Aos seus pés

       Naquele tempo, eram enormes sobre o mundo os olhos do Senhor e infinita a Sua vigilância. O filho do Senhor já estava no mundo e Ele temia pelo que pudesse acontecer-lhe. À Terra o enviara para salvar os homens do seu destino, e de carne e osso o enviara para que fosse um deles. De pés e mãos, olhos e língua, o dotara; e de ideias, coração e ouvidos o dotara também, porque essas eram todas coisas de homens e porque Ele o quisera à imagem e semelhança destes. Pois só assim acreditava que Jesus pudesse ouvir e ser escutado, ver e revelar-se, tocar e sentir, atravessar os desertos até aos confins do mundo e conhecer o destino que devia mudar.

       Naquele tempo, o Filho do Homem era ainda um menino no colo da sua mãe e não sabia que contra ele se tinham dirigido já os gumes das facas, e as pontas afiadas das lanças, e as lâminas ainda mais frias dos machados. Porque por toda a Terra se dizia que esse menino que nascera em Belém seria um rei entre os homens, e um rei entre os reis - e nenhum rei acata ser destronado por um mito, e nenhum homem aceita por governante um desconhecido. Com a ajuda do Pai, a vida de Jesus fora poupada ao massacre, mas custara dezenas de vidas inocentes e as lágrimas de muitas mães e pais em toda a Galileia. E, enquanto, no Egipto, o menino brincava ao colo da sua mãe com os mamilos rosados que de vez em quando trincava, o Senhor preocupava-se com o que de mal pudesse ainda acontecer-lhe, e permanecia vigilante, pousando os Seus olhos enormes sobre o mundo.

       Os homens sentiam a força desse olhar como uma nuvem pairando sobre as suas cabeças, mas não sabiam bem o que sentiam. Não viam os olhos do Senhor - como alguns veriam mais tarde os do Seu filho - e, por isso, ignoravam que quem então os olhava mais não fazia do que amar e proteger um deles para amar e proteger todos os outros. Porque Deus, afinal, só queria que os homens recebessem Jesus com as suas alegrias imperfeitas e que as mulheres o amassem com as suas pequenas paixões incontidas; que lhe dessem a mão se mergulhasse num pranto convulsivo e lhe lavassem os pés no fim de uma jornada extenuante; que lhe oferecessem vinho e palavras para que se alegrasse e lhe estendessem pão e sorrisos para que não desfalecesse durante a sua longa viagem. Porque Deus só queria as coisas mais simples e verdadeiras para os Seus filhos, e nada mais do que elas.

       Os homens, contudo, nada conheciam dos Seus intentos, porque até ali o Senhor nunca lhes falara senão pelos profetas, e as palavras dos profetas estavam cheias de dilúvios e tormentas, de línguas de fogo e pragas de gafanhotos, de sacrifícios e condenações. E era por isso que, ao sentirem o olhar de Deus como uma nuvem pairando sobre as suas cabeças - e ao não saberem bem o que sentiam -, não viam nela a luz que iluminava o mundo, mas tão-somente a escuridão de uma sentença de morte. E, crendo que assim se salvariam do seu destino, aqueles que, entre todos, mais temiam morrer (e que eram os mesmos cuja vida menos valia aos olhos do Senhor) começaram, então, a abster-se do pecado; e, como se nunca o houvessem cometido em suas vidas, castigavam com a cruz o homem que roubava uma côdea de pão distraída ao vizinho, e com as pedras a mulher que trocava o seu corpo por um fio de azeite para o caldo dos filhos.

       Naquele tempo, vivia na Galileia, num vilarejo de pombas então conhecido pelo nome de Migdal, uma bela mulher de seios volumosos e longos cabelos, mas muito pobre, que se chamava Aura. Essa mulher chamada Aura ficara viúva exactamente no dia em que Jesus viera ao mundo e com três filhos que não podia alimentar. Os dois mais velhos - Lázaro e Marta - enviara-os por isso mesmo para Betânia, na Judeia, onde uma velha tia lhes dava cama e ceia e eles a ajudavam no que podiam dentro e fora da casa. Mas Aura não quisera separar-se da filha mais nova - que pouco mais nova era do que Jesus e não chegara a conhecer o pai -, por crer que era aos seios da mãe que deviam ser alimentados todos os filhos até o leite lhes secar completamente. E, como Deus era misericordioso e os seios da viúva grandes e pesados, a menina conseguira chupar neles até quase aos três anos ficando sempre saciada, mesmo se a mãe nunca tivera de comer uma única vez durante todo esse tempo, mantendo ainda assim o seu corpo a beleza e a graça que sempre havia tido. Aura, no entanto, que aceitava a generosidade de Deus mas nunca a exigira, pressentia agora, olhando o corpo da filha a querer crescer, que a fome se avizinhava. E chorava todas as noites, fosse porque, ao massajar os seios, deles não escorresse nem mais um pingo de leite; fosse porque aquela filha era a única alegria que lhe ficara da vida com o marido e não queria ter de apartar-se dela como dos outros se apartara.

