Katherine Mansfield: algumas impressões

Katherine Mansfield, nascida na Nova Zelândia, filha de pais ingleses e que abandonou o clima agradável, a vida abastada na bela ilha para entregar-se com paixão a seu intuito de tornar-se escritora, seguiu para Londres aos 20 anos com a ajuda paterna de 100 libras anuais. Contribuiu para jornais e revistas e iniciou uma vida social intensa. Em 1909 casou-se com um professor de canto para se separar dele após a noite de núpcias. O divórcio ocorre em 1918 quando se casa com J. M. Murry, jovem editor e ensaísta. 

Poucas foram as traduções de sua obra no Brasil. A partir de 1992, a editora Revan começou a traduzi-las. Hoje, temos em português os principais dos 88 contos de Mansfield, incluindo Prelude (Prelúdio), At the bay (Na praia ) e The doll’s house (A casa de bonecas). Estes três contos fazem parte de uma novela inacabada. Demonstram a transição da obra de Katherine Mansfield para o romance. Os personagens, baseados na sua vida na terra natal, pedem mais que uma novela. Várias são as tramas e a saída só poderia ser encontrada na estrutura de um belo romance cuja semelhança poderíamos enxergar na obra de Virginia Woolf, no livro To the lighthouse (Passeio ao farol). O inverso também poderia ser dito, To the lighthouse possui a atmosfera de alguns contos de Mansfield. Elementos da natureza, a vida íntima de um casal e suas crianças são influências recíprocas entre autoras que tiveram contato intenso. No entanto, Katherine Mansfield nunca escreveu um romance. 

Todos sabem da grandeza da obra de Virginia Woolf e esta reconhecia o talento de Mansfield, uma das mais promissoras escritoras daquela época e admirada pelo Clube 17, que foi uma espécie de sucessor ao Bloomsbury. Assim, ao lado de Virginia Woolf, T.S. Eliot, Ezra Pound, James Joyce e Marcel Proust é que era lida e comentada. 

Desde 1915, os Woolf planejavam ter sua própria impressora. Alimentado o sonho, compraram em 1917 a máquina e a instalaram em Hogarth House. Seria a Hogarth Press. Através dela, publicaram seus próprios contos e, em seguida, Prelude, de Katherine Mansfield. Mais tarde, receberam a incumbência de editar Ulysses, de Joyce. Não puderam aceitar, pois a pequena Hoghart Press não possuía condições técnicas. Secretamente, Virginia só não se negou de pronto a publicar a grande obra de Joyce porque não saberia o que dizer. Reconhecia o talento do escritor, mas achava que sua obra era infame. Leve-se em conta a sensibilidade da romancista e uma identidade com Joyce que Quentin Bell define da seguinte forma: "Parecia-lhe ter uma espécie de beleza, mas também um brilho rude, arguto, de sala de fumantes. Joyce usava instrumentos parecidos com os dela, e isso era doloroso, pois era como se a pena, sua própria pena, tivesse sido arrancada de suas mãos e alguém rabiscasse com ela a palavra foda no assento do vaso sanitário. Também sentia que Joyce escrevia para um pequeno grupo…", e por aí vai. 

Se mergulhamos assim em Virginia é para mostrar que tipo de relação a autora de Orlando poderia manter com os seus pares. Com respeito a Mansfield, foram alimentados sempre os sentimentos de animosidade e admiração. Ao que parece, cotejando fragmentos dos diários das duas autoras, Woolf preocupou-se com e admirou Mansfield mais do que esta última o fez em relação a V.W.. Mansfield, à época em que se relacionaram, estava gravemente doente (aproximadamente, a partir de 1917). Woolf, como dizem em psiquiatria, estava compensada. Ou seja, as crises de loucura haviam se abrandado. Mansfield, por sua vez, preocupava-se com um jeito de curar-se da tuberculose e com a falta de Murry, que não foi um exemplo de marido. Ela só se queixou disso a ele quando lhe fez um poema onde desposava a Morte, pois esta não lhe abandonava nunca. 

