Primeira vez

Ele deve ter sido bonito. Por trás das rugas que emolduram os olhos azuis, parece que existiu um cara atraente. Agora, é um velho. Com algum charme, mas um velho. Também, já imaginou se eu chegasse aqui e encontrasse um gurizão? Sairia pela outra porta. Aliás, o que tem atrás daquela porta? Uma biblioteca? Um banheiro? Câmara de tortura, onde ele guarda os corpos das mulheres que esquartejou? Bobagem. Ele não é desse tipo. Voz mansa. Sorri bastante sem ser cínico. Passa uma paz... Não sei por que as minhas mãos estão suadas. Te acalma, guria. Em trinta minutos tudo estará resolvido.

Será que ele percebeu o leve tremor do meu corpo? A mãe. Só pode ser ela que está me deixando nervosa. Por que ela não pára de falar? Não queria que ela tivesse entrado, mas ela fez questão para ajudar a me deixar à vontade.

Estou ficando cada vez mais nervosa. Será que ainda consigo manter a minha cara de tudo isso é muito natural, até estou um pouco entediada? Ele tem uma mulher bonita. Apesar de que essa foto é velha. Ele não pode ter dois filhos pequenos. A esposa deve estar um caco agora e os filhos, uns gatinhos, afinal, se puxaram ao pai, blue eyes... Uau! Ele olhou para mim e deu um sorrisinho, enquanto a mãe fala que eu devo estar próxima do início da minha vida sexual, por isso a importância de estarmos aqui. Um sorriso cúmplice?

Será que ele já notou? Deve ser treinado para isso, numa passada de olhos já sabe: essa aí não deu ainda, essa só uma vez e aquela outra é uma vagabunda.

Melhor que ele tenha se dado conta, assim não preciso falar. Por que os médicos adoram colocar diplomas na parede? Esses quadrinhos são de péssimo gosto. Tipo: olha só, eu sou o bonzão que fez todos esses cursos. São uns exibidos, isso sim. Mas, até que a decoração é legal. A mulher dele. Homem nunca tem noção dessas coisas. O pai não sabe nem que cinza e marrom não combinam, imagina, jamais conseguiria decorar uma sala. Acho que o couro dessas cadeiras poderia ser trocado, apesar de que até combina com o Dr. Velhinho, tão ultrapassado quanto ele. Como é mesmo o seu nome? Hum, deixa-me ver no receituário: Leopoldo de Borba. Ok, Dr. Borba, me diz aí: ainda come a loirosa da foto? Na tua trepada semestral, não esquece de usar camisinha, hein? Ela pode estar cozinhando para fora. Abre o olho. A mãe já está na ponta da cadeira. Deus seja louvado. Levanta-se e aperta a mão enrugada. De canto de olho, me mostra os dentes. Agora somos eu e o Borba.

O Borba e eu. Eu quero a minha mãe! Quando estou quase indo buscá-la na sala de espera, ele engata uma conversa. "Então, Camila, tens dezesseis anos?".

Que papinho, está escrito na ficha. "É, Dr., dezesseis". "Namorado?". "Não.

Quer dizer... não sei". Olha o que tu estás falando, como tu não sabes? Ele está olhando e sorrindo, deve estar me achando uma idiota. "Sabe o que é?

Eu tinha um namorado, aí a gente deu um tempo e voltamos há umas duas semanas.

Só que a mãe não está sabendo. Tipo assim: ela não era muito a favor do namoro, tá ligado?". Não deveria ter dito tudo, de cara. Certo que ele vai falar para a mãe. Tô fodida. "Camila, não te preocupas que não contarei nada para tua mãe. Mas fiquei tentando imaginar por que ela seria contra o namoro". E agora? Digo ou não digo? Falo mais ou menos, então. "Sei lá, Dr. O meu namorado não gosta muito de estudar. Ele quer ser músico. A mãe sempre desejou que eu namorasse um cara certinho, desses que fazem Direito ou Medicina". "Ah, entendi. É uma idéia um pouco antiga, não é mesmo?". Claro que não é só isso, a mãe é contra o namoro, porque ele me traiu e eu fiquei chorando nos ouvidos dela por dias. De qualquer modo, a mentira colou.

"Sabe, Camila, um dos meus filhos quer fazer Medicina e o outro deseja ser músico, assim como o teu namorado. Eu dou a maior força. Na vida, temos que fazer aquilo que gostamos. Talvez a tua mãe mude de idéia". Ótimo, sogrão.

Fico com os dois. Um agrada à mãe e o outro a mim. Desde que o músico não queria tocar numa orquestra, daí deixo os dois para a mãe. "Pois é, Dr. Um dia ela vai aceitar o nosso amor". Ótima fala! Parece história da novela das oito: uma paixão impossível. "Me diz uma coisa: vocês já tiveram relações sexuais?". Tá, e agora? "Não. Quer dizer, talvez sim". "Houve penetração?".

Bom, não dá para esconder o que ele vai ver depois. "Sim, mas foi só uma vez. Agora, no retorno. Muita saudade, entende?". "Vocês estavam usando preservativo?". "Sim. Quer dizer... não. Na verdade, eu sei que é importante, mas nós não utilizamos". "Quando foi a tua última menstruação?".