       Naquele tempo, os homens deviam ter apenas uma mulher e as mulheres apenas um marido. Um homem só devia cortejar uma mulher se a amasse, e também se quisesse e pudesse dividir com ela a sua vida e os seus bens; e a mulher devia aceitar esse homem que a cortejava e, mesmo que o não amasse ainda, casar-se com ele, e dar-lhe filhos se um e outro pudessem, e ajudá-lo a ganhar a sua vida e os bens que depois seriam de ambos e passariam para os filhos, se os tivessem. Aura também sabia que era assim que devia ser, e que o que assim não era seria considerado pecado e punido na Terra às mãos dos homens antes de o ser nas chamas do Inferno. Vira muitas mulheres em Migdal serem humilhadas por se deitarem com forasteiros que mal conheciam ou com os maridos de vizinhas que tinham nojo de os receber à noite nas suas esteiras. E vira outras tantas serem apedrejadas por ganharem dois ou três dinheiros em troca de fazerem crescer os jovens e rejuvenescer os velhos no calor das suas enxergas. Rezara muitas vezes ao seu Senhor, pedindo-lhe que trouxesse uma luz aos seus pensamentos e lhe achasse uma ocupação mais digna do que a dessas mulheres, a que uma pobre viúva devia certamente ser poupada. Mas, fosse porque a Sua atenção por esses dias estivesse totalmente concentrada em Jesus, fosse porque um pecado era sempre perdoado a quem dele se arrependia antes de o cometer, Aura nunca chegou a ouvir a resposta de Deus.

       No primeiro dia em que saiu de casa para conhecer um homem que não era o seu marido, a viúva cobriu os longos cabelos com um véu, beijou a filha no rosto e preveniu-a de que não voltaria antes do crepúsculo. Tapou as frinchas das janelas com panos espessos e escuros e pediu-lhe que não se aproximasse delas enquanto estivesse sozinha. Recomendou-lhe que não abrisse a porta a ninguém e que, por mais que homens ou mulheres nela assentassem os seus punhos de fogo ou chamassem aos gritos pelo seu nome, nunca deixasse ouvir a ténue melodia da sua voz. Temia que os homens a castigassem do pecado da carne por meio da sua filha, a quem entregou, mesmo antes de partir, umas pedrinhas e uns galhos com que se entreter.

       No primeiro dia em que Aura se deitou com um homem que não era o seu marido - e com quatro se deitou nesse dia, todos eles casados e violentos -, regressou a casa ao crepúsculo por um caminho pedregoso que os vizinhos tinham deixado de usar, para que ninguém pudesse ver os reflexos da verdade no seu olhar. Trazia o rosto cheio de lágrimas e o coração apertado de sofrimento, mas escondia no regaço um naco de pão branco e um punhado de figos secos e, na concha das mãos, duas moedas com que no dia seguinte poderia comprar no mercado farinha, gordura e peixe fresco. A filha brincara todo o dia com os galhos e as pedrinhas, e não abrira a porta a ninguém, e não se aproximara das janelas, como a mãe lhe pedira, e não fizera ouvir o som da sua voz em nenhum momento ou lugar. Aura encostou o seu rosto húmido ao da filha e beijou-a também por isso, mas beijou-a sobretudo porque a amava muito, como antes só amara o marido e os outros filhos. E disse-lhe mais tarde, durante a ceia, que a partir desse dia, por muito que custasse a ambas, teria de ser sempre assim. E pediu-lhe que nunca quisesse saber porquê.