Murry foi incapaz de deixar seus compromissos como editor e acompanhar a esposa nas idas aos lugares mais salutares para seu estado. Analisando as cartas, pode-se supor que não se tratava de uma má pessoa, mas que talvez não agüentasse o sofrimento e nem tivesse grandeza suficiente para ser solidário. Assim, na maior parte do desenvolvimento da doença, Mansfield só não esteve totalmente sozinha porque sua amiga Ida Baker a acompanhou. 

Alguns de seus contos são quase transcrições literais do diário que manteve. Um exemplo disso é o encontro com Francis Carco - com quem estava tendo uma aventura amorosa - em pleno front de guerra que está narrado em: An indiscret journey (Uma Viagem imprudente). Seu talento conseguia transformar realidade em ficção a ponto de tirar todo o realismo das cenas e dar um caráter de sonho ao que se passou. Este talento espargia-se tanto nos contos como nos diários e cartas. Também sua condição de inválida e a relação com o marido estão presentes no conto A man without a temperament (Um homem indiferente). 

Para não se entregar ao desespero, foi a Paris submeter-se a um tratamento à base de bombardeamento de raios X no baço com o Dr. Manoukhin. Não viu resultados. Como única alternativa para manter um fio de esperança, entregou-se ao guru Georgei Ivanovitch Gurdijeff. Internando-se em seu instituto (1922), a uma hora de Paris, seguiu sua filosofia como uma religiosa carmelita. Dedicou-se a estudar russo, além de ralar as mãos descascando legumes, sofrer com o frio estúpido e com as regras absurdas do lugar. Murry se separou de Mansfield nesse período, pois achou insano o seu gesto. Lá, apesar das humilhações, relatadas em Os Anos Loucos: Paris na década de 20 (William Wiser, José Olympio Editora, 3.ª edição,1995), que precisava sofrer para desprezar o corpo e elevar a alma, aparentava melhoras. Talvez isso se deva ao fato de que a solidão lhe foi abrandada pelo guru e seus amigos. Em 9 de janeiro de 1923, Murry a visita a pedido dela. Fica feliz em vê-la e reatam. Katherine Mansfield morre, neste mesmo dia, aos 34 anos.

ELAINE PAUVOLID é carioca, nasceu a 19 de dezembro de 1970. Funcionária pública. Formou-se em Psicologia em 1994. Ingressou no curso de mestrado em Ciência da Arte na UFF, em 1996. Em 1998, estreou como poeta com Brindei com mão serenata o sonho que tive durante minha noite-estrela... (Imprimatur/7 Letras). Seu segundo livro chama-se Trago (edição artesanal da autora, 2002), prefácio de Gerardo Mello Mourão, foi lançado no evento ConVerso no Café,coordenado pelo grupo Poesia Simplesmente, no Café do teatro Glaucio Gil.
Participou, como contista, das coletâneas: III Antologia Nau Lierária (Komedi, 2001) e VI Coletânea Komedi (Komedi, 2002), e das coletâneas de poemas: Poetas Cariocas (Íbis Libris, 2000); Santa Poesia (MMRio, 2001); Cadernos de Poesia ( n.º 29, Oficina Editores, 2001), Terça ConVerso no Café (Grupo Poesia Simplesmente, 2002),Perfil 2003 (Oficina Editores 2203); Babel- Revista de poesia tradução e crítica (nº 5, Revista Babel, 2002); Revista Poesia para Todos (nº3,Galo Branco, 2001). Na Argentina, em 2003, foram publicados no jornal Nuevo Diario de Santiago del Estero, três poemas do livro Trago nas versões em português e espanhol e um ensaio crítico que aponta a autora como uma das promessas da poesia carioca. A convite do poeta Márcio Catunda, participou do livro Rios com poemas de seus dois primeiros livros e outros inéditos. Seu e-mail é pauvolid@olimpo.com.br. Foi selecionada e teve seu poema publicadao na coletânea COMO ÁNGELES EN LLAMAS / Algunas voces latinoamericanas del S. XX. / Selección.Editorial Maribelina, sello de la Casa del Poeta Peruano / Lima.Con el auspicio y promoción de ABRACE- Uruguay/Brasil, com poemas de Trago, em versão castelhana, realizada pela contista panamenha Consuelo Tomás.