Nothing is real

No banheiro do palácio da rainha da Inglaterra:
" George, porra, passa o baseado."
" Peraí, acabei de acender."
" Vai logo, senão chega o guarda."
" Deixa de ser paranóico, John. Daqui a pouco você vai ser Lord Lennon."
" Só se for o Lord da privada."
Barulho de descarga.
" Cacete. Não faz barulho."
" E agora com vocês, o fabuloso de Liverpool, o nowhere man, mais famoso que Jesus Cristo, Lord John Lennon - o nobre beatle de olhos vermelhos da privada do Palácio de Buckingham."
" Eu queria ser um polvo."
" Ih! O Ringo tá doidão."
" Eu sou um polvo, eu sou um polvo."
Barulho de descarga.
" Vou viver no jardim do polvo, na sombra. Eu sou um polvo."
" Eu sou o homem-ovo".
" Eu sou um elefante marinho."
Barulho de descarga.
" Pára de apertar a descarga, vai sujar."
" Calma, Lord Lennon."
" Imagine o escândalo, se pegam a gente."
" Aí a gente fala que o bagulho é da rainha-mãe."
Risos.
" Imagine a cara do Brian."
" Imagine todas as pessoas."
" Imagine o Daily News. Rainha-Mãe flagrada fornecendo entorpecentes para os Beatles."
" Dureza."
" Estes são dias duros."
" É, tô cansadão. Quando isso acabar, vou passar uma semana na cama pela paz."
" Eu queria ser um polvo."
" A gente já sabe, mas dá pra rolar o baseado?"
" Argh! Tá todo babado."
" Alguém tem fósforo pra tirar o cheiro?"
" O George deve ter incenso."
" Não tenho, não. Eu só vou me enturmar com os indianos daqui a dois anos."
" Eu sou um elefante marinho."
" Mais tarde. A gente ainda tá na fase reis do iê iê iê. A fase psicodélica também vai começar daqui a dois anos."
" Psico o quê?"
" Psicodélica. Vamos ser hippies. Já ouviu falar em LSD?"
" Que porra é essa?"
" Não sei. Ainda não inventaram."

2

" Quando inventarem, a gente experimenta?"
" Eu não. Esse negócio pode até enlouquecer."
" Esse Lord Lennon é um grande careta."
" Agora o baseado grudou na mão do Paul."
" Ah! Não! Eu só dei um tapinha."
" Calma, pessoal. Não briguem. Ainda tem mais. Sobrou daquele do Bob Dylan."
" Vamos acelerar aí. Daqui a pouco a guarda da rainha pega a gente."
" Eu sou o homem-ovo."
Tosse.
" É por causa desse fumo que o Bob Dylan canta com aquela voz. Ele fica prendendo a fumaça."
" Mais respeito com o meu amigo Bob Dylan."
" Isso aí. O Dylan quando dá dois não fica falando esse monte de bobagem que nem vocês."
" Pode crer. O Bob Dylan é cabeça."
" É. O maior cabeção."
Risos.
" Ouviu?"
" O quê?"
" Passos no corredor."
" Que paranóia!"
" Eu juro que ouvi."
" Deve ser Margaret - a Mocréia."
" Socorro."
Risos.
" Deixa eu dar mais um, aí. Pô, vai acabar."
" Agora eu ouvi mesmo. É o Mark."
" Que Mark, John? "
" Sei lá. Me passou um negócio ruim pela cabeça."
" Você tá viajando."
Batidas na porta.
" Sujou."
Barulho de descarga.
" Que cheiro é esse?"
" Foi o Ringo, Brian."
Risos.
" John, seu olho tá quase fechando. Está com alguma inflamação?"
" É que Lord Lennon tá virando japonês."
" Alguém aqui já transou com alguma japonesa?"
" Não. Mas eu tenho a maior curiosidade."
Risos.
" Vamos lá, rapazes. A rainha está esperando." 


ANDRÉ SANT'ANNA é escritor. Publicou Amor (Edições Dubolso - 1998), Sexo (7Letras - 1999 e Edições Cotovia/ Portugal 2000) e Amor e Outras Histórias (Cotovia - 2001). André Sant'anna teve o conto O Importado Vermelho de Noé incluído na antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Editora Objetiva - 2000), organizada por Ítalo Moriconi.