       Dias, e meses, e anos se passaram, e a menina, trancada na escuridão da casa, nunca ousou desobedecer às ordens da mãe. Via-a partir ao nascer do Sol com os olhos marejados de lágrimas e voltar ao poente com o rosto consumido pela dor, mas nunca lhe perguntava aonde ia ou donde vinha. Por vezes, Aura chegava com os braços e as pernas cortados por vergões vermelhos e o corpo dobrado de tanto evitar as pedras que lhe lançavam, mas a filha aprendera a guardar dentro de si a mágoa da mãe e deixava-a ir-se deitar sem trocarem palavra. Nessas noites, acontecia-lhe ficar sem sono ou ter pesadelos de que acordava num choro sufocado, mas no dia seguinte sentava-se de novo no chão fresco da casa e fazia desenhos no pó com os galhos que a mãe lhe dera, e compunha figuras na terra com as pedrinhas que a mãe havia já tanto tempo lhe entregara; e dizia a si mesma que Lázaro, o seu irmão que vivia em Betânia, era um galho, enquanto Marta, a sua irmã que vivia em Betânia, era uma pedra; e que uma pedra lisa, a mais bonita de todas as que possuía, era a mãe, enquanto o pai, que nunca conhecera, era sem dúvida o mais quebradiço dos seus galhos. Assim se entreteve a mais nova dos filhos de Aura ao longo de dias, e meses, e anos, enquanto a viúva via o viço do seu corpo desaparecer aos poucos para a poder alimentar. Mas, com o correr do tempo, foram-se rasgando, como as costas de Aura sob as unhas dos homens e as pedras mais certeiras, os panos que cobriam as portas e as janelas; e com o tempo se desfizeram também todas as pedrinhas da filha, mesmo a mais bonita; e primeiro do que elas se desfizeram obviamente os galhos.

       Dias, e meses, e anos se passaram até que a rapariga já nada encontrava com que se entreter dentro da casa e pediu à mãe, pela primeira vez na sua vida, que a deixasse ver como era o mundo. Pois estava cansada de viver enclausurada, e de passar os dias no silêncio e na penumbra, e de nada fazer senão vê-la partir de madrugada e esperar por ela assim que anoitecia. Aura ficou muito transtornada com aquele desejo da filha e contou-lhe que o mundo era um lugar cruel onde os homens invadiam os corpos das mulheres, e que era por não querer que isso lhe acontecesse que a preferia ali, guardada do pó das estradas e das mãos conspurcadas desses homens. E a filha, que ainda não sabia o que eram homens, também não teve coragem de lho perguntar, pois de dia para dia a via definhar - enquanto ela, ali recolhida, sentia os seios tornarem-se volumosos e os cabelos sempre mais longos e sedosos - e suspeitava, pelo tom que a mãe usara para falar deles, que os homens tinham alguma coisa a ver com isso. Contudo, no dia seguinte, quando Aura se despediu dela e saiu, a rapariga deitou-se no chão fresco da casa e pousou distraidamente os olhos entre as tábuas desencontradas de uma porta que um pano já muito puído descobrira. E através delas viu primeiro a luz que cobria o mundo, e só depois os pés dos homens que ali passavam a caminho de mais uma jornada de trabalho e sacrifício. E, encostando-se mais a essa porta, ouviu também as suas vozes, e com o passar dos dias começou a distinguir as vozes umas das outras, e a distinguir os pés de um homem dos pés de outro homem, até que, mais tarde, já sabia a que vozes todos aqueles pés pertenciam. E calculou que os homens, por terem todos pés diferentes, eram também diferentes; e pressentiu, pela ténue melodia de certas vozes, que, ao contrário do que a mãe afirmara, nem todos eram cruéis com as mulheres.

       Aura nunca soube o que levou a filha a resignar-se de novo com a sua clausura porque ela não lho revelou - primeiro por temor e por respeito, depois porque se tornou impossível fazê-lo. Pensou, porém, até ao último segundo da sua vida, que essa aceitação se devia mais às tarefas de mulher que decidira ensinar-lhe para preencher o oco dos seus dias do que aos pés e à voz de um ou outro homem que por ali passasse a caminho das suas tarefas de homem. E, como encontrava a rapariga invariavelmente feliz ao crepúsculo, quando regressava, essa felicidade bastava-lhe para sentir cada vez mais leve a própria dor, pelo que também nada lhe ocorria perguntar-lhe. Desconhecia, contudo, que as mesmas horas que passava fora de casa, deixando-se cobrir como uma cadela com o cio por corpos que achava repugnantes e lhe faziam sentir do seu o mesmo nojo, passava-as a filha - depois de realizar as obras que ela pela manhã lhe encomendava - deitada no chão da casa a observar atentamente os pés dos homens, e a ouvir atentamente as suas vozes; e bem assim a aperceber-se de que os pés magros e brancos eram, entre todos, irresistíveis, e de que as vozes claras e mansas eram, entre todas, as mais deliciosas; e a pensar que um homem que ambas as coisas possuísse teria, certamente, o seu amor - se o amor existisse -, embora, por ali, nunca tivesse passado homem assim.