"Há duas semanas. Eu me liguei nisso para não engravidar". "Tu tens conhecimento de que esse método que escolheste é bastante falho?". Eu não optei por nada. Que tipo de opção eu poderia fazer estando bêbada, trancada num banheiro, no meio de uma festa, com aquele carinha que me deixa fora de controle? Depois de um ano namorando, eu estava louca para experimentar.

Tinha que ser com ele, o único cara de que eu gostei até hoje. Tinha que ser ali, porque ele podia me escapar de novo. Não havia opção. E se a gente se separasse mais uma vez? E se eu morresse virgem? Tragédia. Todas as minhas amigas já transaram. O velhinho não pára de falar. Resolveu dar uma aula sobre métodos contraceptivos. Ok, está fazendo o seu papel. "Tudo bem, Dr., na próxima vez, eu usarei camisinha". Isso se houver uma próxima vez. Faz três dias que ele não me liga. Merda. Espero não estar grávida. Já pensou? Ir ao colégio com aquele barrigão? Roubada. Meu avô ia me deserdar. Não, não posso estar grávida. "Vou te pedir um exame de sangue, para saber da possibilidade de gravidez e de doenças sexualmente transmissíveis". "Bah, vou ter que contar tudo para a mãe, então". Na verdade acho que ela já sabe, pois inventou essa história de ginecologista logo depois que tinha rolado. "Vamos passar à sala de exames?". Putz. Agora é que a coisa vai apertar. É melhor parar de tremer e sorrir. "É claro, Dr. Vamos lá". A porta sinistra se abre. Armários na parede. Balança. Uma cama com uns ferros espetados. "Tu podes tirar toda a roupa e colocar esse avental, com a abertura para frente. Quando estiveres pronta, bate na porta que eu venho". Pena que é verão, e eu estou usando só um vestido. Queria retardar um pouco mais. Que vergonha. Ele vai enxergar todas as minhas celulites. O segundo homem a me ver nua será um velho, o que ele fará comigo? Será que é um tarado? Talvez algum dia tenha sido, mas depois dos cinqüenta acho difícil o cara continuar gostando da coisa. Deve ter uma vaga lembrança. Vai ver que ele escolheu ser gineco, para, no final da vida, poder ficar recordando, cada vez que examina uma paciente, como era bom comer uma mulher. Deixa isso de lado. O homem é profissional. Lembra da galeria de diplomas? Coragem. Bate na porta. "Camila, vamos verificar o teu peso e a tua altura?". Ele vai me achar uma gorda. "55 Kg. Está bem para 1m 67cm". Balança mágica! Que maravilha! Sempre peso 57. "Queria que tu te deitasses na maca". Enquanto me acomodo, ele ajuda a colocar as minhas pernas nos suportes, de modo que eu fique completamente arregaçada. "Vou apalpar teus seios, barriga e axilas, está bem?". Não, claro que não está bem. Mas, vai logo, vamos acabar com isso duma vez. "O que vais fazer para o vestibular? Já escolheste o curso?". "Ah, eu estou entre duas faculdades.

Arquitetura e Publicidade. Não sei ainda. Eu gosto muito de desenhar, acho que seria legal projetar casas. Adoro observar a decoração dos lugares e fachada dos prédios. Mas eu curto um monte propaganda, sabe? Acho genial.

Não sei se teria tantas idéias criativas. Talvez o melhor mesmo seja Arquitetura. Ainda tenho um ano para decidir". Fiquei falando e, quando percebo, o cara já está sentado de frente para mim, introduzindo um negócio gelado na minha buceta. Agora está abrindo a coisa. Conta sobre o seu vestibular, que também tinha dúvida entre Medicina e Economia, porque gostava de matemática. Ai, que raspada é essa? Tirou o negócio. Alívio.

Silêncio. Será que acabou? Não, ele está olhando num microscópio e falando da sua escolha por ginecologia. Volta-se para mim, enfia a mão numa luva e esguicha um líquido nela. "Tu já viste o último filme do Matrix?". "Não, Dr., só vi o primeiro". "Meu filho é louco por esses filmes. Fala tanto que eu resolvi assistir". "E, aí, gostou?". Não consegui ouvir a resposta.

Sentia apenas o seu dedo furungando a entrada do meu útero. A outra mão pressionando a barriga. Estou suando. Calma, já vai acabar. "Podes te vestir, Camila". Passou! De volta ao consultório, já me sinto em casa.

"Está tudo bem comigo, Dr.?". "Sim, Camila. Pelo exame que fiz, não parece que estejas grávida, mas devemos fazer o teste mesmo assim". Viva! "Tudo bem".

"Vou te receitar um contraceptivo oral, mas isso não dispensa o uso de preservativo, entendeu?". Ah, Borba. Como tu és fofo! Que bom que vais dar pílula para eu tomar, era tudo o que queria te pedir, mas não saberia como.

Tu és um velhote bem avançadinho, hein? Como a mãe foi legal me trazendo aqui. Me sinto aliviada. Estou no caminho certo agora. Sala de espera.

Elevador. Rua. "Como foi, minha filha?". "Acho que é melhor a gente levar um papo, mãe". "Eu já imagino o que queres me dizer. Espero que tenhas usado camisinha, hein, guria...". As palavras de minha mãe se perderam no ar e não encontraram os meus ouvidos. Minha cabeça voava longe. Sentia um certo orgulho, não sabia bem o motivo. Parecia que eu era uma mulher de verdade agora.