Bicicletas

Para Celi Freitas 

       Você acorda apenas um momento antes que se iniciem os ruídos, abre os olhos que trazem ainda alguns fiapos de sono e sonhos - e não sabe quem é ou onde está. Mas isso dura apenas um segundo, logo se percebe na cama familiar e recupera a identidade não "perdida", mas que no sono havia se evolado levemente.

       Você não sabe ainda porque acordou, não é habitual que acorde assim em alta noite ou plena madrugada, seus olhos buscam os números vermelhos do rádio-relógio na mesinha ao lado, que brilham como um néon. Curiosamente você não procura saber que horas são, parece que quer apenas se certificar de que as coisas mergulhadas na penumbra continuam ainda lá, mesmo que parcialmente, e a presença das luzes vermelhas, mais por sua existência do que pelo que podem informar, lhe assegura que os objetos familiares continuam ali, e também você, por extensão. Madrugada. A palavra, ou antes seu significado, lhe chega de repente e você então se pergunta porque acordou, certamente não é sede, os lábios e a boca estão úmidos, a língua também não está seca, a bexiga por sua vez não se encontra cheia nem há nenhuma sensação incômoda no corpo, apenas um certo torpor, natural em quem acaba de despertar. Você se move devagar, puxando a colcha leve que lhe vem até o peito, afasta um braço trazendo-o à testa, com a mão ajeita uma mecha desgrenhada do cabelo fino, o siamês que dorme desde sempre embolado entre seus pés se mexe de leve, ronronando baixinho em meio ao próprio sono, procurando ajeitar-se aos pés da cama e por entre seus pés de um jeito que só os felinos, esse em especial, sabem fazer. Você desce a mão tocando a face áspera da barba que, pensa não sem certa contrariedade, terá de fazer ao amanhecer.

       Você olha então para o outro lado do quarto, para a janela, que é um retângulo mais claro recortado da escuridão do cômodo, por trás da cortina cerrada, a cortina verde e fina que o separa da rua, do frio, da ventania. Porque está ventando, isso você percebe mais pelo movimento das sombras das árvores através da cortina, espécie de teatro de sombras, do que pelo som; não há quase nenhum som de ventania, mas os galhos das árvores, ou os galhos que você pode ver deste segundo andar e da posição em que se encontra na cama, agitam-se em silêncio, talvez por ser outono e as folhas das árvores já se terem há muito perdido, caídas nos bueiros, metidas nas latas de lixo, queimadas algumas nos monturos, esses destinos que são os de quase todas as folhas de outono nesta cidade atapetada de cimento; enfim, talvez por ser outono e os galhos quase todos estarem nus, meros ramos erguidos para o alto, não se escuta o som característico do atrito das folhas umas contra as outras. Você se aconchega mais, a cama é quase um ninho com sua colcha, o lençol que produz uma sensação agradável contra a pele, os travesseiros fofos, e aguça os ouvidos: no quarto ao lado pode escutar o ressonar de sua mãe, que se agita, bate com a mão na cabeceira da cama produzindo um ruído seco mas suficiente para despertar a si mesma, porém logo volta a mergulhar nas águas profundas do sono; mais além o tic-tac do relógio marcando com cadência militar o escoar das horas e também os sons habituais que parecem emergir todas as noites, mal nos recolhemos: uma gota que pinga, um taco que estala, o freezer que liga ou desliga.