       Aura nunca soube o que levou a filha a libertar-se daquela clausura de tantos anos, porque ela, quando quis revelar-lho, já não pôde fazê-lo. No dia em que a rua onde moravam se encheu de um rebuliço inusitado por causa de um homem de Nazaré que ali fora pregar, Aura estava muito longe de casa, cerrando os dentes e pensando com todas as suas forças no marido que amara, enquanto a penetravam brutalmente, como cães danados, um pai e dois filhos sucessivamente. E a rapariga, ouvindo subitamente na rua uma voz clara e mansa erguer-se acima de todas essas vozes que, com o andar dos anos, aprendera a reconhecer, parou de mexer o caldo de farinha e retirou o tacho do lume antes se deitar no chão para espreitar, entre as tábuas desencontradas da porta, como eram os pés a quem essa voz deliciosa pertencia. E viu, mal querendo acreditar nos próprios olhos, uns pés brancos e magros que lhe pareceram poder atravessar, descalços, os desertos e andar, sem peso, sobre as águas - uns pés absolutamente irresistíveis. Então, o coração saltou-lhe entre os seios e incendiou-se como uma labareda capaz de devorar qualquer temor ou respeito; as mãos tremeram-lhe junto às ancas e, num instante, encheram-se de suores frios que a seguir lhe arrepiaram todo o corpo; viu as pernas muito tensas afastarem-se de repente, como se não lhe pertencessem, e no vértice do triângulo assim criado sentiu o fulgor de uma chama onde ardia, sem mesmo assim se consumir, isso que em tempos devia ter unido o pai e a mãe, isso que só podia ser o amor. Mas a vibração inesperada que acompanhou esse minuto de combustão assustou-a tanto que a levou a perder os sentidos. Quando acordou, já não havia vozes na rua, nem pés, nem mesmo homens calados e escondidos; permanecia apenas a memória dessa visão que agora sabia querer perseguir pelos séculos dos séculos, ainda que para isso tivesse de queimar os próprios pés nas areias do deserto ou gelá-los nas águas do oceano. Deixou-se ficar deitada no chão, sem ser capaz sequer de devolver o tacho ao lume, e esperou a mãe para lhe dizer que, por muito que custasse a ambas, chegara a sua hora de partir. Aura, no entanto, não teve de sofrer o desgosto que essas palavras da filha lhe trariam. Porque o Senhor, desviando por instantes o olhar do Seu filho nessa tarde, pousara-o no corpo triste e devassado de Aura e, apiedando-se dela, cobrira-o com uma pedra e levara para junto de Si a sua alma antes do crepúsculo. Outras três mortes aconteceram nesse dia em Migdal - a de um pai e dois filhos -, mas dessas ninguém chegou a ter notícia, pelo que os corpos não foram sepultados.

       Naquele tempo, o Egipto já não era para Jesus senão o lugar de uma história longínqua que a mãe lhe narrava à ceia, como uma lenda, quando ele regressava a Nazaré, cansado e faminto, depois dos milagres do dia. O filho de Deus passara já dos trinta anos e, pouco antes da morte de José - o carpinteiro que recebera a mãe por mulher e com quem sempre vivera e trabalhara -, trocara a oficina, onde fora um aprendiz dedicado, pela poeira das ruas, aonde acorriam homens, mulheres e criancinhas de todos confins da Terra para ouvirem o que dizia a ténue melodia da sua voz. A morte de José mudara, porém, a vida de Jesus, levando-o das pregações aos actos. Pois fora o homem que deixara viúva a sua mãe quem uma noite, em sonhos, recebera do anjo a notícia de que deviam partir para o Egipto, salvando-o, assim, dos gumes das facas, das pontas afiadas das lanças, e das lâminas ainda mais frias dos machados; e fora também José quem o trouxera de volta à sua terra, e o alimentara todos esses anos, e o educara e protegera e amara como a um filho, se bem que Jesus soubesse que o seu verdadeiro pai era o Pai de todas as criaturas vivas e mortas e o único que podia enviar um anjo para dentro dos sonhos de José. O Filho do Homem tinha, porém, chorado copiosamente junto do cadáver do padrasto, pedindo ao Pai todo-poderoso que lho ressuscitasse. Mas Deus, que nesse fim de tarde desviara dele os olhos por momentos para trazer a Si a alma de uma pobre viúva que a fome e o amor tinham levado a corromper-se, não chegou a ouvir o seu pedido. E Jesus, olhando, por entre as lágrimas, a morte irremediável de José, prometeu-lhe que, em sua memória, se deixaria investir dos poderes do Pai e salvaria, enfim, os homens do seu destino.

