Mizoguchi

Eu já estive no escuro com outras pessoas. No escuro é possível fazer muita coisa, no escuro é possível fazer o que se quiser.

Eu nunca estive neste tipo de escuridão. Abri a cortina. A imagem na tela. A sensação que o preto e branco provoca na gente, o estímulo do filme preto e branco. Caminho devagarzinho para não tropeçar nas poltronas, encontro uma poltrona vazia e sento com agilidade, não quero atrapalhar ninguém, não queria daquela vez.

O silêncio da sala de cinema me preenche, sinto minha respiração, somente a minha, desta vez. A violência, a serenidade, quantas vezes podemos sentir essa violência e essa serenidade? Tenho vontade de conversar com os espectadores, exprimir minhas impressões, estimulado que estou pelo fluxo de imagens. O filme acaba.

As luzes acendem e olho para frente e olho para a esquerda e olho para a direita. Não há ninguém naquela sala. Sinto um temor de olhar para trás, de ver o que não quero ver, de ver mesmo na escuridão, ela poderia estar lá? Ela queria estar naquele local? O ruído de uma mesa sendo arrastada atrás de mim faz com que me vire bruscamente. Alguém monta um stand comercial na entrada da sala de projeção. Me aproximo do stand, desengonçado, sentindo-me enganado, o único otário presente naquele evento.

Um japonês ajeita latas de cerveja em montinhos de três. Ele não me vê. Está de costas, ajeitando as latas de cerveja em montinhos de três em um desenho geométrico. A paciência e a suavidade com que trabalha fazem com que eu me aproxime encantado, como se os personagens do filme que acabei de ver tivessem saído da tela. Consigo ler a marca da cerveja: sapporo. Então ele me descobre. Sorri para mim. Pega uma lata de cerveja e me oferece esta lata de cerveja. Eu a seguro. Está quente. Sem nenhuma palavra, sem nenhum gesto desmedido ou desencontrado, ele tira a lata de cerveja da minha mão e, com uma expressão de mestre de picadeiro, com uma expressão de samurai, ele abre a cerveja, ele puxa a argola, exclamando, naquela voz fina e cativante de japonês: ARÁA. 

Seu sorriso é intenso. Olho para os lados, procurando encontrar seu público, procurando algum outro descuidado, algum outro insólito cidadão. 

Estamos sozinhos. 

O japonês quer que eu segure novamente a lata de cerveja. Sorrindo sem graça, eu a pego. Uma mudança significativa ocorrera entre aqueles dois atos - a cerveja ficou gelada; estupidamente gelada. Não consigo conter um sorriso, não consigo deixar de admirar aquele japonês. 

A cerveja desce em um gole. A cerveja desce como sempre uma cerveja deveria descer. O expositor japonês balança a cabeça, para cima e para baixo, aprovando minha sede. Então levanta um dedo, como se quisesse minha atenção máxima, como se dissesse você não perde por esperar, como se ele estivesse em um bar ou clube agitado, em uma grande cidade, acostumada com o maravilhoso e com o inusitado. 

Estamos no Instituto Goethe da minha cidade, em um dia de semana chuvoso. Eu sou o único espectador da mostra do diretor de cinema, visto camisa preta, visto calças pretas, sou um desses caras magros que se acham inteligentes e descolados. Eu tenho um segredo horrível que a cerveja não empurra para o fim.

O japonês me mostra uma segunda lata de cerveja. Pede para que eu a toque. Hot, hot, ele fala, abanando a mão. ARÁA. A mágica acontece. Geladinha, uma delícia, bebo o líquido com sofreguidão. O terceiro ARÁA já não tem a mesma graça. Tento conversar com ele. Não me entende quando falo em português, não me entende quando falo em inglês. O homem que só fala japonês. 

Ele ri para mim, atrás do stand, eu fico olhando para ele. O representante comercial da cerveja sapporo. Solto uma risada, a situação é absurda, tenho medo. Não gosto de ficar sozinho, não gosto de escuridão, as pessoas vão para o cinema para esquecer, eu prefiro estar aqui do que naquela festa. 

