inteiro adivinhando o que nos ia ao pensamento. Ia mesmo dizer alguma coisa, ainda não sabia o que, quando Israel viu o lagarto mexer-se na outra margem do rio - e desaparecer imediatamente. Alertados por ele, não vimos, entretanto, nada mais do que o mato balançando, e o pé da jaqueira que se impunha solitário entre os coqueiros e o capim que refluía agitado pelo vento. Algumas folhas eram carregadas e depositadas por um sopro na superfície do rio. Mas não podíamos vê-las com nitidez na luz opaca do final da tarde, e eu me perguntava se adiantava de fato ir a algum lugar naquela hora em que todo mundo começa a voltar para casa, para acender os candeeiros e as velas, e as fogueiras. Mesmo porque o ambiente era um tanto selvagem, e não sei que tipo de bichos ferozes podia haver dentro do rio, ou nas suas margens.
      - Você tem medo. Você tem medo. Aquelas vozes eram como um eco do passado, da minha infância, quando me recusava a mergulhar no rio, entre meia dúzia de jacarés, entre as sucuris que, de vez em quando, saíam das profundezas para devorar cabras, galinhas, porcos e as crianças esquecidas pelos pais; e sempre me contavam, com um misto de espanto e horror, a forma como ela segurava suas presas com os dentes e as imobilizava com os músculos do seu corpo roliço; como as triturava lentamente para cobri-la depois com sua saliva, até que pudesse degluti-la, a não ser que os homens chegassem a tempo com seus terçados, mas que homens perderiam seu tempo andando pelas margens daquele rio? Que homens ousavam nadar naquele rio? 
      - Você tem medo. Você tem medo.
      As vozes vinham realmente da infância? Eu não podia ter certeza, mas eu via agora que Israel e Mauritano haviam mergulhado, e sem pensar duas vezes eu também mergulhei - não como eles, de cabeça, mas de pé, rezando para que nenhuma fera assomasse das profundezas escuras - até poder ver, também, na outra margem, o lagarto, da altura de um homem, que andava sobre as duas patas traseiras e era estranhamente colorido, como os calangros que eu matava, na minha infância, com o meu badogue. Ele perseguia um outro bicho, que escapou por pouco, desaparecendo entre o capim. Foi quando nos viu, e veio, lentamente, em nossa direção. O rio diminuíra de volume: era apenas um fio de água sobre o solo lodoso. Olhávamos para ele, que parou por alguns segundos diante de nós e me olhou com os olhos frios, inumanos; a língua bifurcada saiu por duas ou três vezes da boca, como se quisesse dizer-me alguma coisa. Ele queria falar, pude sentir isto com toda a intensidade; queria dizer-me alguma coisa, aquele animal. Por alguns segundos, tive a impressão de que era eu quem estava ali, querendo dizer alguma coisa. 
      O lagarto fez um outro gesto, mas achando talvez que seria inútil prosseguir, voltou-se e desapareceu, lentamente, rio abaixo, sem voltar-se uma única vez. Ficamos ali, paralisados, vendo-o desaparecer, pouco a pouco, até que seus contornos uniram-se ao do rio e das margens do rio, numa única mancha negra. Ficamos os três, agachados, na água, até que nos transformássemos num único homem - um homem que olha, através da janela de um apartamento, no segundo andar de um edifício, para a rua movimentada da cidade onde um dia, segundo informações de moradores antigos, passara um rio lodoso, infestado por jacarés e sucuris. Mas ninguém disse qualquer coisa sobre o lagarto que, vestindo um casaco marrom de golas altas e um chapéu de feltro atravessou a rua, à frente da janela, olhou-a num relance e desapareceu numa esquina, confundindo-se com as pessoas. O homem desceu correndo as escadas, atravessou a rua e correu até a esquina, mas nada pôde ver além dos carros e dos pedestres, que passavam. 


CARLOS RIBEIRO - Nascido em Salvador - Bahia, em 1958. Jornalista, ficcionista e Mestre em Literatura pela Universidade Federal da Bahia, é autor dos livros Já vai Longe o Tempo das Baleias (contos, 1982), O Homem e o Labirinto (contos, 1995), O Chamado da Noite (romance, 1997), O Visitante Noturno (contos, 2000), Caçador de Ventos e Melancolias: um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga (ensaio, 2001) e Abismo. (Romance, 2004). Participa das antologias Oitenta (1996) e Geração 90: Manuscritos de computador (2001). Tem trabalhos publicados em suplementos culturais e revistas literárias de Salvador, a exemplo de A Tarde Cultural, Revista da Academia de Letras da Bahia, Revista da Bahia, Exú e Qvinto Império. Em 1988 foi vencedor do concurso de contos promovido pela Academia de Letras da Bahia e, desde 1998, co-edita a revista de arte, crítica e literatura iararana.