       Naquele tempo, o filho de Deus aparecia nas ruas da Galileia, seguido de alguns homens que tinham decidido abandonar as suas tarefas de homens para o acompanharem, e à sua roda juntavam-se multidões para assistirem aos milagres que praticava. Pois Jesus entrava numa casa onde as pessoas estavam consternadas com o aviso da morte e, com a sua voz clara e mansa, levava dali a enfermidade que a traria; e entrava nas casas dos pobres e famintos e, com um gesto, multiplicava os pães para que tivessem sempre de comer, e a seguir transformava a água em vinho para que se alegrassem com a novidade da abundância; e curava os possessos e endemoninhados que cruzavam o seu caminho, e bem assim os leprosos e os hidrópicos; e trazia a luz aos olhos dos cegos, que deixavam de ser cegos no mesmo instante em que abriam os olhos para testemunharem a sua presença. Jesus continuava também a ensinar os homens e as mulheres por meio de parábolas e, ouvindo-as, aqueles que mais de uma vez tinham punido um pecado com a cruz ou com as pedras tornavam-se capazes de perdoar qualquer ofensa, mais grave até que o roubo e a luxúria, como ele perdoara ao Pai não lhe ter trazido José de volta nas longas horas em que velara o seu corpo. O Filho do Homem só não tinha ainda devolvido a vida àquele que morrera, e essa era a única coisa que então almejava - pela memória do padrasto e também para glória de Deus Pai.

       A filha de Aura, depois de ter descoberto o sentimento do amor, viu cair a noite sobre a sua casa do vilarejo das pombas, e levantar-se o dia, e tombar a noite mais uma vez, e erguer-se ainda em Migdal um outro dia. Só não viu regressar a sua mãe, que já não regressaria, porque Deus levara a sua alma para junto de Si e um corpo não pode mover-se sem uma alma. Ao terceiro dia, a rapariga que entretanto se tornara mulher tomou então consciência de que estava sozinha e, sentindo frio e fome pela primeira vez desde aquela tarde em que o seu peito se enchera de tumulto, levantou-se do chão e reparou que o lume estava apagado e azedas as papas no tacho que dias antes desviara das brasas. Tinha ainda algumas achas com que atear um novo fogo e grão guardado para outra refeição. Havia peixe a secar no terreiro e frutos doces e tenros num prato sobre a mesa. Aura armazenara também o fermento para o pão do Inverno e enchera de água fresca a grande vasilha de barro na véspera de morrer. Mas para quanto tempo tudo isso serviria?

       A filha de Aura, no dia em que tomou consciência de que estava sozinha num mundo que mal se atrevera a espreitar, perdeu imediatamente a fome que a despertara e teve a certeza de que, mesmo acendendo o lume no fogão, o seu calor mortiço não lhe arrancaria da carne o frio que sentia. Não conhecia ninguém que pudesse valer-lhe no seu infortúnio e na sua solidão, pois ao longo de trinta anos não a deixara a mãe sair de casa uma única vez, e supunha mesmo que só os irmãos se recordassem de que tivesse realmente nascido; tal como Aura lhe pedira no princípio - e não fora preciso pedir-lho nunca mais -, não deixara ouvir nem por um instante a sua voz durante todos os anos que ali vivera resguardada, e também não se debruçara nas janelas para ver os rostos dos vizinhos ou dos forasteiros que uma caminhada forçara até à sua rua. Tudo o que conhecia eram galhos e pedras, pés e vozes. E, por isso, soube que, para poder ir até Betânia e se juntar ao galho que era o seu irmão Lázaro, teria de seguir apenas uns pés e uma voz; e, para poder ir até Betânia e se juntar à pedra que era sua irmã Marta, teria de evitar todos os outros.

