Wood'stown

Traducão:
Ana Carolina da Costa e Fonseca


       O lugar era magnífico para construir uma cidade. Seria preciso, apenas, limpar as margens do rio, abatendo uma parte da floresta, da imensa floresta virgem enraizada ali desde o nascimento do mundo. Então, abrigada em volta por colinas arborizadas, a cidade desceria até o cais de um porto magnífico, instalado na foz do Rio Vermelho, a somente quatro milhas do mar.

       Assim que o governo de Washington deu a concessão, carpinteiros e lenhadores puseram-se ao trabalho; mas você nunca viu uma floresta parecida. Enganchada ao solo por todos os seus cipós, por todas as suas raízes, quando nós abatíamos de um lado, ela crescia do outro, rejuvenescendo de seus ferimentos; e cada golpe de machado fazia sair brotos verdes. As ruas, os lugares da cidade recém traçados eram invadidos pela vegetação. As paredes cresciam mais devagar do que as árvores e, assim que construídas, desabavam sob o esforço das raízes sempre vivas.

       Para vencer esta resistência na qual diminuíam o ferro dos machados e dos grandes machados, fomos obrigados a recorrer ao fogo. Dia e noite uma fumaça sufocante encheu a densidade das clareiras, enquanto as grandes árvores flambavam como círios. A floresta ainda tentou lutar, retardando o incêndio com enxurradas de seiva e com a frescura sem pressa de suas folhagens. Finalmente chegou o inverno. A neve caiu como uma segunda morte sobre os grandes terrenos cheios de troncos enegrecidos, de raízes consumidas. De agora em diante, poderíamos construir.

       Logo uma cidade imensa, toda em madeira como Chicago, estendia-se pelas margens do Rio Vermelho, com suas grandes ruas alinhadas, numeradas, dispostas em círculo em torno das praças, sua Bolsa, seus mercados, suas igrejas, suas escolas e toda uma aparelhagem marítima de galpões, de alfândegas, de docas, de entrepostos, de canteiros de construção para os navios. A cidade de madeira, Wood'stown - como a chamávamos - foi rapidamente povoada pelos ocupantes de cidades novas. Uma atividade febril propagou-se por todos os seus bairros; porém, sobre as colinas circundantes, dominando as ruas cheias de pessoas e o porto abarrotado de navios, uma massa sombria e ameaçadora se estendia em semicírculo. Era a floresta que olhava.

       Ela olhava esta cidade insolente, que havia tomado seu lugar à margem do rio, e três mil árvores gigantescas. Toda Wood'stown estava feita com sua vida. Os altos mastros que se balançavam ao longe no porto, estes telhados inumeráveis abaixados uns em direção aos outros, até a última cabana do mais afastado subúrbio, ela havia fornecido tudo, mesmo os instrumentos de trabalho, mesmo os móveis, medindo seus serviços somente pelo comprimento dos galhos. Por isso que rancor terrível ela guardava contra esta cidade de ladrões!

       Enquanto o inverno durou, não nos apercebemos de coisa alguma. As pessoas de Wood'stown ouviam às vezes um estralo surdo nos seus telhados, nos seus móveis. De tempos em tempos, uma parede rachava, ou o balcão de loja partia-se em dois ruidosamente. Mas a madeira nova está sujeita a esses acidentes e ninguém dava importância a isso. Entretanto, à aproximação da primavera - uma primavera súbita, violenta, tão rica de seiva que nós sentíamos sob a terra um murmúrio de fontes - o solo começou a se agitar, soerguido por forças invisíveis e ativas. Em cada casa, os móveis, as paredes inchavam, e nós víamos sobre os assoalhos longos inchaços como com a passagem de uma toupeira. Nem portas, nem janelas, nada mais funcionava. - "É a umidade, diziam os habitantes. Com o calor, isto passará".

       De repente, no dia seguinte a um grande temporal vindo do mar, que trouxera o verão nos seus relâmpagos brilhantes e na sua chuva morna, a cidade ao despertar soltou um grito de estupefação. Os telhados vermelhos dos monumentos públicos, os campanários das igrejas, o soalho das casas e até a madeira das camas, tudo estava salpicado com uma cor verde, fina como o mofo, leve como uma renda. De perto, era uma quantidade de brotos microscópicos, onde já se via o enrolamento de folhas. Essa esquisitice da chuva divertiu sem inquietar; mas, antes da noite, buquês de verdura desabrochavam por tudo, sobre móveis, sobre as paredes. Os ramos cresciam a olhos vistos; levemente retidos na mão, nós os sentíamos crescer e debaterem-se como asas.

