Film noir

Cena 1

Foi na casa da Gwyneth Paltrow, durante uma festa. A garota punk entrou. Ela era uma dessas raras americanas de corpo mignon e esbelto. Uma loirinha de olhos azuis que contrastava fortemente com a roupa preta, as tatuagens e os piercings. Sua agressividade destoava do rosto de boneca. Mas o mais insólito era que ela trazia na mão uma bíblia. 

“Coisa de americano”, pensei. Ela me olhou de alto a baixo e veio em minha direção. Só me faltava essa, ser catequizado por uma falsa punk numa festa em Hollywood. Exatamente no momento em que Julia Roberts se inclinava pra me cumprimentar com os beijinhos de praxe, a punk se interpôs entre nós. Deixei naquele instante de sentir o toque daquela boca carnuda da Julia, razão suficiente para mandar a loirinha punk se fuck. 

Mas fiquei mudo. Ela colocou a mão no meu ombro. Que olhos, my God! Duas bolas azuis faiscantes. Aí ela sorriu um sorriso meigo, fez um breve aceno de cabeça e me ganhou para sempre. Que coisa, cheguei a esquecer que ali, bem atrás de mim, a Julia Roberts conversava com a Cameron Diaz. Duas bocas fenomenais movimentando-se a poucos metros de mim e eu ali de quatro pela boquinha da evangélica punk. 

Em silêncio, ela abriu a bíblia. “Vai querer que eu leia um versículo”. Tudo bem, depois engato um papo, tentando descobrir novas tatuagens naquele corpo (ainda) coberto. Olho para o volume aberto sobre sua mão. Custei a processar o que estava vendo. O livro era oco e funcionava como um estojo para uma pistola 9mm. Uma arma prateada apenas vislumbrada durante o gesto rápido de abrir e fechar o volume. 

Eu não falei que era coisa de americano? Empurrado pela moça, fui andando, sentindo a pressão de sua mão nas costas. Não esbocei nenhuma reação. Até porque um brutamontes foi logo segurando meu braço assim que atravessamos o jardim em direção ao estacionamento. Deu tempo de ver o Pierce Brosnan saltar de um carrão. Isto no exato instante em que me seqüestravam como se eu fosse coadjuvante de um filme de James Bond.

Fui jogado no banco de trás de um Lincoln Continental. O parrudo pegou a direção e a garota sentou ao meu lado. Tudo muito rápido. Inclusive a coronhada que ela me deu, forçando minha cabeça para baixo enquanto saíamos pelo portão da casa da atriz. 

Apavorado, perguntei em português o que significava aquilo. Tentei verter para o inglês, mas os neurônios paralisados provocaram apenas um som de robô enguiçado. Resolvi ficar mudo e esperar os acontecimentos. Pânico total, enquanto a garota me apalpava em busca de alguma arma. Logo eu que não carregava nem mesmo o roteiro que tinha levado pra festa. 

Na verdade, tinha deixado o roteiro bem visível em cima de uma mesa da biblioteca, na esperança de que algum produtor o visse. Nunca se sabe. Um roteiro promissor, com ação, suspense e algum toque exagerado de aventura, bem ao gosto dos estúdios, como na cena em que um personagem é seqüestrado por uma misteriosa punk no meio de uma festa numa mansão de Hollywood. 

Hein? Meu Deus, virei o personagem que eu mesmo criei! Roubaram uma cena do meu roteiro e estão fazendo-a ao vivo comigo! Surrealismo total. O pior é que o cara desmaia ao inspirar um lenço da punk e só aparece numa outra cena como cadáver estendido na mesa fria de um necrotério. Claramente uma citação porreta de um filme B. Foi então que apaguei, depois que a punk colocou um lenço molhado no meu nariz. 

Cena 2

Pelo menos não acordei na mesa fria de um necrotério. Disto estou bem certo. Apesar da tremenda dor de cabeça e a vontade incontrolável de vomitar até a alma. Tudo isto depois que acordei na cama estreita de um quarto miserável. Na janela recortada pela persiana de lâminas horizontais um clarão esverdeado piscava intermitente. Sem dúvida, o reflexo de neon de algum estabelecimento suspeito, na calçada em frente. Que mistério era aquele? 

Não demorou muito pra saber. A porta se abriu e o brutamontes e a punk entraram. Ele, com um chapéu de aba caída na testa, vestia um terno azul marinho de risca de giz. Ela já não lembrava em nada a punk de antes. Agora estava mais para loura fatal, com um vestido colante e uma pequena boina onde sobressaía uma pena sei lá de que pássaro. Quais dois personagens escarrados de film noir, realçados por aquele cenário de filme B da década de 40. Mais George Raft e Anne Baxter impossível. Só faltava o Humphrey Bogart, na pele de Sam Spade, entrar de repente e me salvar daquele sufoco. 

Ainda em pânico, consegui levantar-me e dar alguns passos, mas a tontura me obrigou a cair sentado numa poltrona sebenta. “O que significa isto?”, perguntei, adorando repetir este diálogo que os personagens sempre usam nos momentos cruciais. Duas pistolas apareceram nas mãos deles, os canos apontados para mim. Eles sorriram friamente, como vilões de um filme vagabundo. Vi seus dedos apertarem os gatilhos. 

Não houve explosão. No lugar das balas, dois buquês de flores surgiram dos canos, abrindo-se em copa. Foi difícil captar de imediato o que estava acontecendo. Tudo aquilo uma simples brincadeira, pô? Só podia ser, ainda mais com aquelas gargalhadas que soavam longe, embora fosse claro que vinham dos dois engraçadinhos diante de mim, ou do que restava de mim. 

Porque não há dignidade que resista à sensação do pânico que se frustra de repente. É um alívio, sei disto, mas um alívio em todos os sentidos. Mesmo assim tentei pelo menos buscar um pouco de serenidade para compreender. Eu precisava de uma explicação. Até que ouvi suas risadas diminuindo e vi suas expressões gaiatas se recompondo. E aí eu soube toda a verdade. 

Eles eram dois atores interpretando os vilões do meu último roteiro. Tudo bem. Mas por quê? Quem os contratou? Eu queria saber tudo, tentar pelo menos entender aquela situação totalmente absurda. 

A versão deles: um cineasta tinha contratado os dois para testar o efeito daquela cena. Foi tudo através de uma agência, por isto eles não sabiam quem era o tal cara. Simplesmente foram instruídos a seguir as indicações do roteiro. A produção tinha sido bancada pelo próprio cineasta. 

Minha versão: um desgraçado fez esta gozação comigo. Mesmo assim, aguardo o telefonema do tal cineasta. Ainda mais agora que os takes do seqüestro já foram ensaiados. Corta. 

CARLOS SÉRGIO BITTENCOURT - Nascido em Cataguases, participa ativamente da área cultural da cidade desde a década de 60, destacando-se como teatrólogo e contista. No Rio de Janeiro, nos anos 70, formou-se em Comunicação Social e estudou no Conservatório Nacional de Teatro. Na década de 90 participou de workshops no Actor’s Studio de Nova York e em Genebra, na Suíça. Atualmente reside em Cataguases, onde é professor e diretor de teatro, além de manter sua atividade literária como contista e autor teatral.