O conto inacabado

       Concordo doutora a-hã sou sim ré de lesa-divina-majestade hã fuampa aqui acredita nele não ixe desde muito tempo puh memória caionga eh-eh 19 20 anos talvez; ah verdade a-hã abismo abaixo fiau! vida da piguancha aqui hã declinação apre vertentes íngrimes; logo-logo adeus viola mas banga! ligo não aliás doutora vontade prevalecendo hã menor interesse em continuar existindo seja de que jeito for huifa me faz bem pensar que sou finita eh-eh em toda a extensão da palavra; zerobilidade absoluta; neca neres de entrar na fila aquela em que ele seja quem for separa os eleitos dos réprobos; não senhora acredito também não jeito nenhum arre profissão cafangosa aie desacredito nela espécie humana fu! principalmente neles homens todos modo geral camunguengues esparvoados malambeiros; sim doutora sou biraia há quase duas décadas sim senhora; filho nunca não nenhum; a-hã verdade ixe achamparrado afaluado afuazado aldrabão eh-eh fregueses de todos os naipes; não nunquinha com todos os enternecimentos amei não doutora nunca-jamais; ah sim vi-participei duma penca deles esbofeteios disparos esfaqueamentos quejandos; veja ombro esquerdo aqui aie cicatriz até hoje dez anos depois; a-hã: navalha; cafrice daquelas; mas calafange aquele existe mais não huifa Nêmesis deusa da vingança cuidou dele; sim senhora verdade iniciei os passos nela vida de costumes lassos menina ainda 15/16 se tanto; huumm linda sim senhora apre hoje não fu! biscaia cangalha; sim doutora entendi: fui esbogalhada apiloada reduzida a pó de traque pela própria vida hã feito ele Sócrates fez com Meleto eh-eh; mas antes hum assim deles figurões devassos mandarins libertinos; a-hã sim senhora concordo: homens que acaso tivessem poderes sobrenaturais certamente seriam feito elas feiticeiras de Macbeth aquelas que se apoderavam dos ventos para vendê-los; a-hã: homens-numerários; desumanos; pelo menos enquanto estavam comigo puh desprovidos de compreensão tolerância solidariedade; ah doutora primeiros anos sim chorava meus pecados hã consciência ficava inquieta mas hoje fiau! fuampa aqui eh-eh alma calombenta ixe coração impenetrável trato todos os olhos com o mesmo colírio; sim senhora vida-potréia; pudesse ter escolhido ih seria nunca-jamais gente seria lagartixa ou pedra-pome ou besouro ou porta-lápis eh-eh consegui fazer doutora-oncologista esboçar sorriso maroto; seis meses de clausura hospitalar aie tinha visto não senhora sorriso nenhum aí nessa boca de palavras escassas; sim bem-lembrado ixe centenas delas noites-marafoneiras em claro bebendo fumando libertinando escangalhando de riso ou fechando carranca ou me lançando em profunda tristeza ou andando às ochas com tudo-todos; a-hã verdade doutora impossível escapar ilesa deles ataques gonocócicos; eh-eh sim senhora uma penca delas desflorações eh-eh rapazinhos modo geral aiuê! desenxabidez daquelas; alguns poucos não huifa minúsculas formigas muito trabalhadeiras; não nunca-jamais notícia nenhuma parentela toda puh neca neres deixei rasto nenhum deixei vestígio nenhum hã eclipse hã levei descaminho; melhor assim; primeiro homem foi ele tio Menelau apre papai descobriu ixe jogou mala vazia no chão dizendo colérico arruma aí zabaneira vamos nunca mais fale comigo marafaia vamos suma do mapa; rosto dele aie até hoje nela minha retina ixe máscara mortuária cruzes hã nos primeiros anos digamos prostibulares sonhava com ele meu pai no topo duma montanha gritando-gesticulando vem você consegue vem;

EVANDRO AFFONSO FERREIRA é livreiro, ex-proprietário do Sebo Saganara (São Paulo, bairro de Pinheiros). Livros publicados: Grogotó! (Editora Topbooks, 2000) — minicontos —, apresentado por José Paulo Paes; Araã! (Editora Hedra, 2003) — romance. Próximo livro: Erefuê (Editora 34) — romance —, com lançamento previsto para antes da Bienal, em abril de 2004. Colaborou nas revistas Novos Estudos, Et Cetera, Ficções, Ciência e Cultura, Coyote, entre outras.