       Naquele tempo, Jesus surpreendera todos os que o seguiam - e também os que o ouviram depois das bocas maravilhadas desses - caminhando sobre as águas com a leveza dos seus pés magros e brancos. Pois foi como se o corpo do filho se tivesse tornado um espírito igual ao do Pai e, como um espírito, não tivesse um peso que os homens pudessem, na sua sabedoria, compreender. Isso levou a que todos aqueles que os apóstolos deixavam vir a ele passassem a respeitá-lo como, antes, só tinham respeitado o Senhor que criara o mundo e o homem que o habitava. Mas o filho de Deus não praticava o milagre para ser idolatrado, nem exibia os poderes que procediam do Pai para revelar a sua supremacia. Em toda a verdade, Jesus queria apenas acabar com os males do mundo para salvar os homens das suas mortes. Pois não havia mais nenhum destino para a carne senão a morte, e à Terra o enviara Deus para mudar esse destino, e de carne e osso o enviara, para que, como homem, conhecesse a morte e a transformasse em vida.

       Naquele tempo, já Jesus curara muitos doentes na Galileia colocando a sua mão fresca sobre as testas febris e transpiradas; e, ao dizer apenas umas palavras que os apóstolos iam gravando numas tabuinhas, os surdos, antes trancados no seu silêncio, ouviam-nas claramente; e, ao levantar das camas todos aqueles que juravam não poder dar passo, eles sentiam de súbito os pés e as pernas e imediatamente o seguiam fosse ele aonde fosse. A narrativa dos milagres de Jesus chegou, pois, à vizinha Judeia, onde os que ali se deslocavam não conseguiam falar senão desse homem que afastava o sofrimento da carne, e enchia os celeiros de um trigo que ninguém se recordava de ter colhido, e dava a luz, o som e os gestos àqueles que, antes da sua vinda, estavam deles privados. Foi, de resto, através de um desses viajantes, que entre a Galileia e a Judeia gastavam os pés e a vida, que Jesus teve conhecimento de que havia em Betânia um homem bom e generoso, de seu nome Lázaro, que estava a morrer; e de que a sua irmã mais velha, que se chamava Marta e era uma mulher trabalhadora e cheia de virtudes, rezava dia e noite ao seu Senhor para que levasse os passos de Jesus de Nazaré até sua casa e evitasse o pior dos males, que era a morte.

       A irmã mais nova de Lázaro, ao terceiro dia da morte da mãe, deixou finalmente a sua casa de Migdal e, mal podendo acreditar em tamanha dádiva dos Céus, viu a luz branca e macia do Sol banhando a Terra inteira. Os seus olhos tornaram-se rasgados, quando antes eram redondos, e a sua fronte clara e lisa encheu-se de pequeníssimas rugas sob o véu com que cobrira a cabeça antes de sair. Mas, se o seu rosto se apequenou e franziu ao tentar ajustar-se àquela luz desconhecida, o seu coração dilatou-se de repente, deixando entrar nele a claridade que, pensava ela, haveria de guiá-la até Betânia. Deixou, pois, a sua rua, confiante de que o caminho lhe apareceria sem ter de o procurar e andou sem cessar durante muitas horas, acompanhada por um bando de pombas que parecia não a querer abandonar na sua viagem; percorreu ruas e estradas de pó e areia sem que os seus pés delicados se ferissem ou cansassem, e para tudo e todos olhava com espanto e deslumbramento, porque nada lembrava antes desse dia senão galhos e pedras, pés e vozes, um único rosto e uma única casa; e agora via muitas casas e muitos rostos, e as casas pareciam-lhe mais bonitas do que a sua, e nenhum rosto lhe parecia cruel como a mãe afirmara. E esses rostos devolviam-lhe o mesmo espanto e o mesmo deslumbramento nos olhares que lhe lançavam ao passar, porque a mais nova dos filhos de Aura era ainda mais bela do que a mãe, e o seu corpo tinha ainda mais graça e viço, e o seu rosto de mulher era inocente e suave como o de uma criança.

       A irmã mais nova de Lázaro, no mesmo dia em que conheceu a luz que banhava a Terra inteira, conheceu também uma escuridão maior do que aquela em que sempre vivera mergulhada. Porque, quando o Sol se apagou - e por mais encantadoras que fossem essas pequenas lamparinas que se acendiam no céu -, o vilarejo onde então se encontrava tornou-se frio, as pombas que haviam acompanhado os seus passos durante o dia fugiram a recolher-se, as ruas esvaziaram-se num segundo de pés, vozes e olhares deslumbrados; o vento varreu os trilhos marcados nas estradas que ela julgava a levariam sem perguntas até Betânia e a noite encheu-se de um silêncio que devorava tudo e que, finalmente, a devorava a ela de cansaço. E, não tendo onde se abrigar, a filha de Aura recordou-se da casa da sua mãe e chorou; e não tendo o que comer, a filha de Aura recordou-se da casa da sua mãe e chorou; e, não tendo ninguém perto dela que a abraçasse, a filha de Aura recordou-se da sua mãe e chorou.

