Aula

"Minhas queridas alunas e alunos...", o professor começava sua aula. Foi interrompido por Luna, uma ruiva sardenta, que esboçou o primeiro sorriso da noite e com aquele dengo que somente mulheres encantadas podem ter, resolveu elogiar o mestre: "adoro as suas aulas, o senhor sabe que eu as repito em casa?"

Risos marotos brotaram em alguns rostos, sinais de certo desconcerto e perplexidade despontaram em outros. "É que o senhor começa suas aulas saudando primeiramente as alunas e depois eles", e a ruivinha apontou para os colegas que a rodeavam.

Toda classe tem um aluno bem-humorado, um ou vários, invariavelmente descrito como gaiato, palavra antiga que indicava o sujeito alegre, nascida da mesma base etimológica que deu o inglês gay. "O presidente Sarney também começava seus discursos saudando primeiro as brasileiras". "Não, pel´amor de Deus, você não vai querer comparar o nosso professor com aquele..." A aluna solidária não conseguiu terminar a frase. "Amigo", ele era do sul e iniciava todas as conversas deste modo, "amigo, ele também é escritor!", retrucou Ildo Carbonário, que acumulava na classe as funções de gaiato e sábio da turma. Nas provas, ele se concentrava, ficava irreconhecível, acertava todas as questões e ainda passava cola aos que precisassem e quisessem. Nas outras aulas, suas intervenções eram sempre muito engraçadas, mas debaixo daquelas graças todas escondia-se sempre o sabor de uma boa reflexão.

"Peraí", retrucou Luna. "Vamos por partes". E Ildo: "claro, como os açougueiros, não sei se este é o melhor modo de ensinar, mas é o melhor de aprender". "Professor, ele nem me deixa falar, a professora de Lingüística explicou que, para discordar ou concordar, é necessário primeiramente ensejar que o interlocutor conclua o seu pensamento". Ildo: "amiga, então você vai ter que esperar mais, desde criança eu tento concluir um pensamento e não consigo".

Jorge intrometeu-se: "você já concluiu faz tempo, você só pensa naquilo". Ildo: "elogio bom é este, o melhor elogio é o imerecido, porque quando merecemos os outros louvores, nós nos limitamos a concordar com quem nos endossa". Jorge: "adoça? Você não é diabético! Aliás, já adoçou algum cheque hoje?" "Conversar com ignorantes dá nisso, professor! Adoçar um cheque, veja o senhor! Se a palavra errada saísse da boca da dulcíssima Luna, eu ainda aceitaria, mas da do Jorge, não! E aproveito para reiterar à Luninha que ela é realmente dulcíssima como de Zélia Gattai disse Jorge Amado quando perguntado porque namorou e casou com ela". "O que ele disse?" Ildo: "Disse: vi, achei bonita; beijei, achei gostosa". Luna: "ele disse isso mesmo ou você está inventando?" "Amiga, Luninha, eu não invento nada, o ficcionista é o professor, não eu! E você captou bem a mensagem quando eu disse que você é dulcíssima e eu não sou diabético?" "O que é amiga para você, hein, Ildo?" "Luninha do meu coração, amiga para mim é como definiu a Elis Regina: "amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves dentro do coração". "Peraí", disse Jorge: "isso é amigo, amiga é outra coisa". Ildo: "Elis cantou amigo, mas eu sou lésbico, só posso cantar amiga". Jorge: "confessou, ele canta as amigas!"

Toda aula era a mesma coisa. Dois ou três conversavam. Os outros limitavam-se à participação com sorrisos, risadas e os mais tímidos ou os que não sabiam disfarçar o sofrimento, participavam com cautelosos silêncios. A bagunça durava alguns minutos e terminava logo porque o professor não fazia daquilo um bicho de sete cabeças, até entrava na farra, mas momentos depois batia palmas e avisava que a aula ia enfim começar.

"O tema da redação de hoje é a solidariedade. Vocês podem escrever narração ou dissertação". "Poesia pode, professor?" "Pode, claro. Com uma condição: o poeta deve indicar os últimos dez livros de poesia que leu". "Mas eu só faço poesia, eu não leio poesia para não contaminar o estilo". "Para não contaminar o estilo de quem? O do autor ou o seu?" "O meu, claro, professor, o senhor faz cada pergunta!" "Mas você ainda não tem um estilo, você ainda não o revelou, pelo menos". "Vou revelar na redação de hoje, professor". "Ótimo. Mas não deixe de indicar os vinte últimos livros de poesia que leu". "Mas não eram dez?" "Eram, mas você diz que tem um estilo! Deve ter lido mais do que os outros!"