       Quando está prestes a fechar os olhos, num esforço para voltar ao local de onde havia sido tão inexplicavelmente retirado, isto é, voltar aos próprios sonhos, se sonhos havia antes do seu despertar inexplicável, você os ouve pela primeira vez. A princípio baixo, quase imperceptível, na esquina além, talvez, você ouve o som familiar porém no momento ainda não identificado, como um trepidar de metais ligeiro, um som que finalmente corta o profundo silêncio da noite fendendo-o em dois. Uma bicicleta. Você custa a descobrir a imagem que se encaixe ao som, mas finalmente e por acaso a figura de uma bicicleta vem a sua mente e você descobre que está certo, é uma bicicleta a coisa que produz aquele som, meio parecido com o de um carrinho vazio de supermercado quando é empurrado e vai contra algum obstáculo; trepidante mas inconfundível, o som da bicicleta. Uma bicicleta, você pensa, uma bicicleta no meio da noite. Você apura os ouvidos, à maneira de um sonar procura estabelecer as distâncias, a localização exata e geográfica desse elemento estranho que é, ou deveria ser para a maioria, uma bicicleta no meio da madrugada. Pareceu-lhe por um momento que a bicicleta havia parado, decidindo talvez qual direção tomar, se você está certo e a bicicleta está mesmo próxima da esquina só há duas opções: seguir em frente e mergulhar na madrugada, seu trepidar característico sumindo aos poucos, as coisas voltando ao silêncio e à naturalidade da noite, ou entrar pela rua, passar diante da casa onde há um homem deitado no escuro, a cabeça já meio fora do travesseiro, erguida em perscrutação, e da mesma forma sumir-se na noite, as duas opções ao final dando num mesmo destino, alheio ao homem que está deitado e escuta em silêncio. A bicicleta volta a produzir o som que indica movimento e que devagar vai aumentando, você percebe que ela vem em sua direção, em sua direção não, corrige-se, na direção da casa, você aguarda que ela passe de vez para voltar a dormir, que não há motivos para um homem que tem de trabalhar cedo ficar a estas horas acordado esperando que o escuro da janela por trás da cortina verde se tinja de tons cada vez mais claros, você aguarda que a bicicleta passe, quase defronte de sua casa há um quebra-molas e você antecipa o momento em que o barulho da bicicleta vai se tornar mais pronunciado, ao pular o obstáculo, talvez sua mãe acorde do sono leve que tem e se agite, a estas horas uma bicicleta, quem, o quê, talvez não, mas você aguarda pacientemente a bicicleta, que a julgar pelo som está já bem próxima, súbito pára, a bicicleta, um momento antes de passar pelo quebra-molas, você aguarda que ela passe, mas não há qualquer som, a noite de novo mergulhada no silêncio, você olha para o teatro de sombras da cortina e os galhos continuam a se agitar, mas não há nenhum som, só as sombras balançando e o brilho fosco da luz do poste da esquina batendo no vidro da janela, você espera um, dois, três segundos, a bicicleta parece que desapareceu, assim como num passe de mágico, nada, mas você fica em expectativa, de novo começa o barulho, porém não é, você se dá conta depois de um momento, na mesma direção, parece que a bicicleta deu meia-volta, que retorna à esquina, ao poste com seu círculo de luz, e pára. Agora são dois que aguardam, você pensa, por alguma razão você tem uma aguda percepção de que ela aguarda também, mas não exatamente o mesmo que você, que apenas quer voltar a dormir, voltar ao ninho protetor e morno dos lençóis da cama dos travesseiros; ela, a bicicleta, aguarda algo mais, ou talvez não, que já se põe em marcha novamente, de novo repete o trajeto até o quebra-molas, dessa vez passa sobre ele num salto, num trepidar de metais, de aros e correntes, passa defronte da casa com o homem que ouve, vai até a outra esquina, sob um mesmo e igual círculo de luz como o do primeiro poste, você imagina, pois não consegue imaginar a bicicleta senão sob a luz do poste, no meio do círculo, postada como uma aparição, as sombras em redor, de novo em espera, de quê você logo descobre, um segundo apenas depois que a bicicleta pára, como se cronometrado ou ensaiado, um segundo apenas outro som semelhante surge na primeira esquina, ou se ouve, que os sons não surgem, ainda mais em plena madrugada, outra bicicleta, semelhante à primeira, ou semelhante a qualquer outra bicicleta já feita ou por se fazer, mais semelhante àquela talvez por estarem assim tão próximas as duas na mesma madrugada, na mesma rua e sendo ouvidas pelo mesmo homem, as duas bicicletas, a da primeira esquina em movimento, depois de uma parada de um instante, um bater rápido de pálpebras, de novo rodando, você tem a impressão de que ela gira em círculos em torno do poste na esquina, como se a marcar o território, a outra bicicleta no segundo poste em silêncio, mas ainda lá, você tem certeza, com aquela qualidade que tem o silêncio da madrugada de, após qualquer som, tornar-se mais presente e pleno de espaço, agora são duas bicicletas você diz baixinho para si mesmo, em tom persuasivo, como se não lhe bastassem as evidências e você precisasse convencer a si mesmo do fato, de que duas bicicletas estão