Cem escritores e um desafio pequeno, 
mas nem tanto


Luciana Araujo
lucianaraujo@hotmail.com

"Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século"
Organização: Marcelino Freire
Ateliê Editorial
216 páginas

Com quantos paus se faz uma canoa? Bem, como diria um amigo meu, depende da cacetada que se quer dar. De alguma forma, "Os cem menores contos brasileiros do século", organizados pelo escritor Marcelino Freire, faz lembrar esta relação entre quantidade e impacto.

De um lado, o livro traz contos de até 50 letras. Sim, só isso. De outro, reúne 100 nomes de gente de diferentes cantos do país. O que não parece tão pouco para um recorte feito sobre um intervalo de tempo tão breve. No caso, o século XXI.

Ditos populares, frases de caminhão e ideais de composição presentes em frases como: "escrever é cortar palavras", de Carlos Drummond de Andrade; e "enxugar até a morte", de João Cabral de Melo Neto, e em trabalhos como o do escritor Augusto Monterroso, entre algumas das fixações de Freire, o inspiraram a concretizar esta idéia.

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá". Este conto de apenas 37 letras escrito por Monterroso não só é destacado na apresentação da "microantologia", como também é a referência textual da criação de Joca Reiners Terron, um dos autores convidados:

"O Pesadelo de Houaiss"
Quando acordou,
O dicionário ainda estava lá.


"Os cem menores contos brasileiros do século" também faz referência à antologia organizada por Italo Moriconi, "Os cem melhores contos brasileiros do século". Evidência presente no projeto gráfico de Silvana Zandomeni e que pode ser conferido na capa acima.

E como a comparação entre a brincadeira proposta por Freire e o esforço de pesquisa realizado por Moriconi, se não impossível, é ao menos descabida, o diálogo entre um trabalho e outro se dá numa paródia divertida, inclusive com a participação do próprio Moriconi. "São pílulas ficcionais, e das melhores", escreve ele em seu prefácio de 50 palavras.

Com sua licença, receitaria, entre tais pílulas, a de Manoel de Barros:

"Amor"
Maria,
quero caber todo em você.


E a de Menalton Braff:

"Crepuscular"
Pegou o chapéu, embrulhou o sol,
então nunca mais amanheceu.


Sim, porque de fato alguns dos contos "são pílulas ficcionais", na medida que conseguem, por meio de velocidade narrativa e concentração dramática tamanhas, "nocautear" o leitor - características apontadas por Julio Cortázar em sua definição de conto e que na leitura que fiz, identifiquei e julguei apenas por um critério de gosto. Afinal, bem ou mal, 100% dos convidados deram cabo de um conflito sem ultrapassar 50 letras.

Como o limite não valia para título, pontuação e espaço, mesmo seguindo a regra, Millôr Fernandes deu a sua narrativa uma cara de exceção. Veja só o título de seu conto de duas linhas: "Emocionante relato do encontro de Teodoro Ramirez, comandante de um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do caribe, no momento emocionante em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do sul da Flórida, para dinamitar a alfândega local, e procurou forçá-la a favores sexuais".

Ao que tudo indica, "Os cem menores contos brasileiros do século" querem divertir e não suscitar uma grande investigação literária. Entretanto, o livro também tem qualquer coisa parecida com um catálogo da Avon. O leitor tem uma pequena amostra do que escreve um punhado de gente, como a consumidora tem a seu dispor uma foto da embalagem do creme X ou Y.

Não tem jeito, é preciso se arriscar e comprar o produto e experimentá-lo na pele para conhecer seu efeito. Isto é, ali encontra-se uma longa lista de nomes juntados de modo aleatório. Lista que pode ser vista como um convite ao leitor para que visite o território particular dos autores, suas obras e o tempo de cada uma. Um desafio maior. O que sobrevive a um minutinho de leitura?

Assim, fico imaginando que num dia do século XXII, quem sabe, alguém andando por um sebo qualquer desencalhe de uma das prateleiras um exemplar de "Os cem menores..." e reconheça entre a centena de nomes, aqueles que de fato conseguiram dialogar com seu momento e com aquele tempo que não pertence a nenhuma época específica e que é o a grande arte.

Por enquanto, sem este distanciamento, tudo me faz lembrar o saco de retalhos ao lado da máquina de minha avó. Um dia alguém costura esta colcha.

Segue abaixo a lista com o nome dos 100 escritores:

- Adriana Falcão
- Adrienne Myrtes
- Alberto Guzik
- Alexandre Barbosa de Souza
- Andrea Del Fuego
- André Laurentino
- André Sant'Anna
- Antônio Carlos Secchin
- Antônio Prata
- Antônio Torres
- Arthur Nestrovski
- Beto Villa
- Bernardo Ajzenberg
- Carlos Herculano Lopes
- Chico Mattoso
- Cíntia Moscovich
- Cláudio Daniel
- Claudio Galperin
- Cristina Alves
- Dalton Trevisan
- Daniel Galera
- Daniel Pellizzari
- Edyr Augusto
- Elvira Vigna
- Eugênia Menezes
- Evandro Affonso Ferreira
- Fabrício Carpinejar
- Fabrício Corsaletti
- Fabrício Marques
- Fernando Bonassi
- Flávio Carneiro
- Flávio Moreira da Costa
- Francisco de Morais Mendes
- Glauco Mattoso
- Henrique Schneider
- Índigo
- Ivana Arruda Leite
- João Anzanello Carrascoza
- João Filho
- João Gilberto Noll
- João Paulo Cuenca
- Joca Reiners Terron
- Jorge Furtado
- Jorge Pieiro
- José Castello
- José Mucinho
- Laerte
- Livia Garcia-Roza
- Luís Augusto Fischer
- Luiz Paulo Faccioli
- Luiz Roberto Guedes
- Luiz Ruffato
- Manoel Carlos Karam
- Manoel de Barros
- Marçal Aquino
- Marcelino Freire
- Marcelo Barbão
- Marcelo Carneiro da Cunha
- Marcelo Coelho
- Marcelo Mirisola
- Márcia Denser
- Marcílio França Castro
- Marcus Accioly
- Maria Pereira de Albuquerque
- Mário Bortolotto
- Mauro Pinheiro
- Menalton Braff
- Miguel Sanches Neto
- Millôr Fernandes
- Moacyr Godoy Moreira
- Moacyr Scliar
- Modesto Carone
- Nelson de Oliveira
- Newton Moreira
- Paloma Vidal
- Paulo Ribeiro
- Paulo Scott
- Pedro Salgueiro
- Raimundo Carrero
- Ricardo Corona
- Ricardo Soares
- Rodrigo de Faria e Silva
- Rodrigo Lacerda
- Rogério Augusto
- Ronaldo Bressane
- Ronaldo Cagiano
- Ronaldo Correia de Brito
- Roniwalter Jatobá
- Santiago Nazarian
- Sebastião Nunes
- Sérgio Fantini
- Sérgio Móia
- Sérgio Roveri
- Sérgio Sant'Anna
- Tatiana Blum
- Tony Monti
- Whisner Fraga
- Wilson Bueno
- Wilson Freire
- Xico Sá