       No dia seguinte, todos os apartamentos tinham o ar de estufas. Cipós acompanhavam os corrimãos da escada. Nas ruas estreitas, galhos uniam-se de um telhado a outro, recobrindo a cidade barulhenta com a sombra das avenidas florestais. Isto se tornava inquietante. Enquanto os sábios reunidos deliberavam sobre o caso da vegetação extraordinária, a multidão comprimia-se do lado de fora para ver os diferentes aspectos do milagre. Os gritos de surpresa, o rumor assombrado de todo este povo inativo dava solenidade a este estranho acontecimento. Subitamente, alguém gritou: "Olhem para floresta" e nós percebemos com terror que em de dois dias o semicírculo verdejante aproximara-se muito. A floresta tinha o ar de descer em direção à cidade. Toda uma vanguarda de espinheiros, de cipós se alongava até as primeiras casas dos subúrbios.

       Então, Wood'stown começou a compreender e a ter medo. Evidentemente a floresta vinha reconquistar seu lugar à margem do rio; e suas árvores, derrubadas, dispersadas, transformadas, libertavam-se para ir a frente delas. Como resistir à invasão? Com o fogo, nós nos arriscávamos a incendiar a cidade inteira. E que podiam os machados contra esta seiva que renascia sem cessar, essas raízes monstruosas atacando embaixo o solo, essas milhares de sementes voadoras que germinavam ao se abrir e faziam crescer uma árvore por tudo onde elas caíam?

       No entanto, todo mundo se pôs ao trabalho corajosamente com foices, com ancinhos, com machados; e derrubaram uma grande quantidade de ramos. Mas em vão. De hora em hora a confusão de florestas virgens, onde o entrelaçamento de cipós unia entre si brotos gigantescos, invadia as ruas de Wood'stown. A partir de agora os insetos e os répteis faziam irrupção. Havia ninhos em todos os cantos, e grandes bater de asas, e massas de pequenos bicos tagarelas. Em uma noite os celeiros da cidade foram esvaziados por todas as ninhadas recém-nascidas. Em seguida, como por ironia no meio deste desastre, borboletas de todos os tamanhos, de todas as cores, voavam sobre os cachos floridos, e as previdentes abelhas, que procuravam abrigos seguros, instalavam, nos ocos destas árvores rapidamente desenvolvidas, seus favos de mel como uma prova de duração.

       Vagamente, pela onda barulhenta de ramos, escutávamos os golpes surdos dos machados e dos grandes machados; mas, no quarto dia, qualquer trabalho foi reconhecido impossível. A grama estava alta demais, densa demais. Os cipós de trepadeira se enroscavam nos braços de lenhadores, reprimindo seus movimentos. Aliás, as casas tinham se tornado inabitáveis; os móveis, carregados de folhas, haviam perdido suas formas. Os tetos desabavam, transpassados pela lança dos iúcas, o longo espinho dos mognos; e no lugar de telhados esparramava-se a imensa cúpula dos carvalhos. Acabou. Tinham de fugir.

       Através da rede de plantas e de galhos de árvores, que se estreitava cada vez mais, as pessoas de Wood'stown apavorados se precipitaram em direção ao rio, carregando o máximo que podiam de riquezas, de objetos preciosos. Mas que dificuldade para alcançar a margem! Não havia mais cais. Nada além de gigantescos juncos. Os canteiros marítimos, onde se guardava a madeira de construção, foram substituídos por florestas de pinheiros; e no porto, cheio de flores, os novos navios pareciam ilhotas de verdura. Felizmente havia algumas fragatas blindadas sobre as quais a multidão se refugiou e de onde ela pôde ver a velha floresta unir-se vitoriosamente à floresta nova.

       Pouco a pouco as árvores confundiram suas copas e, sob o céu azul e ensolarado, a enorme massa de copas se estendeu das margens do rio ao horizonte distante. Nenhum traço da cidade, nem tos tetos, nem das paredes. De tempos em tempos um barulho surdo de desabamento, último eco da ruína, ou o golpe de machado de algum lenhador enraivecido, ressoava sob a profundidade da folhagem. Depois, nada mais que o silêncio vibrante, barulhento, sussurrante, nuvens de borboletas brancas voavam em círculos sobre a margem deserta, e, ao longe, em direção ao alto mar, um navio que fugia, com três grandes árvores verdes podadas no meio de suas velas, levando os últimos emigrantes do que fora Wood'stown...