presentes na madrugada antes silenciosa e que um homem, num segundo andar, por trás das janelas e da cortina verde, deitado em sua cama, é a única testemunha delas. A segunda bicicleta de repente se resolve e vem pela rua, passa pelo quebra-molas e continua seu caminho, juntando-se à primeira debaixo do outro círculo de luz, você presume, pela primeira vez você se agita, levanta um pouco mais o corpo da cama, o gato sente sua agitação e abre os olhos, dois faróis que refletem sua perplexidade, ele também não sabe por que acordou, ou não entende, o que dá no mesmo, os olhos do gato voltados para você brilham no escuro, são como faróis de bicicletas você pensa, mas estes são familiares, não representam qualquer ameaça ou situação inesperada que reclame urgentemente a tomada de atitude, qualquer decisão, que é mais ou menos o que você pensa a respeito das bicicletas, que se tornaram suas pelo fato de você as ter ouvido na madrugada, isso basta como título de propriedade, se não legalmente, de fato, que as madrugadas não exigem como títulos de posse das coisas nelas mergulhadas nada além do interesse, do ato de se debruçar sobre elas, as coisas, só isso, e você mais as bicicletas agora estão envolvidos, há um laço que os une, tênue mas laço; você se volta mais plenamente, investigando o silêncio em busca de quaisquer vestígios, de elementos que completem a paisagem mental que vai construindo, deitado sobre a cama e envolto na colcha leve, essa paisagem que tem as bicicletas, as duas, os postes, os círculos de luz e a ventania silenciosa como elementos, mas logo e sem se fazerem anunciar outros elementos têm de ser acrescentados à sua paisagem mental, novos sons que fendem uma vez mais a noite, não ao meio, mas em vários pedaços, várias nesgas, fragmentando a madrugada, pois outras bicicletas surgem na primeira esquina, duas ou três, dessa vez é difícil precisar exatamente, o barulho agora confunde, já não se mostra destacado, inteiro, as novas bicicletas se põem a circular pela rua, chegam talvez até próximo do quebra-molas, depois recuam, uma de cada vez, duas, várias, as duas bicicletas primeiras, que ficaram sob a luz do segundo poste, também se animam, fazem seu ruído, ajudam a estilhaçar a noite, parece que respondem às de cá, algumas se tornam mais velozes, mais decididas parecem, na paisagem mental que você vai tentando desordenadamente completar, tantos agora são os elementos, tão agitados, que vai se tornando cada vez mais difícil acompanhar os sons que vem de fora, aproveitá-los todos, inseri-los em seus exatos lugares no mapa que você vai fazendo de ouvido, curiosa forma essa de mapear uma realidade, mas válida como qualquer outra, já que todas ao final são mais ou menos aleatórias, não se tome o mapa pela coisa que se mapeia, as bicicletas insistem, fazem seus sons, se havia antes qualquer pretensão ao silêncio ou à discrição, agora elas se tornam mais audazes, pulam para a calçada do outro lado da rua, freiam bruscamente, pulam o quebra-molas como um obstáculo bem-vindo, você de repente pensa que não sabe porque sua mãe no quarto ao lado ainda não acordou, o gato sim, esse acordou de vez, há pouco estava despreocupadamente lambendo uma pata, no asseio natural aos da sua espécie, agora se põe meio de pé, levanta as orelhas, focaliza-as na direção do ruído, ele também quer fazer o seu próprio mapa, a natureza foi para ele mais generosa, dotando-o de instrumentos mais precisos mas em compensação há nele menos preocupação, um ruído é apenas um ruído, nada mais, você é que se agita nos lençóis, uma invasão, pensa de súbito, é como uma invasão e, por analogia com o som da palavra, pensa também, é uma convenção, uma convenção de bicicletas, a idéia até que seria curiosa se você tivesse tomado consciência dela num jornal ou revista, não agora, exatamente na sua rua, uma convenção no meio da noite, um festim, um sabá de bicicletas, todas elas em êxtase, é bem assim que você pensa, num frenesi, as bicicletas, e enquanto vai pensando, tentando organizar com as palavras um quadro que lhe seja tranqüilizador, que o permita sentir-se senhor de si, das circunstâncias, você ouve novas bicicletas que chegam à esquina, às esquinas, que simultaneamente em ambas as esquinas novos ruídos se iniciam, a dança louca das bicicletas continua por toda a extensão da rua, será que nenhum outro morador despertou, você se pergunta, ou será que estão todos também paralisados, expectantes, envoltos em suas colchas, por trás das cortinas cerradas, tentando se convencer de que as bicicletas são um sonho, um resquício de um sonho, um fiapo de um sonho que por atrevimento ousou vir de acompanhante para o mundo dito real, para essa madrugada perdida na ventania silenciosa, e você se dá conta de que não há mais a possibilidade de se levantar, não agora, de responder ao chamado de sua mãe no quarto ao lado que finalmente despertou, que chama por você, cada vez mais alto, mais estridente, por que aquele ruído, aquelas bicicletas, a essa hora meu Deus!, todas mergulhadas no seio da madrugada profunda.

SAIN-CLAIR é mineiro, mora no Rio de Janeiro. Tem 31 anos e um livro inédito: 'Dias estranhos".