Eu bebo uma cerveja atrás da outra, em um determinado momento, eu digo para ele beber também, eu pego uma lata e ofereço para ele. Ele abana as mãos, recusando a oferta. Um funcionário põe a cara para dentro da sala, deve estar nos esperando sair, eu não tenho carro, eu não trouxe guarda-chuva, acho que tem uma parada de ônibus perto daqui. Então eu pego a cerveja ainda fechada, estico o corpo, como se estivéssemos em uma solenidade, e digo ARÁA quando levanto a tampa, sclamk. O japonês me olha surpreso, o japonês me olha maravilhado. Meu gesto o desarma, ele pega a latinha e toma um gole respeitoso. Acho que ficamos amigos.

No filme teve uma cena que me tocou particularmente, ela era mais ou menos assim: o jovem filho do personagem principal, fruto de uma tradicional família japonesa do pós-guerra, vive ilhado entre os hábitos antiquados do passado japonês - hábitos ainda praticados por sua família - e os novos valores que pouco a pouco modificavam o país. Sentindo o estranhamento entre o mundo exterior e o mundo íntimo que toda aquela sociedade, em maior ou menor grau, também estava sentido, acaba por permanecer um tempo cada vez maior dentro do seu quarto. Quando a família percebe seu comportamento, utiliza sua autoridade para fazê-lo sair daquele isolamento. Principalmente seu pai, que luta para mantê-los imunes aos novos acontecimentos. 

De todas as pessoas da casa, a única que parece entendê-lo é sua irmã. Ela é o único membro da família que ele deixa entrar no seu quarto. Ela concorda com suas observações, diz que a liberdade pessoal é a nova filosofia, diz que cada um deve e irá fazer cada vez mais somente o que quiser, sem prender-se a antigas regras, rituais, hábitos. Mas essa conduta deve ser observada nos bares e universidades, entre os jovens. Dentro de casa, ela diz, tudo deve permanecer como era antes, nossos pais são velhos para mudanças, ela diz. 

Os irmãos sempre conversam sobre suas vidas, no quarto, sufocados que estão dentro daquela casa; vão se tornando cada vez mais íntimos, mais intensos. Aí chega a cena de que falei. Uma noite, os pais dormindo, eles no quarto, há uma poesia nos seus corpos jovens, eles começam a brincar entre si, jogando travesseiros, livres, e, quando não há mais travesseiros, quando o quarto está uma bagunça, ela joga-se por cima dele para continuar a brincadeira com seu próprio corpo. Alguma coisa surge entre eles quando isso acontece, alguma coisa surge em seus olhares quando se cruzam e se fixam, uma liberdade que é a ruptura daquilo que foi e ficou para trás, acho que isso mesmo, não havia nada para separá-los. Lentamente, eles deitam na cama dele e se beijam, e o corte da cena para um amanhecer deixa claro que tudo aconteceu, é, deixa bem claro que tudo aconteceu.


O japonês me oferece uma embalagem com seis latinhas, da maneira como gesticula, entendo que quer que eu as leve para casa. Eu agradeço, ele sorri. Essa cena não existe, essa cena nunca existiu, essa cena é a imaginação febril de um espectador solitário. Tenho uma recepção, uma festa familiar esta noite, minha irmã está voltando de um curso de pós-graduação na Inglaterra. Eu estou sozinho quando poderia estar rodeado de parentes, estou em uma sala mal iluminada, com um estranho, quando poderia estar conversando amenidades, discutindo futebol, abraçando minha irmã; estou ficando terrivelmente bêbado quando poderia estar sóbrio. Isso porque a cena que eu acabei de relembrar, essa cena que eu inventei, a cena da escuridão e da garota deitada na cama e do garoto que se aproxima ferozmente e retira a roupa - sempre a escuridão - e monta sobre a garota e ele vê que ela gosta e ele gosta loucamente, esta cena não é uma invenção. 

Eu não estou nesta reunião familiar, com meus pais e minha irmã, porque esta cena que acabei de descrever foi exatamente, sem imaginação ou retoques, sem parábolas ou artifícios, o que eu fiz no dia que ela entrou naquele quarto escuro e eu e a minha irmã fodemos. 

GIBRAN TSCHIEDEL DIPP  nasceu em Porto Alegre em 1975. Estudou cinema e teatro. Atalmente dedica-se a publicidade Obteve o Premio Santander Cultural de Porto Alegre.