       Veio um homem do meio da noite perguntar-lhe o que tinha com uma voz clara e mansa, e a irmã mais nova de Lázaro respondeu-lhe que tinha fome, e frio, e ninguém que a abraçasse; que precisava de ir para Betânia, na Judeia, onde talvez lhe sobrassem um irmão e uma irmã, mas não sabia o caminho; e que procurava um homem que também não conhecia para lhe entregar o seu amor, que era grande e puro, pois a mais ninguém o entregara antes dele. E esse homem que viera do meio da noite, ajoelhando-se junto dela, prometeu que lhe daria abrigo, e ceia, e um abraço diferente de todos os que até ali havia experimentado, e as palavras que compunham o mapa dos caminhos para Betânia, onde os irmãos decerto a receberiam com a maior alegria deste mundo. E, olhando depois o seu rosto suave e inocente, acrescentou que esse homem que ela procurava, esse homem a quem ela queria entregar o seu amor, não era senão ele. E a irmã mais nova de Lázaro - que, na escuridão que envolvia a Terra nessa noite, não conseguia ver-lhe os pés -, ouvindo a sua voz deliciosa, acreditou.

       Veio um homem do meio da noite todas as noites que a essa se seguiram, mas nenhum deles era o homem que a filha de Aura, deitada no chão da sua casa de Migdal, ouvira uma tarde pregar à sua porta e lhe enchera o peito de tumulto. Todos lhe dirigiam a palavra numa voz clara e mansa e todos lhe prometiam tudo o que ela dizia que lhe faltava, pelo que, ao ouvi-los às escuras nas suas longas túnicas que lhes cobriam os pés, ela acreditava sempre cegamente no que diziam. Contudo, desde que abandonara a sua casa de Migdal, havia uma semana, e por mais que caminhasse o dia inteiro seguindo o mapa que, à despedida, os que passavam com ela a noite lhe desenhavam nas mãos com as pontas dos dedos, mais longe lhe parecia ficar a casa do irmão e da irmã, e mais longe lhe parecia ficar Betânia, e a Judeia, como se em círculos caminhasse, afinal, desde o princípio. E não se enganava muito a mais nova dos filhos de Aura na sua suspeita, porque todos esses homens que dividiam com ela a cama e a ceia e lhe davam um abraço que ela preferia nunca ter experimentado queriam poder voltar a dar-lho noutra noite, quando as mulheres que eram as deles os recusassem, enojadas, nas suas esteiras. E por isso lhe mentiam sobre todas as estradas que levavam a Betânia, e por isso também lhe mentiam sobre esse homem que ela procurava para entregar o seu amor, cada um lhe dizendo que esse homem não era outro senão ele.

       Entre os seios da irmã mais nova de Lázaro, depois de todas essas noites em que o seu corpo ia sendo sempre invadido por um homem diferente, o coração batia, porém, tão puro como no primeiro dia da sua vida. Porque ela recebia dentro de si os homens que a visitavam apenas como a parte menos feliz de uma esmola, e retribuía os seus espasmos febris e os seus beijos conspurcados apenas como um gesto inescapável de gratidão. Na sua infinita inocência, nem por um instante lhe ocorrera que o seu corpo já não era impoluto como no dia em que abandonara a sua casa do vilarejo das pombas, e nem por um instante duvidara de que esse corpo que ardera de amor na tarde em que a alma da mãe subira ao Céu permanecia intacto e imaculado, como sonhava entregá-lo a esse homem que, pelos séculos dos séculos, haveria de buscar.