Ildo não teve a mesma delicadeza: "amigo, você quer fazer poesia sem nunca ter lido livros de poesia? Cuidado onde você pisa, amigo, pode ser meu coração. En la lucha de clases todas las armas son buenas, piedras noches poemas. O amor é uma corruíra no jardim, de repente ela canta e muda toda a paisagem. Amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. Se você acertar um dos três autores, o professor te dá dez, ainda mais que dois são de Curitiba -- você não é do Paraná? -- e o outro inspirou até nome de bife".

Silêncio geral na classe. Todos sabiam que Ildo Carbonário era brincalhão, mas era o menos bobo de todos eles. Um dia tinha sugerido ao professor uma oficina literária com o jocoso título de Literatura para Bobos. "Bobo no bom sentido, é claro, professor! ", dissera sorrindo. "Então, o curso será só para você", dissera Jorge, o que sempre gostava de discordar de Ildo. "Amigo!" Ildo vacilou um pouco, não queria ofender ninguém e na classe havia um gago. "Deixa pra lá", ele falou. Jorge pensou que o vencera, mas ele lhe disse ao ouvido: "bobo veio de balbus, que em latim é gago. Os romanos chamavam de bárbaros e bobos os povos cujas línguas desconheciam porque achavam que eles gaguejavam, balbuciavam as palavras como os nenês".

O professor continuou. "Vou sugerir alguns caminhos". Ele sempre preparava os alunos. "Os exemplos de solidariedade são tantos no mundo. Se alguém quiser um viés religioso, que é como eu escreveria, pode inspirar-se na vida de um santo. Há tantos santos solidários, que por isso mesmo foram canonizados. O poeta Manuel Bandeira fez belo poema sobre pequeno incidente na vida de Santa Maria Egipcíaca. Ela era prostituta em Alexandria. Um dia estava em Jerusalém e soube da mensagem de Jesus. Resolveu informar-se. Quando se aproximava do rio Jordão, viu que um Bispo pregava na outra margem. Pediu ao barqueiro que a levasse ao outro lado. O homem disse que o pagamento era adiantado. Propôs-lhe que se ela se deitasse com ele, depois a transportaria. Maria Egipcíaca aceitou a proposta indecorosa, seu corpo era a moeda principal. Ao chegar à outra margem, já fizera outra travessia porque ainda no barco começou a ouvir o pregador, a água ajuda a espalhar o som. Depois disso, recolheu-se a uma erma, onde viveu o resto de seus dias em grande penitência, sofrendo muito, pois como prostituta contraíra muitas doenças".

"Professor, de onde vem a palavra solidaridade?". Luna queria outro caminho. "Vem do latim, como é freqüente nas línguas neolatinas, caso do Português. A origem é solidum, sólido, designando apoio seguro, derivando de solus, chão. No Hino Nacional cantamos "dos filhos deste solo és mãe gentil". No latim medieval certo monge copista registrou que um Bispo proferira sermão utilizando a forma solitarius, sozinho, que foi transcrita como solidarius, que dá segurança. O erro era de uma letra apenas. Mas há controvérsias. O latim jurídico já tinha a expressão in solidum, significando que em determinadas questões todos respondiam ou todos os bens estavam incluídos. O vocábulo fez escala no francês solidaire, cujo registro mais remoto é uma pendência judicial do século XVI. Daí à solidariedade foi um pulinho e em 1723 encontramos o primeiro registro de solidarité com o sentido que temos hoje no português, o de oferecer apoio seguro aos que precisam de nós."

"É por isso que lá em casa quando eu repito parte de suas aulas, todos me ouvem com atenção. Aqui também é assim, eu estou tão comovida", disse Luna. E o professor: "como é que é mesmo, Ildo? O melhor elogio é aquele que não merecemos, foi isso mesmo que você disse há pouco?" Ildo Carbonário era o maior gaiato da classe. "Mas o senhor merece", ele disse, irônico. "Entendi", disse o professor. "O seu, eu tenho certeza que não mereço, então!"