ANA CAROLINA DA COSTA E FONSECA é mestre e doutoranda em Filosofia pela UFRGS.

ALPHONSE DAUDET nasceu em Nimes, a 13 de maio de 1840. Fez seus estudos no liceu de Lyon, mas antes de poder acabá-los, adversidades de família o obrigaram a aceitar um lugar de explicador no colégio de Alais, parra se manter. Foi esse um dos períodos mais tristes e sombrios de sua vida, que ele relatou pateticamente num das seus mais sugestivos livros, "Le Petit Chose" (1868), páginas quase inteiramente autobiográficas, em que há muito mais realidade que fantasia.
       Deixou aos dezessete anos aquele ingrato emprego para ir a Paris, a reunir-se com seu irmão Ernest, e a viver uma intensa boêmia.
       Em 1858 publicou seu primeiro livro, um volume de poesias, intitulado "Les amoureuses", sendo bem recebido pela critica que, com seu aplauso, o estimulou a prosseguir.
       Nesse mesmo ano publicou em "Le Figaro" um estudo intitulado "Les gueux de province", impregnado de viva emoção, sendo do gosto dos leitores daquele periódico e assegurando-lhe no mesmo assídua colaboração.
       No ano seguinte deu à publicidade um novo volume de poesias sob o título "La double conversion", que foram também muito festejadas.
"Lettres sur Paris" data de 1865, e embora este livro tivesse êxito, não se pode comparar ao que alcançava pouco depois "Lettres de mon moulin" (1866), que colocou Daudet entre os grandes escritores franceses de seu tempo.
       Ao êxito que acompanhou o já citado "Petit Chose" (1868), seguiu-se outro dos maiores triunfos já alcançados por este autor. Referimo-nos ao romance "Tartarin de Tarascon", (1872), um dos livros mais lidos e agradáveis de nossa época.
       "Contes du lundi" apareceu em 1873, e um anos depois, "Fromont jeune et Risler ainé", uma das suas mais belas produções, romance que foi premiado pela Academia Francesa e cujo êxito em breve transpunha as fronteiras da pátria do escritor.
       Em 1876, o mais realista e comovente de seus romances, e também o mais discutido, "Jack" vem afirmar ainda mais a reputação que de grande romancista já gozava Daudet.
       "Le nabab" (1877) é um excelente romance de clave, que deu muito que falar e conseguiu grande ressonância quando de sua aparição. Seguiram-se-lhe o irônico "Les rois en exil" (1879), "Numa Roumestan" (1881), "L'Évangeliste" (1883 ) , " Sapho " (1884), "Tartarin sur les Alpes" (1885), "L'immortal" (1888), "Port-Tarascon" (1890), "l,a Petite Paroise" (1895), "Soutien de famille'' (1898).
              Alphonse Daudet pertenceu à Academia de Goncourt desde sua fundação. Tendo uma vez rejeitado sua candidatura à Academia Francesa, o glorioso romancista abominou aquela instituição e escreveu contra ela o romance "L'Immortal", de grande alento satírico, no qual pintou bem ao vivo certos membros daquela douta casa.
Os últimos anos de Daudet foram amargados por pertinaz moléstia que o arrastou prematuramente no sepulcro, quando ainda podia esperar-se muito do seu talento. Este grande escritor morreu em Paris, a 16 de dezembro de 1897.
       Outras obras de Alphonse Daudet: "L'arlesienne", comédia lírica, com música do maestro Bizet, (1872); "Les cigognes" (1873); "La belle nivernaise" (1886); "Trente ans de Paris" (1888); ''Souvenirs d'un homme de lettres" (1888); "L'obstacle" (1890); '"L'árrivée (1891); "Rose et Ninette (1892); "Entre les frises et la rampe" (1894); "L'élixir du R. P. Gaucher" (1894); "Trois souvenirs" (1896); "L'enlèvement d'une étoile" (1896) ; "La Fédor" (1897); "Notes sur la vie" (1899).
       Muitas das suas novelas foram levadas pelo próprio Daudet à cena, alcançando no proscênio um ruidoso êxito.