       Entre os seios da irmã mais nova de Lázaro, depois de uma noite que, entre todas, foi a mais dura e longa de toda a sua vida - pois foi nela que voltaram todos os homens que antes a haviam tido uma só noite -, o coração apertou-se, pela primeira vez na sua vida, num novelo de dúvidas e maus pressentimentos quando, na enxerga em que adormecera de exaustão, a acordaram aos gritos as vozes ácidas de um grupo de mulheres que traziam as mãos e os regaços cheios de pedras. Foi só quando a primeira palavra a atingiu no peito, e quando a primeira pedra a atingiu no peito com o som dessa palavra, que a filha mais nova de Aura conseguiu encontrar a resposta à pergunta que a mãe lhe pedira que nunca formulasse. E, levantando-se com as poucas forças que lhe restavam para se salvar do seu destino - que não havia outro destino para a carne de uma pecadora senão a morte -, correu para fora da cabana com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, mas sabendo que não era por medo que chorava, nem pela dor das pedras que lhe iam vergando as costas, mas tão-somente por ter descoberto que o corpo que tinha para oferecer a esse homem que amava já não era o corpo que ele, na sua infinita bondade, merecia.

       E, por entre as vozes exaltadas das mulheres que a perseguiam, por entre os gemidos e os soluços e os ruídos da sua própria respiração ofegante naquela correria que ela, afinal, sabia já não a poder salvar do seu destino, a irmã mais nova de Lázaro ouviu uma voz não muito longe dali, uma voz estranhamente calma entre todas essas vozes que lhe gritavam; e, continuando sempre a correr para chegar a essa voz que tinha a certeza de reconhecer, por entre os pés que cruzavam os seus e lhe cortavam os passos para evitar que se escapasse do castigo que o seu pecado reclamava, a irmã mais nova de Lázaro viu, mal querendo acreditar nos próprios olhos, uns pés brancos e magros, uns pés estranhamente quietos entre todos os outros que para ela corriam. E, reconhecendo neles os pés a quem aquela voz deliciosa pertencia, parou junto deles e, ajoelhando-se, beijou-os incessantemente sem pensar e lavou-os depois com as suas lágrimas, que eram agora ainda mais do que antes, porque, além do desgosto de saber em quem se transformara aos olhos dos homens, estava finalmente aos pés do único homem por quem alguma vez sentira isso que em tempos devia ter unido o pai e a mãe, isso que só podia ser o amor.

       E, por entre as vozes iradas de todos aqueles que só pensavam em castigar a irmã mais nova de Lázaro pelo pecado da carne, mas tinham estacado, enfeitiçados, ao verem diante de si o pregador de Nazaré que se contava ser capaz de caminhar sobre as águas, Jesus perguntou o nome à mulher que, ajoelhada aos seus pés, os enxugava agora com os longos e sedosos cabelos das lágrimas que sobre eles derramara. E ela, sem o olhar ainda por vergonha, respondeu-lhe que se chamava Maria e era de Migdal, mas para Betânia, na Judeia, era o seu caminho, pois aí talvez lhe sobrassem um irmão que se chamava Lázaro e uma irmã que se chamava Marta, os únicos que poderiam ainda recebê-la sem pedras na mão. E Jesus, erguendo o olhar para uma nuvem que pairava sobre a sua cabeça à procura da luz e dos olhos infinitamente bons do Pai, sorriu pela primeira vez depois da morte de José e, baixando-se a seguir para se poder comover diante do rosto suave e inocente de Maria de Migdal, disse-lhe na sua voz clara e mansa:

       - Vês alguma pedra nas minhas mãos? Pois então vem comigo, ia justamente para Betânia salvar um homem do seu destino, e uma viagem faz-se sempre melhor em boa companhia. A tua irmã Marta ficará, sem dúvida, contente por te rever ao fim de tantos anos. E, mesmo que, pelo caminho, venham dizer-nos que Lázaro fechou os olhos esta noite, não o creias; tenho a certeza de que amanhã, quando chegarmos à sua cabeceira, não resistirá a abri-los de novo para olhar para ti.

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA nasceu em Lisboa em 1959. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Franceses e Ingleses, pela Universidade Clássica de Lisboa. Estudou paralelamente outros idiomas, como o alemão e o italiano, tendo sido bolseira na Università per Studenti Stranieri di Perugia em 1979.
Foi professora de Português e Francês durante cinco anos, actividade que a influenciou decisivamente a escrever para jovens. Ingressou posteriormente na carreira editorial, tendo desempenhado, desde 1987, as funções de assistente editorial, tradutora, redactora e directora de publicações. Actualmente, é responsável por uma editora pertencente ao grupo Bertelsmann. Publicou "Água das Pedras", "A Casa e o Cheiro dos Livros", "O Canto do Vento nos Ciprestes", "Nenhum Nome Depois", "Alguns Homens", "Duas Mulheres e Eu" entre outros e recebeu diversos prêmios literários.