E continuou: "vamos adiante. Concluída a redação, vocês digam, por favor, num pós-escrito, o que é que acham de seguirmos o exemplo, que neste mundo globalizado nos deu um professor italiano, de aumentar um ponto na média final para quem comprovar que alfabetizou um adulto. Sim, porque em nossa cidade as crianças estão todas na escola, mas ainda há alguns adultos analfabetos!"

"Uma última pergunta, professor. Podemos colar?" Ildo era impossível. "A cola é uma das poucas provas de solidariedade entre os alunos", disse o professor, "mas eu me recuso a controlar quem quer enganar a si mesmo, porque para esses não há salvação, o principal aliado de quem quer sair de uma situação difícil é ele mesmo, nós só podemos ajudá-lo, jamais substitui-lo, como é que, por exemplo, poderemos alfabetizar alguém á força? "

Todos começaram a escrever, menos Luna, que veio à mesa. "O que é que o senhor vai fazer depois da aula?" Vinte e dois anos! Era uma estudante que trabalhava, segundo o Ministério da Educação, ou uma trabalhadora que estudava, segundo peculiar distinção do professor entre os dois conceitos. O viço, o frescor, que abandonava todas as mulheres mais cedo ou mais tarde, vivia nela seus dias de esplendor. Os seios apontavam sob a blusa, o olhar era uma espécie de cartaz do programa que se avizinhava. E que precisaria ser evitado com delicadeza. Por que as professoras das classes iniciais eram chamadas de tias e ele, que já chegara a uma faixa etária, que ele denominava sempre faixa otária, não fazia jus ao tratamento de tio? Tão bonitinho tio! Será que o tio professor estava enganado no diagnóstico? "Meu namorado quer muito conhecer o senhor. Não quer tomar um chope conosco?" "Chope, Luna?" "O que o senhor quiser. Mas é nosso convidado!" "O senhor, Luna? O senhor está em Paris ou no céu, aqui estamos apenas nós, que tanto precisamos uns dos outros, não é mesmo?" "Então?"

O namorado não foi ao chope, ele não gostava de vinho. No bar, havia outros colegas que chegaram à mesa. Formou-se um grupo que passou a se encontrar com freqüência no mesmo local. Resolveram fundar uma Organização Não-governamental. Ildo Carbonário é o presidente. Jorge, ninguém sabia, gostava de cantar em dueto. Levou Lorena, cantora lírica, para seu par, e ela agora também está no grupo. Um dia desses, o grupo acompanhou o cantor que ali se apresentava. Carbonário fez as vezes de Elis Regina; Lorena, as de Milton Nascimento: "o que importa é ouvir/a voz que vem do coração/ pois seja o que vier/venha o que vier/ qualquer dia, amigo/ eu volto a te encontrar/ qualquer dia, amigo/ a gente vai se encontrar".

DEONÍSIO DA SILVA é catarinense de Siderópolis, onde nasceu em 1948. Acompanhando sua família, que deixou Santa Catarina depois de uma tragédia familiar -- dois de seus irmãos morreram afogados num mesmo dia -- veio para o Paraná e de lá para o Rio Grande do Sul, onde se formou em Letras pela Universidade de Ijuí e obteve o mestrado em Literatura Brasileira pela UFRGS, em Porto Alegre. Em 1981, transferiu-se para São Paulo, para estudar na USP, onde obteve o título de Doutor em Letras com uma tese sobre os livros proibidos no período pós-64. Deonísio tem cerca de trinta livros publicados. Já recebeu alguns importantes prêmios, como o da Biblioteca Nacional de Romance por "Teresa" e o Casa de las Américas por "Avante, Soldados: Para Trás". Seu livro de estréia, "Exposição de Motivos", foi premiado pelo MEC e transposto para o teatro e para a televisão, com direção de Antunes Filho. Também "Teresa" foi transposto para o teatro, sob a direção de José Nélson de Freitas. Faz colunas semanais na revista CARAS, no Jornal do Brasil e nos portais www.eptv.com.br e www.observatoriodaimprensa.com.br . Seus livros mais recentes são "A vida íntima das frases"(editora Girafa), e "Os Guerreiros do Campo" (editora Mandarim, do grupo Siciliano). O próximo, "Goethe e Barrabás", que teve um trecho já publicado pelo O Estado de São Paulo, será lançado este ano pela Girafa. Atualmente, o escritor, que é professor aposentado, vive entre São Carlos e São Paulo, mas trabalha no Rio de Janeiro.